08 de julho de 2026
Articulistas

Que tal tentar?

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 1 min

Ney Matogrosso não queria gravar "Homem com H", seu grande sucesso popular desde 1981. Foi graças a uma gentil insistência do produtor Marco Mazolla que tudo aconteceu.

Composta pelo paraibano Antonio de Barros, a música gerou resistência no cantor desde o primeiro momento. Mazolla dizia: "Ney: quem vai depois subir no palco para cantar isso não sou eu. Mas deixa eu gravar as bases e você coloca a voz. Se não gostar, a gente esquece".

O mais andrógino dos sul-mato-grossenses continuava em dúvida sobre o impacto que causaria e comentava com amigos: "Gravei aquela música, mas não sei se vou colocar no disco, não". No fim, entrou. Lá como última do lado A (ou seria B?). Estourou.

O sucesso desse debochado forró de letra dúbia e provocativa é a prova do poder da insistência. Quantas e quantas invenções não teriam saído do papel não fosse a insinuante convicção de seus sonhadores? Insistir, quando já se vislumbra um positivo desfecho, é a arte de driblar e fazer o gol no mesmo lance.

Um antigo e, para alguns, manjado ditado diz: "Sem saber que era impossível, foi lá e fez". É atribuído ao poeta francês Jean Cocteau. Mas há quem diga que foi o norte-americano Mark Twain seu autor. Seja como for, resume o espírito da coisa: racionalmente, algo pode não parecer viável. Mas a intuição persistente, muitas vezes, supera a lógica do temor. Insistir é uma arte, conforme demonstra a história da gravação de "Homem com H", exibida ontem pelo canal Bis. Até porque, em certas situações, só mesmo com firme e educada insistência se resolve uma pendência quando não há escape: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

O autor é editor executivo do JC.