Toda vez que se aproxima a divulgação dos resultados de uma pesquisa sobre a eleição presidencial, o leitor atento já deve ter notado a repetição de um movimento agitando os mercados financeiros: "se Dilma cai, o câmbio sobe; se Dilma sobe na pesquisa, a Bolsa cai..." Virou uma espécie de rotina, como se fosse uma lei da física, ou a reedição do fenômeno das famosas "Leis de Kafka" -- criação do professor Alexandre Kafka, representante do Brasil no FMI na segunda metade do século passado ? que divertiu o meio acadêmico durante muitos anos com suas sentenças bem-humoradas sobre os tropeços da economia (e as falhas de diagnóstico dos economistas!) que "faziam a festa" da mídia especializada. Uma dessas Leis tratava da excitação que tomava conta dos mercados devido aos boatos plantados estrategicamente pelo "lobo das quintas-feiras", confundindo os investidores. Alguma coisa parecida com o que fazem agora analistas espertos que antecipam ao mercado "resultados" das pesquisas eleitorais...
Depois que o famoso "mainstream", núcleo central do pensamento econômico, foi incapaz de antecipar e prevenir a crise de 2007/09, analistas que eram intimidados pelo que supunham ser uma "ciência", libertaram-se e apresentam, agora, diagnósticos e sugestões de políticas sociais e econômicas que, "sem lágrimas", produziriam a "salvação".
Se partirmos de hipóteses arbitrárias e autoritárias, segundo as quais podemos determinar aos indivíduos: a) como queremos que eles respondam aos incentivos, sejam eles positivos ou negativos; b) que temos a absoluta liberdade de modificar as instituições para atender aos nossos anseios; c) que o futuro repetirá o passado; d) que podemos distribuir o que ainda não foi produzido e, finalmente; e) que a soma das partes pode ser maior do que o todo, então poderemos concluir que o conhecimento do "mainstream" está morto e tudo será permitido.
A mesma "lógica" nos permitirá concluir, também, que se urubu fosse avião a força aérea brasileira seria a maior do mundo! Vilfredo Pareto, um grande economista-sociólogo, já dizia no século passado, "me dê as hipóteses que eu quero e demonstrarei o que você quer".
Não se trata apenas de estudar o mundo e aprofundar o conhecimento sobre o comportamento dos homens. Trata-se de mudá-los para acelerar a construção de uma sociedade mais civilizada, onde cada um possa encontrar livremente a sua humanidade. É isso que se vem tentando fazer pelo jogo entre a urna (o sufrágio universal) e o mercado (liberdade individual e respeito ao sistema de preços relativos), duas instituições que foram descobertas por tentativa e erro, com enormes sacrifícios ao longo de séculos, num processo de seleção histórica (às vezes violenta) semelhante à evolução biológica. Cada vez que se tentou a "via rápida" para a felicidade, substituindo a urna ou o mercado (ou as duas) ficamos mais longe do objetivo.
Abandonar o conhecimento que os economistas e os historiadores acumularam nos últimos séculos e substituí-lo pelo voluntarismo arrogante e ignorante como às vezes se propõe, apenas tornará mais longo e mais penoso o caminho do homem para encontrar a sua humanidade, afastando-o das visões de Marx e de Keynes que, de forma diferente, sugeriram dois objetivos não plenamente conciliáveis até agora: igualdade e liberdade.
O autor é ex-ministro da Fazenda e articulista do JC