02 de janeiro de 2026
Geral

Casarão que hospedou Getúlio está preservado

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Os cômodos do porão do casarão da sede da antiga Fazenda Val de Palmas em Bauru, que hospedou o ex-presidente Getúlio Vargas em 20 de julho de 1938, reforçam, por similaridade, o ambiente obscuro que ainda envolve a crise no centro do comando político do País e que culminou com o suicídio do gaúcho nascido em São Borja (RS) na madrugada de 23 de agosto de 1954, cujo roteiro está em cartaz no cinema no longa-metragem “Getúlio”. 

 

Aceituno Jr.

O velho casarão da fazenda Val de Palmas abriga objetos da época que recebeu Getúlio Vargas

 

No casarão da então maior fazenda de café do mundo, formada em 1895 com 2,3 milhões de pés da planta, morcegos “guardam” mitos e segredos, como a assombração de uma mulher que teria caído à escadaria da construção com varandas sustentadas por 16 grandes pilastras em tijolinho. 

 

Partes de móveis antigos em madeira nobre escura, espalhados pelo chão batido e por onde circula muito pouca luz no subsolo da construção - situada a três quilômetros por estrada de terra na saída da rodovia Bauru-Marília, na altura do posto de combustível coincidentemente chamado de “Comandante” -, remetem, imediatamente, ao mesmo ambiente de obscuridade em torno do bastidor no centro do poder no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sede do então governo onde Vargas deu “adeus à vida para entrar para a história” com um tiro no peito.

 

Na fazenda, Dilmara Aparecida Francisco - que vive no casarão há apenas oito meses com o marido Nelson Lopes Moreira e a filha Gabriela - nos recebe desconfiada. Enquanto Dilmara sobe em um canto do grandioso telhado de quatro águas para limpar ninhos, a adolescente Gabriela é quem nos acompanha, sem medo, pelo porão. “Já tentaram escavar várias vezes um cômodo do porão. Dizem que tem tesouro escondido aqui”, conta a mãe, antes de nos deixar em companhia da filha.

 

Na telona, o filme Getúlio mostra a - também ainda não resolvida - trama a partir do crime da rua Tonelero, onde uma emboscada com a missão originária de matar o ferrenho oposicionista a Getúlio Vargas, o jornalista e deputado Carlos Lacerda, alimenta a crise e a deposição do comandante do País.

 

No casarão de Val de Palmas, os morcegos parecem dificultar o acesso a objetos do local histórico por onde Getúlio jantou e pernoitou. 

 

No cinema, o roteiro mostra Vargas já cansado pelo longo período no poder e angustiado por não desvendar as razões que levaram seu então chefe da segurança, Gregório Fortunato, a participar da frustrada tentativa de assassinar Lacerda. A carta final à cabeceira da cama de Vargas, na madrugada cujo silêncio foi interrompido pelo estampido do tiro que dera em seu peito, pouco elucida. 

 

Na fazenda em Bauru, um cofre jogado à beira da varanda, hoje, parece reforçar o mito. No filme, de novo coincidentemente, a compra de uma fazenda dá os sinais de corrupção em torno das pessoas mais próximas do presidente, o irmão Benjamin e o capataz-chefe Gregório. O “anjo negro” que traiu o presidente esteve em Bauru com Vargas em 1947, durante jantar na residência de João Simonetti, na Bela Vista.  

 

No casarão, na sala, o lustre pendurado por corrente em madeira se quebrou, segundo Dilmara, moradora atual da sede da antiga fazenda. Na telona, o elo de confiança se rompera e a debandada dos militares se somava à pressão política pela deposição de Vargas.

 

A revisita ao casarão remete à ruína da história simbolizada em pedaços de móveis que ainda restam em Val de Palmas. A releitura do suicídio, no filme de João Jardim, reforça a ruína do poder nos arrombos de conspiração, traição e corrupção. 

 

Getúlio Dornelles Vargas

 

Gaúcho de São Borja (RS), líder civil da Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha, Vargas foi presidente do Brasil em dois períodos. No primeiro de 15 anos ininterruptos, de 1930 até 1945, foi chefe do governo provisório (1930-1934), presidente do governo constitucional (1934-1937) e presidente-ditador no Estado Novo, implantado após golpe (1937-1945). 

 

No segundo período, em que foi eleito por voto direto, Getúlio governou o Brasil como presidente da república, por 3 anos e meio: de 31 de janeiro de 1951 até 24 de agosto de 1954, quando suicidou-se com um tiro no coração em seu quarto, no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. 

 

A visita de 1947

 

Depois da visita de 1938, onde pernoitou na Fazenda Val de Palmas, Getúlio retornou a Bauru em 5 de novembro de 1947, tendo participado de um jantar na residência de João Simonetti, no Jardim Bela Vista.

 

O memorialista Luciano Dias Pires retratou a visita de Vargas em 1938 na edição do Bauru Ilustrado de março de 1979. “Os jornais Correio da Noroeste e Folha de Bauru deram ampla cobertura da visita, onde foi acompanhado pelo interventor do Estado à época, Adhemar de Barros, pela filha Alzira e a esposa Darcy. Foi recepcionado pelo diretor da Noroeste do Brasil, Marinho Lutz, e esteve ainda no Asilo Colônia Aimorés”, conta.

 

Em 1947, Getúlio retornou como candidato a deputado, uma tentativa de reconciliação com os paulistas após a Revolução de 1932. “Naquela época era possível ser candidato a deputado por vários Estados e Getúlio se reuniu em Bauru com João Simonetti, da rádio PRG-8, relação que conferiu ao bauruense concessões de estações de comunicação no modelo de relação política com proximidade junto ao poder”, descreve o jornalista Zarcillo Barbosa na tese de doutorado pela USP, “O espaço público na comunicação local”.        

 

Odília Simonetti, reconta o filho e jornalista Paulo Sérgio Simonetti, se recorda dos seguranças, sob a ordem de Gregório Fortunato, enfileirados no janelão atrás da sala da residência de João Simonetti como medida de proteção ao presidente. “Getúlio sentou-se de costas para o janelão e Gregório enfileirou seguranças atrás. Do lado esquerdo ficava a casa do meu avô, João, e do lado direito da PRG-8, era a casa do meu pai, Leônidas. A segurança presidencial preferiu a casa de meu pai pelo espaço da sala”, repassa Paulo Sérgio.