10 de julho de 2026
Articulistas

Brasil! Do milagre ao abandono!

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Quem viveu pelas décadas de cinquenta e sessenta, deve recordar do carisma de Getúlio Vargas e o sorriso do velhinho no retrato pendurado na parede da sala dos brasileiros. Lembrar ainda da escola pública de assoalhos encerados e brilhantes, cortinas esvoaçantes nos imenso janelões, uniformes e material escolar adquiridos pelos pais, onde o azul-marinho e o branco alegravam as manhãs! Reviver a elegância das professoras e seus cobiçados salários! Recordar do recreio, quando de dentro da lancheira exalava o perfume inesquecível do pão preparado pela mãe ao lado do copinho que aumentava de tamanho para beber a água filtrada nas grandes talhas de barro enfileiradas pelos corredores luzidios. Recordar com carinho da Oração à Pátria, cantada pelas crianças enquanto recebiam a bandeira brasileira com garboso patriotismo.

As escolas eram fortalezas do saber, onde a infância brasileira, dia-a-dia, recebia doses de verdadeira cidadania. Quem não se recorda das campanhas para a cura da tuberculose? Das caminhonetes alaranjadas com a equipe da malária para fazer a profilaxia dos apavorantes mosquitos? Quem não se lembra do pessoal dos centros de saúde que iam até às escolas para vacinar os alunos e cuidar da prevenção de verminoses e outras doenças? O Estado era eficiente, a educação eficaz e a infância saudável. Difícil nesta época, crianças com dificuldades de aprendizagem, todos dominavam a leitura e a escrita logo no primeiro ano escolar utilizando apenas a cartilha, um lápis, uma borracha, além da dedicação e competência da professora. Mais difícil ainda encontrar crianças abandonadas e moradores de rua. Havia um lar, uma família para abraçar e uma linda igreja para rezar! Porém, sob a sombra da irresponsabilidade o caos social foi se instalando, vergonhosamente embrulhado em pedaços de papelão e jornais, por entre as gretas frias das pontes e viadutos.

A prevenção de doenças foi ignorada, a tuberculose e a malária, que já estavam erradicadas, voltaram de mãos dadas com a dengue. O esgoto caminha pelas vielas a escarrar a imundície nos grandes rios e ninguém vê! O lixo urbano é descartado nas vias públicas, os reservatórios de água não atendem a demanda, as usinas hidroelétricas, construídas há mais de meio século, insuficientes para iluminar o país! Milhares de sub-moradias semeadas pelas mãos do descaso e da inércia política durante décadas, retratam a derrocada do Estado Brasileiro! É o Brasil, literalmente, entregue às larvas, ou melhor aos mosquitos!


A autora é advogada, pedagoga e escritora