09 de julho de 2026
Cultura

Música sem fronteiras

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 4 min

Kazuo Watanabe/Conservatório de Tatuí

Marcos Vinicius dos Santos foi revelado pela Sinfônica Municipal

A trajetória de Marcos Vinicius Miranda dos Santos mostra que um aluno de escola pública em um projeto de música da prefeitura pode se tornar um doutor com formação internacional. Para isso, é preciso vocação, aptidão e esforço.

Santos é doutorando em performance em violino na Universidade do Alabama, trajetória que começou a ser forjada com sua entrada para a Orquestra Sinfônica Municipal, aos 14 anos de idade.

O caminho do músico vai da Sinfônica para o Conservatório de Tatuí. E, de lá, para a Universidade Estadual do Mississipi, onde fez mestrado, que antecedeu ao atual curso.

Santos, que fez toda sua carreira acadêmica em escola pública e também é formado em pedagogia, revela que teve contato com a música aos sete anos e o instrumento ainda não era o violino. “Comecei na Banda do Liceu e o primeiro instrumento foi o trompete”, conta. “Toquei por anos, mas trompete não era minha paixão”, confessa. O músico comenta que a identificação com o violino foi imediata ao ver a apresentação de um violonista logo no início do projeto da Orquestra Sinfônica Municipal. Da identificação para a prática, o caminho foi curto.

O trompete foi aposentado quando Santos tinha por volta de 14 anos e o músico começou a participar do projeto da Sinfônica Municipal, onde permaneceu até os 21 anos.

Enquanto integrava a Sinfônica, foi estudar no tradicional Conservatório de Tatuí, onde se aperfeiçoou no violino. “Fiquei ao mesmo tempo cinco anos estudando em Tatuí e também na orquestra”, pontua o violinista.

O músico dividia seu tempo entre os dois polos em uma rotina de esforço, disciplina e estudos com frequentes deslocamentos entre uma cidade e outra. “A prefeitura tinha grupo de apoio que fornecia uma van e alunos da Orquestra Municipal conseguiam ir para o Conservatório de Tatuí. Cheguei a viajar para lá três vezes por semana”, relata. Um sacrifício pela música que somava mais de mil quilômetros semanais de estrada entre idas e vindas.

Para o Mississipi

Em 2011, o bauruense participou do Festival de Música de Poços de Caldas-MG, que ocorre durante 15 dias no mês de janeiro e conta com músicos de todo o Brasil e também do Exterior. 

“Havia competição para músicos que estivessem interessados em concorrer a uma vaga para estudar fora. Eu fiquei sabendo durante o festival e resolvi fazer a competição. Acabei ganhando”, lembra.

O prêmio era bolsa de mestrado para estudar nos Estados Unidos, na Universidade Estadual do Mississipi, em curso de dois anos e meio. Em busca do sonho, Santos embarcou em uma aventura tendo como guia apenas as partituras musicais. “Eu não falava inglês fluentemente. Fiquei em processo de adaptação lá durante quatro meses, fazendo aula de música e inglês”, relata.

Além disso, o violinista arriscou abandonar uma carreira que começava promissoramente. “Eu estava me formando no conservatório e já trabalhava profissionalmente com música. Eu não conhecia ninguém e abri mão de meu emprego na época. Se desse certo, tudo bem. Se não desse, eu iria voltar. Este era o plano. Graças a Deus deu certo. Não é fácil largar tudo e ir assim, mas valeu muito a pena”, comemora Santos.


Dividir conhecimento

Mestre em performance em violino, Marcos Vinicius Miranda dos Santos segue aprimorando seus conhecimentos. No momento, cursa o doutorado no instrumento na Universidade do Alabama. Concluído o doutorado, daqui a três anos e meio, o plano de Santos é retornar ao Brasil e dividir seus conhecimentos ensinando música.

“Gostaria muito lecionar em uma universidade”, projeta. Experiência para ensinar não falta. “Paralelamente ao curso no Conservatório de Tatuí, eu me formei em pedagogia. Eu também trabalhei na escola pública nos Estados Unidos ensinando violino” Com a experiência acumulada no eixo Brasil-Estados Unidos, Santos analisa que o cenário de música nacional não fica devendo muito ao que encontrou em terras norte-americanas. “A música ainda é um pouco mais valorizada nos Estados Unidos. As escolas têm um programa musical e as crianças começam a ter contato com a música no ensino fundamental.

Mas, falando profissionalmente, acho que o Brasil vive um momento muito interessante. Há dez anos, havia três ou quatro grandes orquestras profissionais. Hoje, são de dez a 15 orquestras em grandes centros”, compara. Santos acredita que o espaço para música erudita vem crescendo no País. “No geral, o Brasil vive um momento muito bom e está melhorando. O que se faz nos Estados Unidos não é melhor em qualidade do que o que se produz no Brasil, talvez em quantidade sim. Sou um brasileiro muito otimista”.