08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

1964 ? mitos e verdades ? A resposta


| Tempo de leitura: 3 min

"1964 ? mitos e verdades". Este é o título de uma carta publicada na tribuna do leitor, no dia 27 de abril passado, assinada por Robert Manduca, autodenominado professor de história. A carta, obra de ficção de péssima qualidade, tal qual uma teoria conspiratória, nega todos os fatos históricos que comprovam a participação do governo dos EUA no golpe civil militar implantado no Brasil em 1964 e que perdurou por 21 anos.

Baseada em informações provavelmente fornecidas pelo doutor Google, o texto beira a paranóia ou a alucinação, ao afirmar, quanto à participação dos EUA no golpe de 1964, que tudo não passou de um "um plano soviético para fazer os povos latino-americanos acreditarem que os EUA estavam organizando golpes militares no continente". Seria cômico se não fosse trágico.

Será simples coincidência a sucessão de golpes na América Latina? Brasil em 1964, Chile e Uruguai em 1973, Argentina em 1976. Será casual as várias figuras ianques presentes em nosso país, dando suporte ao golpe, inclusive financeiramente? Ou também nunca existiu a Escola das Américas, que treinou vários ditadores latino-americanos e várias gerações de militares, inclusive com ensinamento de práticas de tortura?

Será que o referido professor de história também não acredita no Holocausto? Ou nas bombas jogadas pelos EUA sobre Nagasaki e Hiroshima? Certamente nega a ida do homem à lua e espera ansioso o retorno aos palcos de Elvis Presley, afinal, ele não morreu. Pena que Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) não esteja mais vivo para garimpar esta pérola digna de constar em seu livro "Febeapá" ou quem sabe criar uma nova versão do hilário "samba do criolo doido", de sua autoria.

Ao invés de gastar o seu tempo pesquisando na Internet, poderia o professor de história buscar na leitura de tantas obras sobre o período as informações que precisa. Ou será que o suposto autor da carta é apenas um cínico brincalhão apócrifo sem graça? Seria cômico se não fosse trágico. Tantas mortes, tantos "desaparecimentos", torturas, exílios, perseguições, sonhos e projetos de vida desfeitos não podem ser zombados como se fosse um conto da carochinha ou uma piada de salão.

Mas o que é mais espantoso e torna ainda mais lamentável é o fato do autor da carta se afirmar como sendo professor de história e ser capaz, sem qualquer pejo, de copiar o título de seu texto e grande parte do mesmo (o mágico "copia e cola") de sites, e, pior, de extrema-direita, dando um péssimo exemplo a seus alunos. Se for mesmo um professor.

Fico a imaginar como serão suas aulas. Fundamentadas nos discursos do Bolsonaro? Terá a revista Veja como fonte das suas pesquisas? Ou quem sabe tenha sua formação intelectual embasada nos textos de Olavo de Carvalho et caterva que, impossibilitados de terem o mundo que desejam, criaram sua própria versão de mundo, tão irreal e falso como uma nota de 2 dólares com a estampa do Pato Donald.

Enfim, como dizia Einstein, "somente duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que se refere ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta". As forças progressistas deste país devem repelir com toda a veemência este tipo de material mentiroso, de autoria duvidosa, que busca amenizar ou negar as atrocidades de um regime facínora que ainda deixa marcas na nossa sociedade.

Em tempo: professor Manduca, ao contrário do que afirmou em sua carta, o grande Gregório Bezerra, que enfrentou duas ditaduras, não morreu em 1964. Embora barbaramente torturado e preso por vários anos, foi trocado pelo embaixador americano, rumando para o exílio, retornando ao Brasil com a anistia, falecendo em 1983, de morte natural. Fica a informação da história para quem gosta de contar estória e para que reflita bem antes das suas próximas aulas.

Arthur Monteiro Junior - advogado