09 de julho de 2026
Articulistas

A mochila e a reeleição

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

Sou contra o instituto da reeleição. Não tenho um motivo sequer para considerar, infelizmente, que agente político eleito pelo voto tenha interesse coletivo para fazer da plataforma de permanência no poder por mais um tempinho algo que consolide projeto de governo.

Parte do desvio de conduta e comportamento em relação à reeleição está no eleitor, que - ao invés de exigir do candidato que quer permanecer na cadeira do poder por mais alguns anos a renovação do voto de confiança com reprogramação de plano estratégico de ação e de resolução de problemas públicos ? costuma entregar de bandeja uma carta em branco ao candidato prefeito-governador-presidente-deputado-senador que acaba o presenteando pelas "realizações".

Ora cada eleição é uma história e a renovação do pacto do voto pela representatividade popular não deveria se dar no campo da mais simples generosidade com o agente público porque, em essência, se ele "fez" apenas cumpriu o voto de representação que lhe fora outorgado no último pleito.

Podem me chamar de radical, mas considero que governo não poderia ser autorizado a gastar orçamento sequer com publicidade sobre o que fez. O que está feito é obrigação, até porque é cumprimento de obrigação com uso de dinheiro público.

Também sou contra inauguração de obra pública! Inaugurar para fazer festa, gerar discurso e ganhar espaço em veículos de comunicação. Pela mesma razão, se a obra é necessária e nela foi utilizado dinheiro público, ela deve ser colocada em funcionamento no dia seguinte à sua entrega. Isso já é, por si, comunicação de cumprimento da obrigação de fazer. Não tem de inaugurar nada...

Mas, retornando à reeleição. Façam uma breve memória do histórico dos "segundos mandatos" no País, sobretudo com prefeitos. Os que recebem elevada aprovação na primeira gestão por terem realizado algo, ou seja, repito cumprida sua missão, ganham elevados índices de popularidade e renovam a "carta de mandato" com outro pleito.

Os segundos mandatos servem, em geral, não para que a gestão pública avance em novos programas e serviços à população, mas para acomodar grupos, garantir apenas a repartição do bolo com novos apadrinhados e, sei lá por qual razão, acabam gerando vícios ou aprofundando acomodação nos gestores de plantão.

Em Bauru, vejam nosso aprendizado. O endividamento da cidade voltou a preocupar, a máquina pública ampliou demasiadamente os gastos e continua bastante emperrada e não se fala outra coisa na cabeça do alcaide a não ser assinar logo o endividamento para asfaltar algumas centenas de quadras de ruas e, claro, deixar a conta para o próximo. Deveria ser proibido contratar financiamento para ser pago pelo sucessor.

O esgarçamento da reeleição aparece em inúmeros outros exemplos, que aqui nem caberia listar. No caso de nossa Sem Limites, o perigo iminente está no fato de que o alcaide parece ter entregue as botas, a mochila e a vontade de ajustar a casa. É a história do gato que deixa a sala e as ratazanas tomam conta...

Alguns secretários visivelmente não têm a menor motivação, já entregaram a toalha. Em algumas pastas, o prefeito corre outro perigoso risco de manter quem não tem pulso nem vocação para a função. E, nesse caso, as ratazanas estão deitando e rolando... Depois surgem escândalos e o prefeito diz que não sabia e o povo, de novo, passa a apregoar a frase da omissão cidadã: "político é tudo assim mesmo"...

Há risco iminente no Palácio das Cerejeiras!

O autor é jornalista do JC, da TV Câmara Bauru e compositor