O quarto homem preso acusado de participar do linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, morta depois de ser espancada por populares da comunidade de Morrinhos 1, apresentou-se espontaneamente na delegacia de Vicente de Carvalho na sexta-feira.
O ajudante de pedreiro Jair Batista dos Santos, de 35 anos, recusou-se a falar com a imprensa, mas seu advogado, Marcos Vinícius Ferreira Santos, que negociou a apresentação do acusado, disse que seu cliente é inocente e que até tentou defender a vítima dos seus agressores. “Ele aparece nas filmagens, mas em nem um momento está agredindo a dona de casa”, argumentou.
O advogado afirmou que o ajudante de pedreiro não tem passagens pela Policia, é casado, tem seis filhos, e está muito assustado com os últimos acontecimentos. O depoimento de Jair durou 50 minutos, nos quais tentou demonstrar ao delegado Luís Ricardo Lara Dias Júnior, que não agrediu Fabiane.
Seu defensor rebateu as acusações, lembrando que havia três tipos de pessoas no local do linchamento: os curiosos, os que realmente queriam agredir a dona de casa e os que tentavam evitar o espancamento. Segundo Marcos Vinícius, seu cliente se enquadra entre os populares que tentavam salvar Fabiane.
Jair Batista dos Santos foi o quarto homem preso acusado de ter participação ativa no linchamento. Antes dele, foram presos o eletricista Valmir Barbosa, de 48 anos, o ajudante de pedreiro Lucas Lopes, de 19 anos e o pintor Carlos Alex Oliveira de Jesus, de 23, capturado em Peruíbe.
No final da tarde de sexta-feira, o delegado Lara divulgou a fotografia do quinto acusado: Abel Vieira Batalha Júnior, de 18 anos, conhecido como Pepê que, apesar da sua condição de foragido, já teve sua prisão temporária decretada pela Justiça.
Fabiana foi violentamente espancada na tarde do último sábado, dia 3, ao ser confundida com uma suposta sequestradora de crianças, que estaria atemorizando a população de Morrinhos.
O retrato falado da mulher que sequestrava crianças para rituais de magia negra foi postado em uma página do Facebook intitulada Guarujá Alerta.
Na tarde do dia 3, quando voltava de uma igreja, onde havia ido buscar uma bíblia esquecida dias antes, a mulher parou para comprar água em um bar e, ao encontrar uma criança, passou a mão na cabeça do menino e ofereceu-lhe uma banana, da penca que havia comprado em um sacolão.
Foi nesta hora que uma mulher gritou que se tratava da “bruxa da internet”, momento em que a população passou a espancar Fabiane, que foi encaminhada ao Hospital Santo Amaro, mas morreu dois dias depois, vítima de traumatismo craniano e escoriações por todo o corpo.
Medo e vergonha
O linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, é o mais desagradável assunto do qual os moradores do bairro Morrinhos, no Guarujá, não têm como fugir. Digerir uma cena de espancamento na porta de casa não é fácil em nenhuma circunstância, muito menos entender como tantos parentes, amigos e até mesmo crianças participaram da morte de uma vizinha inocente, mãe de duas filhas. Agora, a comunidade transformada tenta seguir a vida. “A cidade está estranha”, diz em voz baixa a cabeleireira Maria Aparecida Oliveira, dona de um salão a poucos metros de onde a agressão começou. Localidade pobre do Guarujá, com cerca de 20 mil habitantes, Morrinhos tem parte das ruas de terra. O clima entre a maioria dos moradores é um misto de medo, revolta e, para alguns, vergonha. Poucos moradores que presenciaram ou participaram do espancamento se dispõem a falar abertamente sobre o assunto.