“Se eu pudesse voltar atrás, faria tudo de novo”. Essa foi a primeira frase proferida pela aposentada Iraci Honorato da Silva Franco, de 80 anos, quando questionada sobre o fato de ter adotado oito filhos quando jovem. Filha de pai agricultor e mãe dona de casa, Iraci nasceu em Pongaí (100 quilômetros de Bauru), mas foi na Cidade Sem Limites que encontrou o verdadeiro sentido da vida.
Em 1962, ela se casou com Sebastião Prado Franco e se mudou para Bauru, onde abriu um pensionato na rua Tupinambá, na Vila Cardia, que não funciona mais hoje. Iraci nunca quis ter filhos até conhecer o marido, que morreu em 1984.
Porém, depois de dois abortos durante o casamento, a maternidade parecia ser algo distante na vida dela. Só parecia. Iraci contratou a mãe de Adilson Gonçalves - o menino, na época, tinha pouco mais de 7 anos - para trabalhar no pensionato. Contudo, a nova funcionária não tinha condições de cuidar da criança e a proprietária do negócio decidiu adotá-la.
E ela tomou gosto por ser mãe. Logo, Iraci adotou Ednéia Alves Bussoni, Dinorá de Castro Alves e Marta de Castro Correa para criar. Elas são irmãs e já eram um pouco maiores na época. O pai das três morava no pensionato de Iraci com as meninas e ameaçou vendê-las para um fazendeiro.
De forma imediata, a dona do negócio “pulou na frente” e ficou com as crianças. “Sorte que as meninas caíram na minha mão”, comemora.
Coração de mãe
Iraci ainda não se contentou com os quatro filhos adotivos, porque, como diz o ditado, no coração de uma mãe, sempre cabe mais um. Logo depois da adoção das meninas, a proprietária do pensionato conheceu Diomara Dias, que tinha apenas 1 ano e 8 meses e “os olhos azuis iguais aos seus”, complementa Iraci durante entrevista para esta repórter que vos escreve.
Quando foi visitar uma amiga que estava internada na Beneficência Portuguesa, ela encontrou a criança e a mãe no quarto ao lado e ofereceu casa e comida para as duas. “A mãe decidiu ir embora de Bauru e, como não tinha condições de cuidar do bebê, eu não deixei que o levasse junto”, diz.
Enquanto muitos ainda carregam preconceitos, Iraci deu mais uma prova de que o amor de mãe é único. Diomara nasceu acometida por uma fissura labiopalatina.
Iraci afirma que sentiu amor pela menina assim que a viu no hospital. O sentimento foi tão forte que a dona do pensionato acompanhou todos os procedimentos médicos da criança.
Não perca a conta. Depois de Diomara, foi a vez da adoção dos irmãos Valdemir e Valdir Bueno, que são negros e, na época, beiravam a adolescência. Iraci ficou sabendo que eles estavam na Casa da Criança e os retirou de lá.
Por fim, a proprietária do pensionato adotou André Gonçalves, que morava com uma família adotiva, mas vivia na casa de Iraci. “Ele preferiu ficar comigo e o coração de mãe falou mais alto”.
Sem fila
“Corações abertos” como o de Iraci simplificam a adoção. Para quem preenche o cadastro sem grandes restrições, como de idade e cor, as filas sequer existem.
De acordo com o Fórum, a entrada do processo de adoção ocorre em até duas semanas após a avaliação psicológica. Ou seja, antes mesmo de o cadastro dessas pessoas ser efetivado.
Sorte
Logo que Diomara chegou na vida de Iraci, as alegrias começaram a aparecer. Ela conta que foi sorteada e dividiu prêmio de CR$ 597.075,93 com outro ganhador da loteria. Iraci, inclusive, saiu na capa do JC na edição de 18 de maio 1973.
Na época, ela afirmou que a menina trouxe sorte. Passados 41 anos, o discurso é igual. “Todos os outros filhos já se casaram há muito tempo. Eu vivo apenas com a Diomara e, até hoje, ela me traz sorte”, conta.
Criança é criança
Iraci conta que a adoção mudou sua vida. Dos filhos, apenas Diomara chegou ainda bebê. Questionada sobre o fato de a menina ter nascido com uma fissura labiopalatina, a aposentada reconheceu que não foi fácil, mas, disse que o amor era sem igual. “Eu acredito que as pessoas não devem escolher bebês loiros e de olhos azuis. Criança é criança. Basta criar direito para ter caráter”.
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Aceituno Jr. |
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Iraci da Silva (ao centro) com parte dos seus oito filhos; em pé: Ednéia, Dinorá, Adilson, Valdir, Valdemir; agachadas: Marta e Diomara |