09 de julho de 2026
Regional

Bar de rock fica em uma chácara

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 4 min

O ambiente bucólico da zona rural de Santa Cruz do Rio Pardo (90 quilômetros de Bauru) é o mais agitado e diferente espaço dedicado ao rock. O bar do “Cersão” ostenta no nome a ortografia à la Chico Bento que troca o “l” pelo “r”, como faz o conhecido personagem caipira dos gibis de Mauricio de Sousa. Para chegar até o local, tem que percorrer 5 quilômetros de estrada de terra. A poeira no rosto é inevitável. O estacionamento fica em um pasto que guardava gado. É assim há mais de 10 anos nessa “casa” noturna exótica onde bandas de Bauru, da própria Santa Cruz e de cidades da região se apresentam uma vez por mês.

O proprietário deste espaço é Celso Vieira de Andrade, 58 anos, ex-agricultor e “mentalidade de 15 anos”, segundo ele. Ex-fã da dupla Gilberto e Gilmar, o rock entrou meio por acaso na sua vida, deu tão certo que o bar virou algo cult, diferente num município que ainda cultiva raízes na velha moda de viola e na música sertaneja da atualidade.

A cidade de 44.118 habitantes deixou de ser essencialmente rural desde a década de 70. O sítio Santa Lúcia de um alqueire foi uma troca de área que “Cersão” fez com o vizinho para o “bar” ficar de frente à estrada vicinal e facilitar o acesso dos frequentadores.

Ali uma vez por mês é convidada uma banda para apresentações e sempre lota. Claro que existe espaço para as bandas “pratas da casa”. Afinal, em uma década formaram grupos como No Fate, Landal 69, Dona Tequila e Mafagatos.  Todas de moçada da terra.

Em tudo no bar do rock é bem diferente do tradicional. Não tem garçom no local. A cerveja é comprada com ficha e tem que se dirigir até o balcão para retirá-la. O único lanche é um espetinho de carne  feito em churrasqueira ao ar livre. Pela fumaça que faz dá para sentir o cheiro bom da iguaria. E lá tem até banca para vender camisetas e adereços de rock.

No Carnaval, a banda bauruense Inlakesh comandou a “folia”, mas nada de axé, rock pesado mesmo. A casa ficou lotada de um plateia variada de pessoas de 18 anos a cinquentões.

Um dos fundadores do espaço o design gráfico  Vanio de Marqui, o “Vaninho”, tem também uma banda,  a No Fate. Ele é uma testemunha de como tudo começou. O bar do “Cersão” ficava no Centro da cidade, em frente ao Icaiçara Clube, e dedicado à música sertaneja. E como havia casas próximas, o barulho incomodava os vizinhos. Não teve jeito, a polícia sempre aparecia e o negócio não virou mais.

Um grupo de roqueiros sem espaço foi ao bar do “Cersão” que estava prestes a fechar as portas. Nesse dia, Vaninho pediu para trocar o som. “Tira o sertanejo e põe um rockão”, conta.

Acabaram amigos apesar de gosto musical diferente. Nessa patota entra os irmãs Marcelo e Marcos Zanette e Renata Lorenzetti.

“Cersão” resolveu fechar o bar e levá-lo para o sítio. “Não me esqueço. Falei para ele, lá (no sítio) não vira meu. É muito longe. E olha que o negócio virou com o tempo”, conta Vaninho dando risada. Para engrenar na nova casa, Vaninho incentivou os amigos a frequentarem a chácara que virou o bar bem exótico com trilha sonora de rock.


Cerveja própria

A banda “No Fate” recentemente lançou uma cerveja artesanal de produção limitada em um evento no Bar do “Cersão”. A ideia foi copiada de bandas famosas, conta Vanio de Marqui, o Vaninho. “Vendeu o estoque inteiro”, lembra. Isso ocorreu no aniversário dos 15 anos do grupo. Ele é um dos fundadores do espaço alternativo santa-cruzense.


Bagunça dá suspensão

Nos dez anos do bar do “Cersão” de Santa Cruz do Rio Pardo há expulsões de pelo menos três pessoas. Quem apronta na casa não volta mais. Essa fama Celso Vieira de Andrade já tinha adquirido quando tinha um bar na área central da cidade. Seu jeito sisudo, não tolera como ele diz “palhaçada”. “Aqui também não aceito”, diz. Apesar de ser um bar de roqueiros, o local é muito tranquilo. “É uma comunidade”, diz  Marcos Zanetti.

No dia em que o JC acompanhou o show da banda bauruense Inlakesh, frequentador pegava a cerveja nas geladeiras e os amigos ajudavam no atendimento. “Isso aqui é uma higiene mental”, conta o empresário Marcelo Zanetti, proprietário de uma gráfica.

A pintura e melhorias no ambiente contaram muitas vezes com a ajuda dos frequentadores habituais, lembra Renata Lorenzetti. Ela é a parcela feminina da “fundação” do bar do “Cersão”. Até americano e israelense já conheceram o local. E gostaram do que viram, afirma “Vaninho”. De Bauru, vem até ônibus lotado de fãs. O bar já ultrapassou as divisas da chácara e ganhou frequentadores num espaço que vai de Bauru, Marília e Londrina (PR).