Os cômodos do porão do casarão da sede da antiga Fazenda Val de Palmas em Bauru, que hospedou o ex-presidente Getúlio Vargas em 20 de julho de 1938, reforçam, por similaridade, o ambiente obscuro que ainda envolve a crise no centro do comando político do País e que culminou com o suicídio do gaúcho nascido em São Borja (RS) na madrugada de 23 de agosto de 1954, cujo roteiro está em cartaz no cinema no longa-metragem “Getúlio”.
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Aceituno Jr. |
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O velho casarão da fazenda Val de Palmas abriga objetos da época que recebeu Getúlio Vargas |
No casarão da então maior fazenda de café do mundo, formada em 1895 com 2,3 milhões de pés da planta, morcegos “guardam” mitos e segredos, como a assombração de uma mulher que teria caído à escadaria da construção com varandas sustentadas por 16 grandes pilastras em tijolinho.
Partes de móveis antigos em madeira nobre escura, espalhados pelo chão batido e por onde circula muito pouca luz no subsolo da construção - situada a três quilômetros por estrada de terra na saída da rodovia Bauru-Marília, na altura do posto de combustível coincidentemente chamado de “Comandante” -, remetem, imediatamente, ao mesmo ambiente de obscuridade em torno do bastidor no centro do poder no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, sede do então governo onde Vargas deu “adeus à vida para entrar para a história” com um tiro no peito.
Na fazenda, Dilmara Aparecida Francisco - que vive no casarão há apenas oito meses com o marido Nelson Lopes Moreira e a filha Gabriela - nos recebe desconfiada. Enquanto Dilmara sobe em um canto do grandioso telhado de quatro águas para limpar ninhos, a adolescente Gabriela é quem nos acompanha, sem medo, pelo porão. “Já tentaram escavar várias vezes um cômodo do porão. Dizem que tem tesouro escondido aqui”, conta a mãe, antes de nos deixar em companhia da filha.
Na telona, o filme Getúlio mostra a - também ainda não resolvida - trama a partir do crime da rua Tonelero, onde uma emboscada com a missão originária de matar o ferrenho oposicionista a Getúlio Vargas, o jornalista e deputado Carlos Lacerda, alimenta a crise e a deposição do comandante do País.
No casarão de Val de Palmas, os morcegos parecem dificultar o acesso a objetos do local histórico por onde Getúlio jantou e pernoitou.
No cinema, o roteiro mostra Vargas já cansado pelo longo período no poder e angustiado por não desvendar as razões que levaram seu então chefe da segurança, Gregório Fortunato, a participar da frustrada tentativa de assassinar Lacerda. A carta final à cabeceira da cama de Vargas, na madrugada cujo silêncio foi interrompido pelo estampido do tiro que dera em seu peito, pouco elucida.
Na fazenda em Bauru, um cofre jogado à beira da varanda, hoje, parece reforçar o mito. No filme, de novo coincidentemente, a compra de uma fazenda dá os sinais de corrupção em torno das pessoas mais próximas do presidente, o irmão Benjamin e o capataz-chefe Gregório. O “anjo negro” que traiu o presidente esteve em Bauru com Vargas em 1947, durante jantar na residência de João Simonetti, na Bela Vista.
No casarão, na sala, o lustre pendurado por corrente em madeira se quebrou, segundo Dilmara, moradora atual da sede da antiga fazenda. Na telona, o elo de confiança se rompera e a debandada dos militares se somava à pressão política pela deposição de Vargas.
A revisita ao casarão remete à ruína da história simbolizada em pedaços de móveis que ainda restam em Val de Palmas. A releitura do suicídio, no filme de João Jardim, reforça a ruína do poder nos arrombos de conspiração, traição e corrupção.
Getúlio Dornelles Vargas
Gaúcho de São Borja (RS), líder civil da Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha, Vargas foi presidente do Brasil em dois períodos. No primeiro de 15 anos ininterruptos, de 1930 até 1945, foi chefe do governo provisório (1930-1934), presidente do governo constitucional (1934-1937) e presidente-ditador no Estado Novo, implantado após golpe (1937-1945).
No segundo período, em que foi eleito por voto direto, Getúlio governou o Brasil como presidente da república, por 3 anos e meio: de 31 de janeiro de 1951 até 24 de agosto de 1954, quando suicidou-se com um tiro no coração em seu quarto, no Palácio do Catete, na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal.
A visita de 1947
Depois da visita de 1938, onde pernoitou na Fazenda Val de Palmas, Getúlio retornou a Bauru em 5 de novembro de 1947, tendo participado de um jantar na residência de João Simonetti, no Jardim Bela Vista.
O memorialista Luciano Dias Pires retratou a visita de Vargas em 1938 na edição do Bauru Ilustrado de março de 1979. “Os jornais Correio da Noroeste e Folha de Bauru deram ampla cobertura da visita, onde foi acompanhado pelo interventor do Estado à época, Adhemar de Barros, pela filha Alzira e a esposa Darcy. Foi recepcionado pelo diretor da Noroeste do Brasil, Marinho Lutz, e esteve ainda no Asilo Colônia Aimorés”, conta.
Em 1947, Getúlio retornou como candidato a deputado, uma tentativa de reconciliação com os paulistas após a Revolução de 1932. “Naquela época era possível ser candidato a deputado por vários Estados e Getúlio se reuniu em Bauru com João Simonetti, da rádio PRG-8, relação que conferiu ao bauruense concessões de estações de comunicação no modelo de relação política com proximidade junto ao poder”, descreve o jornalista Zarcillo Barbosa na tese de doutorado pela USP, “O espaço público na comunicação local”.
Odília Simonetti, reconta o filho e jornalista Paulo Sérgio Simonetti, se recorda dos seguranças, sob a ordem de Gregório Fortunato, enfileirados no janelão atrás da sala da residência de João Simonetti como medida de proteção ao presidente. “Getúlio sentou-se de costas para o janelão e Gregório enfileirou seguranças atrás. Do lado esquerdo ficava a casa do meu avô, João, e do lado direito da PRG-8, era a casa do meu pai, Leônidas. A segurança presidencial preferiu a casa de meu pai pelo espaço da sala”, repassa Paulo Sérgio.