08 de julho de 2026
Regional

Hidrovia tem 30% da capacidade

Lilian Grasiela e Chico Siqueira
| Tempo de leitura: 5 min

Desde o último sábado, a Hidrovia Tietê-Paraná está operando com apenas 30% da sua capacidade. Em razão da estiagem, o calado (a distância entre a parte mais submersa do navio e a superfície da água) foi reduzido para 2,0 metros (ideal seria 2,7 metros). Com isso, apenas 7 dos 21 comboios que navegam pela hidrovia conseguem passar pelos trechos críticos e o escoamento, sobretudo de soja, tem que ser feito pelas rodovias. A prefeitura de Pederneiras (26 quilômetros de Bauru) prevê queda de arrecadação nos próximos anos (leia mais abaixo).

Divulgação

Em fevereiro, o calado para navegação na Hidrovia Tietê-Paraná passou para 2,2 metros

Pela Hidrovia Tietê-Paraná são transportados produtos vindos, sobretudo, do Mato Grosso e Goiás, como soja, farelo de soja, celulose, cana e milho. As cargas seguem nos comboios até Pederneiras, de onde são levadas por via férrea até o porto de Santos. Grande parte dos produtos tem como destino o mercado externo.

Desde fevereiro, a navegabilidade na Tietê-Paraná, que tem 2.400 quilômetros de extensão, 800 deles em São Paulo, vem sendo continuamente restringida, o que também reduz sua capacidade de transporte de carga. O Estado diz que a medida está relacionada à escassez de chuva e a uma suposta crise nacional no setor energético.

O Departamento Hidroviário (DH), ligado à Secretaria Estadual de Logística e Transportes, acusa a União de direcionar água para gerar energia em detrimento da navegação. Já o governo federal atribui a redução da capacidade da hidrovia à falta de investimentos do Estado no canal de transporte fluvial.

Na semana passada, o pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo pelo PT, o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha, disse que, apesar dos recursos federais disponíveis, houve “lentidão” dos governos do PSDB na realização de grandes obras estruturantes no principal canal de transporte fluvial do Estado.

Por meio de nota, o diretor do DH, Casemiro Tércio Carvalho, rebateu as declarações de Padilha, chamando-as de “lamentáveis, tecnicamente absurdas e levianas”, e declarou que, desde setembro de 2011, o Estado investiu R$ 250 milhões em obras de ampliação da hidrovia, contra “apenas R$ 82 milhões” liberados pela União.

“O nível do reservatório de Três Irmãos tem caído porque o Operador Nacional do Sistema (ONS), órgão federal, decidiu redirecionar o fluxo de água para a geração de Ilha Solteira em detrimento da navegação da hidrovia Tietê-Paraná”, afirmou.

Transporte limitado

Em fevereiro, o calado para navegação na Hidrovia Tietê-Paraná passou para 2,2 metros, o que diminuiu a capacidade de transporte de carga dos comboios de 6 mil para 4 mil toneladas. Essa redução, de acordo com o DH, representa 140 caminhões a mais trafegando nas rodovias.

No último sábado, dia 10, a Marinha diminuiu o calado para 1,80 metro e 2 metros com as chamadas ondas de vazão (manobra usada para turbinar a geração de energia na usina hidrelétrica de Nova Avanhandava visando ao aumento do nível do rio para auxiliar na passagem do comboio pela eclusa).

“Este calado é abaixo do mínimo exigido para navegação (que é de 2,20 m), e, com isso, apenas 7 dos 21 comboios que utilizam a hidrovia neste trecho de longo percurso conseguirão passar pelo ponto crítico, localizado entre a usina de Três irmãos e Nova Avanhandava”, explica o DH.

Apesar de ser uma alternativa, a formação das ondas de vazão oferece riscos para a segurança das embarcações, que podem virar ou sair da rota e encalhar.


Nova redução ocorre amanhã

A partir de amanhã, o calado passará para 1,40 metro e 1,70 metro com as ondas de vazão. De acordo com o Departamento Hidroviário (DH), a Marinha comunicou os usuários da Tietê-Paraná sobre a mudança, que garantirá a navegação apenas dos sete comboios que já estão em operação, mantendo a capacidade da hidrovia em 30%.

O DH diz que pediu reunião de emergência com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Agência Nacional de Águas (ANA), Ministérios dos Transportes e de Energia, Companhia Energética de São Paulo (CESP), AES Tietê, Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo (Sindasp), Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) e Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

“O objetivo é encontrar uma solução para que a navegação na hidrovia seja restabelecida o mais urgente possível para que a safra de soja, que foi recorde em 2014, possa ser escoada pela hidrovia. Caso isto não aconteça, a soja terá que vir pela rodovia, por caminhões”, declara.


Prejuízos

A redução do calado no trecho crítico da usina de Nova Avanhandava deverá causar prejuízo de R$ 25 milhões à DNP Indústria de Navegação, maior operadora da hidrovia, responsável por um terço do total de 6,3 milhões de toneladas de cargas transportadas em 2013, e por 14 dos 21 comboios que navegam pela Tietê-Paraná.

A empresa, que tem capacidade para transportar 3,2 milhões de toneladas, previa transportar pelo menos 2,2 milhões neste ano, mas deverá ficar em torno de 600 mil. Se a crise perdurar, o diretor da DNP, Nelson Michielin, anuncia que terá de demitir 350 funcionários nos próximos meses.


Queda de arrecadação

O vice-prefeito de Pederneiras, Juarez Solana de Freitas (PV), explicou que, por enquanto, a diminuição da capacidade da Hidrovia Tietê-Paraná não resultou em fechamento de postos de trabalho. Ele acredita que os reflexos dessa medida serão sentidos nos próximos anos, com a queda de arrecadação no município.

“Para você ter uma ideia, as empresas que mais contribuíram com ICMS no município são as empresas de navegação e transporte ferroviário de cargas, que são ligadas ao transporte hidroviário”, diz. “Nós tememos que isso possa reduzir a arrecadação e, com certeza, vai cair a arrecadação do município porque elas são grandes empresas exportadoras”.

Segundo o vice-prefeito, a crise no transporte hidroviário serve como alerta. Na opinião dele, uma alternativa imediata para reduzir os impactos dessa crise seria o maior planejamento na geração de energia. “Por exemplo, a Usina de Três Irmãos está trabalhando com quase toda sua capacidade para gerar energia”, revela.

“O que precisa é reduzir a geração de energia e encher o reservatório para que as barcaças possam estar passando. Tem que haver um planejamento para captar energia de outros setores, que estão interligados, para encher os reservatórios. Geração de energia e navegação têm que andar juntas”.