Antigamente as mães recomendavam aos filhos para não se esquecerem de levar a japona, quando saíam de casa. Quem tem pelo menos meio século de vida já teve um desses agasalhos esportivos de lã grossa. Hoje a recomendação é para levar a camisinha. A pergunta normal à filha é: "Tomou a pílula hoje?" Os tempos mudam e as pessoas também. A única coisa que persiste é a preocupação de mãe com os seus rebentos. Diz um ditado alemão que Deus não podia estar em todas as partes ao mesmo tempo e, por isso, criou as mães. Também deve ter lhes dado a infinita capacidade de perdoar a descendência, mesmo quando o filho lhe traz um vestido três números menor, comprado na liquidação; ou a presenteia com a terceira caneca com a frase Amo a Minha Mãe. "Hoje mamãe não cozinha" - decidem os filhos num ato de bondade e reconhecimento por todas as boias filadas durante o ano. Ela nem reclama das duas horas na fila de espera do restaurante. Mais fácil seria fazer tudo em casa, como sempre, depois de toda a trabalheira para enfrentar o supermercado lotado.
Bons tempos aqueles em que a gente cantava no pátio da escola "Mamãããe, mamããe...o avental todo sujo de oooo-vo...". Impossível não lembrar a infância querida que os anos não trazem mais. Tia Margarida nos ensinava a fazer gestos na hora da frase "eu te lembro com o chinelo na mão", a mais divertida. Minha mãe tinha um chinelinho acolchoado e nós fingíamos que doía, para depois rir atrás da mangueira de tanta brabeza. Até isso as mães não podem mais fazer, desde a aprovação da Lei da Palmada, há uns três anos. Proibiram o chinelo pedagógico.
Nem sei se essa lei pegou... Dela não tenho ouvido falar. A minha pergunta é: se o governo quer interferir nos lares familiares a ponto de oferecer punição a pais que deram alguma palmada em seus filhos - não importa o motivo ou se foi a única que deu na vida - quem castigará a região glútea (com licença, Pedrosinho) desses governantes pela falta de educação de qualidade que oferece aos brasileiros? Há bons pais com filhos felizes, seguros e amorosos que dizem ter incluído a palmada pedagógica na educação, o que me faz crer que quem decide sobre como educar os filhos são mesmo os pais. O governo só deve intervir se houver maus-tratos, agressão física real e não um simples beliscão.
Mães sofrem. Principalmente as mais pobres. Elas parecem catalisar desgraças geradas pela incompetência e o descaso. Outro dia nos chocamos com a dolorosa notícia da mãe estuprada pelo filho drogado. Ninguém é capaz de avaliar o sentimento das mães que, após um ano tiveram seus filhos destrocados em Goiânia. Como lidar com o fato de ter amamentado e cuidado de um bebê, como se seu filho fosse e descobrir de repente que aquela criança não é a que foi gerada em seu ventre. Foi um "erro" da equipe. Quanta dor nasceu desse erro. Qual o sentido do Dia das Mães para essas mulheres e seus novos legítimos filhos? Em Belém do Pará uma jovem movida pelo desejo da maternidade insiste em não acreditar nos laudos e declarações da equipe médica que realizou sua cesariana. Disseram-lhe que não havia criança alguma em seu ventre. Como é que essa moça vai apagar da memória a vida projetada com aquela criança?
Mãe sofre de tudo quanto é jeito. Há três anos estava nos Estados Unidos quando a Time publicou na capa a foto de uma mulher de 26 anos dando de mamar a uma criança de três anos. Virou polêmica nacional a entrevista feita com um cientista com mais de 40 livros publicados, que defende que os pais mantenham laços muito estreitos com seus filhos até idades avançadas. É a teoria da criança com apego caracterizada por uma lactância prolongada. Significa permitir mamar até que o pimpolho o faça em pé, e a mãe também. Quem aguenta! Além disso, os pais devem dormir com as crianças na mesma cama e as mães precisam levar os bebês apegados ao corpo. Seria a melhor forma de criar as crianças, para que cresçam confiantes e seguras de si mesmas. As famílias japonesas já adotam há séculos esse princípio, mas, pelo contrário, para criar dependências e espírito coletivista. Naquela ocasião caíram de pau no tal entrevistado da Time, acusado de "déspota antifeminista".
É difícil ser mãe. O bullying na escola começava pelo "Seu filho da mãe". Só fui entender do que se tratava já grandinho, ao ouvir o palavrão numa versão mais sociológica - "seu filho de uma boa mãe brasileira". Hoje ofensa é chamar a mãe de gorda, no Face. Evoluímos. Mãe sofre. Recitava Drummond: "Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho".
O autor é jornalista e articulista do JC