A atitude de Daniel Alves ao juntar a banana atirada e comê-la foi inteligente. Pôs o racismo para escanteio e quem escorregou na casca foi o torcedor que a atirou. Nem os olhos verdes e o gesto desconstrutivo do jogador acabam com o preconceito. A escravidão dos negros foi justificada pelos teólogos em razão da "maldição de Cam". Noé havia proibido seus descendentes de ter relações sexuais na Arca. Mas Cam concebeu um filho durante o dilúvio que, por castigo de Deus, nasceu negro. A Bíblia não fala nada disso. Foram contos que se acrescentaram para justificar a escravidão. Ao negror da pele associaram o negror da alma: os negros traziam de modo indelével a marca do pecado que os fizera nascer.
Desde 1951 os biólogos e antropólogos substituíram o conceito de "raça" pelo "grupo étnico". São da mesma espécie os capazes de copularem e procriarem. Bertrand Russell (morto em 1970) foi um influente o filósofo e lógico. Observou: "Não há qualquer prova de que seja vantagem pertencer a uma raça pura. As raças mais puras atualmente são os pigmeus, os hotentotes, os aborígenes australianos. Os gregos antigos eram os mais misturados e também os mais civilizados". O sábio britânico respondia a Allan Kardec, o iniciador do espiritismo que considerava seres inferiores os hotentotes (bosquímanos da África Oriental). Júlio Verne, em "Cinco Semanas num Balão" os chamou de "homenzinhos desprezíveis". Ninguém está livre do racismo. Mesmo aqueles que pensam que não são racistas. Nelson Rodrigues achava que, sem preconceito o mundo perderia um pouco da sua potencialidade trágica. A Fifa, há uma década patrocina a campanha "Say no to racism", sem êxito. Na Europa os jogadores usam a frase obrigatória na manga do uniforme. Centenas de pessoas saíram às ruas em defesa do jovem que atirou a banana no gramado do Villareal. Protestam por estar sendo linchado pela imprensa. Justificam que ele só quis desestabilizar o adversário e ajudar o seu time, que acabou perdendo para o Barcelona. O autor foi banido dos estádios, seu clube multado e ele corre o risco de pegar três anos de cadeia. É muito rigor para uma simples brincadeira, segundo seus defensores.
Comparar ao macaco, em cantos, bananas jogadas ou onomatopeias é uma estratégia que mantém os negros desumanizados. Tem sua origem no zoológico do Bronx, em Nov York. Em 1906 a organização "importou" uma pigmeia da África para exibi-la na mesma ilha dos macacos. A foto de Ota Benga com um chimpanzé no colo correu o mundo. Em 1920 os argentinos já nos chamavam de macaquitos no futebol. A banana que só dá em climas quentes e úmidos sempre foi tratada com desprezo pelos norte-americanos, como coisa típica de republiquetas. Aqui no Brasil Braguinha e Alberto Ribeiro responderam com "Yes, nós temos banana", pra dar e vender, no Carnaval de 1938. - "Somos da crise/se ela vier/ bananas para quem quiser". Carmen Miranda colocou bananas no seu turbante e foi "case" de sucesso nos Estados Unidos. Esse ativismo oportunista, materializado em bens de consumo e ações de marketing nada faz contra o preconceito. Orientado pela sua agência de publicidade, Neymar apareceu no mesmo dia ao lado do filho loiro com bananas na mão. Ele mesmo se declara branco. Nos Estados Unidos e na Europa uma só gota de sangue faz o negro, ao passo que no Brasil, uma só ascendência branca embranquece a identidade do indivíduo. O apresentador Luciano Huck aproveitou para vender camisetas com a fruta estampada. Justificou mais tarde que 100% da arrecadação são para obras sociais. Pois não.
O jornalista Mário Filho, que dá nome ao Estádio do Maracanã, escreveu num livro sobre a importância do negro na popularização e desenvolvimento do futebol brasileiro (1947). Ele dialoga com o conceito de "democracia racial" de Gilberto Freyre, seu prefaciador. O livro foi combatido e reinterpretado ao longo de décadas. Diz ele ter sido o futebol que aproximou o Brasil dos seus negros e mulatos, tornou-os brasileiros como os brancos e liberou-os do estigma de moleques de recado. E logo o futebol, que começou não apenas branco no Brasil, mas louro e de olhos azuis desde o inglês que trouxe a primeira bola. Mas não foi uma assimilação suave, conta Mário Filho. Quando os negros se impunham, os brancos se vingavam culpando-os por derrotas cruciais, como na Copa de 1950 em que os responsabilizados foram dois negros de carapinha, Barbosa e Bigode, e um mulato de cabelos ondulados, Juvenal. Negros e mulatos somente foram se redimir anos mais tarde, com Pelé e Garrincha.
O autor é jornalista e articulista do JC