10 de julho de 2026
Articulistas

Quem disse que ser mãe é padecer no paraíso?

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 3 min

De repente, é a época, claro, me pego me imaginando o que seria de mim senão tivesse sido mãe. E me deparo com uma amiga que optou por não ser mãe. É casada. Só não quis ter essa experiência. E foi preciso muita conversa, muita força para enfrentar o olhar acusador da sociedade. Pensamentos tipo "se você não quer estragar o corpo, então, adote. Tem dinheiro para isso. Tanta criança precisando de uma família. Por que esse egoísmo?" eram o mínimo que ela lia na mente dos demais. Isso quando não a criticavam, e ao seu marido, abertamente.

Tenho outra amiga que recentemente me admitiu: não curtiu ser mãe. Diz "gostei de ficar grávida, curti plenamente a gravidez, me sentia plena e poderosa. Mas depois que os filhos nasceram achei esse negócio da maternidade uma coisa pesada demais. Quando caiu minha ficha de que eu era responsável por aquelas vidas, tinha pela frente uma missão dura pra educar e orientar aquelas criaturas, foi pesado demais, fiquei muito assustada. E muitas vezes me senti sozinha, embora com marido do lado". Ela continua: "é uma missão ingrata, sem férias, sem sossego, sem reconhecimento nem social nem familiar, na qual as preocupações e aborrecimentos são diários e as alegrias raras e espaçadas".

E tem mais: e o medo de estar errando e prejudicando o filho, uma angústia sempre presente, rondando, feito tubarão prestes a atacar? "O fdp que disse que ?ser mãe é padecer no paraíso? devia ser um homem, dos bem idiotas. Eu, pelo menos, não encontrei paraíso nenhum. Teve dias em que me sentia mais num campo de concentração, trabalheira que exige demais da gente, física e emocionalmente falando. Houve dias que eu sentia vontade de sumir pelo mundo". Dá para discordar dessa amiga? É bem por aí mesmo. Toda mãe sabe que há esse lado.

E para piorar... ainda tem o tal ditado: "filhos não são seus, são do mundo". Um texto chamado "A Mãe Desnecessária" diz: "a boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo... o ideal é reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos". E complementa: "ser desnecessária é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes".

Quer dizer, ainda temos que entregar assim de mão beijada, nossos filhos para o mundo? Sem contar que nós, mães, somos as culpadas de tudo, não é mesmo? Pelo menos diz a psicologia de almanaque. E temos ainda que ficar atentas ao que sentimos. Controlar as emoções, como raiva, ciúme, saudade. E a tal democracia? Mãe não pode ter preferência, tem que ser justa com todos, tratar de forma igual. E melhor termos mais de um, porque filho único é mimado demais, para dizer o mínimo. Não podemos descontar neles nossas preocupações, desejos, frustrações.

Ah, filhos, por favor, entendam, não é fácil ser mãe. Não raras vezes falamos uma coisa e fazemos outra, tamanha a pressão. Mãe é assim, né? Vocês sabem.

E não julguem as que optaram por serem apenas tias. Apenas estejam do nosso lado, para uma palavra amiga, abraço apertado, e, de repente, num único sorriso, vislumbramos o tal paraíso.

A autora é jornalista, editora e especialista em comunicação para a classe C