10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O dia em que a Justiça me deu um vergonhoso 'passa moleque'


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Os fatos se deram quando mal completara 12 anos de idade, quando estava no meu 2° emprego com patrão, pois antes havia feito um duro estágio na roça ajudando meus saudosos pais em pelo menos três colheitas de café na época da construção de Brasília, no final dos anos cinquenta (esta é outra historia cruel e sofrida).

Trabalhando sem carteira assinada em uma conceituada relojoaria em Bauru, resolvi homenagear minha querida mãe pelo seu dia, dando-lhe um relógio "cuco" muito usado na época, com um auto financiamento feito pelo patrão. Antes havia ganhado dele uma bicicleta já usada, para os serviços da loja e para o meu lazer.


Imaginem a minha felicidade chegar em casa com aquele "presentão" que pouca gente podia comprar, e eu, uma criança, havia conquistado aquele desejo. A minha felicidade durou muito pouco, só o tempo de embrulhar para presente aquela enorme caixa, até pegar a bicicleta e amarrá-la no bagageiro, mas o ladrão foi mais rápido me deixando a pé.


Naquele momento chorei muito, uma mistura de raiva e de muita tristeza. Acabei subindo a rua do Fórum, rua Olavo Bilac, rua bastante íngreme com aquela pesada caixa às costas ainda chorando. O ladrão ofuscou o brilho daquele presente e me deixando também doente de tristeza. Minha mãe chorou muito naquele fatídico dia, (nunca havia visto chorando até então) mais pela perda do meu único bem, que o próprio presente que havia ganhado do filho "trabalhadorzinho".

Feito o BO, a polícia não se deu o trabalho de procurá-la, mas eu investiguei por conta própria e localizei. Depois de algum tempo achei aquele único e amado bem, aí sim a polícia só teve o trabalho de "prender" o ladrão juntamente com a "magrela" e, conduzida à delegacia, onde ficou por um longo período exposta a chuva e ao sol amontoada num canto até a ferrugem tomar conta dos componentes.


Quando liberada, estava toda travada pela ação do tempo, e vai eu subir aquele "subidão" com ela às costas e depositá-la no fundo do quintal até ir para o ferro-velho. Nunca mais possui esse bem tão desejado, mas hoje, aos sessenta e três anos de idade, desfruto de uma super moto de 1600 cc da marca Harley Davidson acelerando muito em todos os encontros em que sou convidado, sem precisar mais pedalar. A justiça? Bem, a justiça continua sentada com os olhos vendados e muitíssima ocupada com os mensaleiros fazendo de tudo para isentá-los do que prendê-los e eu acelerando minha possante máquina feliz da vida com meus camaradas "motociclistas".

Feliz mês das mães para todas as mães que não tiveram um filho trabalhador na infância.

Luiz Tadeu Machado