Não é "por aí", certamente. Insistir na ideia de que é possível fazer convergir a taxa de inflação ? que está namorando o "teto" da banda (6,5%) - para o centro da meta (4,5%), apenas manipulando a elevação do juro real, como passaram a defender com alguma insistência analistas dos mercados financeiros, é fingir ignorar o enorme custo social das medidas que teriam que ser impostas à população.
Pecam pela ansiedade: os agentes sociais respondem mais às suas expectativas sobre o futuro incerto do que às condições objetivas em que estão vivendo. Talvez seja assim em relação a todos os aspectos de sua vida na sociedade. Na economia, entretanto, o "futuro" é empiricamente demonstrável e tão determinante que impõe mudanças na teoria e, consequentemente, na formulação da política econômica. Os economistas sempre souberam disso, mas nunca o levaram muito a sério até os anos 70/80 do século passado.
Um exemplo interessante dessa mudança é a teoria que desaguou na nova política monetária. Substituiu-se o controle da oferta monetária pelo controle da taxa de juros, acompanhado da lenta construção do sistema de "metas inflacionárias".
Os dois instrumentos seriam capazes de realizar simultaneamente os objetivos de manter o desemprego no nível mais baixo possível e consistente com a estabilidade da taxa de inflação. Antes disso era comum a sugestão (estimulada por um keynesianismo de "pé quebrado") de tentar conciliar os dois objetivos mediante uma política de renda: controle de preços e controle de salários. Muitos países desenvolvidos a adotaram, até mesmo os Estados Unidos e, proporcionalmente, ainda mais os subdesenvolvidos, inclusive o Brasil. Deu tudo errado, no mundo e no Brasil!
A nova "teoria" é tão elegante quanto óbvia: se todos os atores (governo e agentes privados) obedecerem a mesma forma de comportamento por terem sido convencidos de que a "expectativa" de inflação é a da "meta", esta se realizará. O instrumento para atingi-la é um Banco Central independente que recebe a "meta" do poder político e tem a obrigação de cumpri-la, com o ajuste da taxa de juro real de longo prazo que equilibra a "oferta total" com a "demanda total" no preço médio cuja variação é a taxa da "meta". Se houver recalcitrantes, a ferramenta de persuasão do Banco Central é o aumento da taxa de juro real de longo prazo, que pune todos os agentes: os trabalhadores com o desemprego, os empresários com a queda das vendas e dos lucros e o governo com aumento do seu déficit e de sua dívida. É claro que existem muitos "se" nesse desenho e alguns até "c" com cedilha... Mas ele é plausível.
Por definição, é por demais evidente que tal sistema não pode conviver com o controle de preços, porque este cria a "expectativa" de maior inflação. Hoje, quando a taxa medida de inflação namora com o teto da banda, dois terços da população brasileira acreditam que ela ainda vai subir. Isso mostra que fazê-la convergir à "meta" de 4,5% apenas com a manipulação da taxa de juros real imporia custos sociais insuportáveis.
O autor é ex-ministro da Fazenda e articulista do JC