Quem percorre o trânsito de Bauru diariamente presencia pessoas desrespeitando o sinal vermelho, falando no celular ao dirigir e estacionando em locais proibidos. Na contramão desses fatos, contudo, dados recentes apontam que as multas aplicadas pela Polícia Militar (PM) e pelos agentes do Grupo de Operações de Trânsito (GOT) caíram 42,1% neste primeiro quadrimestre em comparação ao mesmo período do ano passado. Então, surge pergunta: seria um sintoma do que o bauruense estaria dirigindo melhor ou, ao menos, se preocupando mais com as regras do trânsito?
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Seria um sintoma do que o bauruense estaria dirigindo melhor ou, ao menos, se preocupando mais com as regras do trânsito? |
O levantamento feito pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) mostra que, entre os meses de janeiro e abril do ano passado, foram emitidas 21.286 autuações dinâmicas e de solo, contra 12.310 no mesmo período deste ano. Respectivamente, essas multas são relativas a movimento (velocidade excessiva, falar no celular ao conduzir veículo, usar a viseira do capacete aberta, entre outros) e a estacionamento irregular.
A que se pode atribuir essa queda sensível no número de autuações? Há mais fiscalização? Mais tolerância das autoridades? Ou o bauruense realmente está dirigindo de forma mais consciente? De acordo com especialistas no assunto, o motorista está, de certa forma, mais precavido e cauteloso, mas a análise das respostas resultou em um misto de várias questões aventadas.
Fiscalização
O gerente técnico de infrações da Emdurb, Gustavo Cardoso, explica que as fiscalizações aumentaram e isso refletiu de forma positiva no cenário. “O agente de trânsito está fazendo a função de orientar, em primeiro lugar, mas nós intensificamos muito as fiscalizações desde 2011. Acho que as pessoas estão mais conscientes e cautelosas por terem percebido isso”, afirmou.
O tenente José Sérgio de Souza, comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PM) em Bauru, aponta que quando o número de multas cai as duas causas são: o aumento da fiscalização e o aumento real da consciência do condutor. “Sentimos esse panorama: aumenta-se a fiscalização e, consequentemente, aumenta a consciência do condutor”, justificou.
Atualmente, a PM conta com 28 policiais atuando diretamente no trânsito e a Emdurb possui 34 agentes no GOT.
Radares fixos
Outro dado que reforça esse panorama são as multas aplicadas pelos radares fixos. Apesar de ter sido em proporção menor, essas também diminuíram. Entre janeiro e abril do ano passado, as infrações pegas por radares somaram 12.608, enquanto, no mesmo período deste ano, a Emdurb tinha computado 11.494 autuações desta natureza, ou seja, uma queda de 8,83%.
O dobro
Os números apresentados podem revelar uma mudança no que vinha ocorrendo em anos anteriores. Em abril de 2013, o JC revelou que, a partir de julho do ano anterior, havia disparado a quantidade de multas em Bauru. De janeiro a dezembro de 2013, foram 62.073 multas, 31% a mais do que em 2012, quando o total foi de 47.259. O crescimento é ainda maior se o número de 2013 for comparado ao de 2011: 30.601. Nesse caso, as multas mais que dobraram, com aumento de 102%.
O “fenômeno” foi explicado pela Emdurb em reportagens anteriores. Em julho de 2012, o número de azuizinhos saltou de 10 para 34. No mesmo mês, o horário de atuação desses profissionais foi ampliado para o período noturno. Há agentes até a meia-noite, todos os dias da semana, no Centro, no Altos da Cidade e nas imediações dos shoppings da cidade. Além disso, em setembro de 2012, a Emdurb ampliou de 100 para 500 – hoje são 600 - o número de policiais militares cadastrados, com autorização para autuar com infrações. Antes disso, apenas a equipe de trânsito da Polícia Militar (PM) tinha essa atribuição.
Condutora há 40 anos, Sueli Goulart levou sua primeira multa em 2013
A professora bauruense Sueli Goulart, 67 anos, pode ser um exemplo de consciência nas ruas. Ela conta que sempre procurou conduzir seu veículo com prudência, respeitando os demais motoristas. No entanto, uma situação, para ela contestável, fez com que sua primeira multa fosse arbitrada no ano passado.
“Eu tenho o cartão de idoso e estacionei em uma vaga rotativa. Coloquei um livro em cima dele, sem querer. Por isso fui multada. Recorri, mas não deu certo. Enfim, eu sempre procuro fazer tudo certinho. Ando com os talões de Área Azul dentro do carro para evitar problemas, estaciono em local permitido”, disse, mostrando os talões.
Para Sueli, hoje, os bauruenses estão mais conscientes da prudência que devem ter no trânsito. “Hoje, os condutores estão mais cautelosos e mais conscientes. Dá para perceber no dia a dia”, finalizou.
Reflexão
“O trânsito infelizmente não é levado a sério. Quando um grave acidente acontece, há uma comoção, mas para por aí. Por exemplo, quem leva uma multa, que é uma penalidade, pode transferir para outra pessoa. Onde está a seriedade? A finalidade não é educar.”, refletiu Valdir Oliveira, presidente das Associação das Autoescolas de Bauru. Para ele, ainda falta educação para o bauruense dirigir melhor. “Isso não é só em Bauru, mas no Brasil. Ainda paramos em locais proibidos, para idosos, deficientes. Precisamos passar por um longo processo de educação”, avaliou.
Já para o especialista em trânsito Augusto Cação, o motorista está um pouco mais consciente dos perigos no trânsito. “A conscientização do motorista sobre o perigo que o trânsito oferece também pode ter contribuído para essa redução das estatísticas”.
Questão deve ir além do 'tirar carta'
O Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê que os condutores consigam sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) a partir dos 18 anos. Para isso, é preciso fazer aulas teóricas e práticas, incluindo circuitos noturnos. Mas, para as autoridades, isso não é tudo. A preocupação precisaria ir muito além do simples ato de “tirar carta”.
O coronel Augusto Francisco Cação, mestre em ciências políticas de segurança e ordem pública e especialista em gestão de trânsito, além de ter atuado na Polícia Militar Rodoviária, explica que a falha nos condutores começa nas autoescolas.
“A falha do condutor começa ali, quando o aluno está apenas preocupado em ‘tirar a carta’ e não em aprender a dirigir com segurança. As aulas só podem ser ministradas na área de circunscrição das Ciretran (Circunscrição Regional de Trânsito) dos respectivos municípios e nunca nas rodovias, onde o DER (Departamento de Estradas de Rodagem) é o órgão responsável em administrar o sistema rodoviário estadual”, aponta.
Na mesma linha de raciocínio, o presidente das Associação das Autoescolas de Bauru, Valdir Paulo Oliveira, que é dono de autoescola há 30 anos, aponta que algumas exigências não surtem efeito, ou seja, não atingem o objetivo esperado, como o caso das aulas noturnas.
“As aulas noturnas existem, mas nós colocamos em dúvida se estão atingindo o objetivo. A legislação diz que quatro aulas devem ser noturnas, mas não fala, em nenhum momento, como devem ser essas aulas”, ressalta.
Segundo ele, a postura das autoescolas, pela própria falha da legislação, faz os alunos ficarem treinando baliza e fazer um percurso pequeno no centro de treinamento.
Estradas
A legislação também não prevê aulas em rodovias, o que, para Valdir, seria muito importante por se tratar de um trajeto em alta velocidade. “Não existe na lei uma parte que fale que o aluno deve ter cinco aulas na rodovia”, aponta.
Outro problema é que, diferentemente de alguns anos, hoje a maioria dos futuros condutores já chega “sabendo” (ou achando que sabem) dirigir. “A faixa etária de 18 anos, geralmente, já chega com alguma noção. Os mais velhos, na faixa dos 30 anos, não sabem nada, mas estão ali para aprender”, completou o presidente da Associação das Autoescolas de Bauru.
Simulador
Uma tecnologia que deve ser implementada em breve nas aulas práticas foi o simulador. O sistema seria responsável por suprir algumas situações como, por exemplo, as aulas nas rodovias. “Neste simulador, o aluno faria aulas em rodovias, com chuva e com neblina. A ideia é boa, mas se pegarmos um aluno que nunca dirigiu, ele precisará ter controle de embreagem. Essas aulas seriam implementadas antes das aulas práticas, mas eu acho que deveriam acontecer no final, como um complemento. Não dá para comparar o simulador a uma rodovia, a uma pista escorregadia”, argumenta o presidente das Associação das Autoescolas de Bauru, Valdir Paulo Oliveira.
Além de multas, acidentes caíram
O último acidente no primeiro quadrimestre deste ano que computou vítima fatal em área urbana aconteceu no dia 13 de maio. O aposentado Sebastião João, 90 anos, morreu após ser atropelado por uma motocicleta, na Vila Nova Esperança. O motociclista fugiu. A morte não entra no levandamento da Emdurb analisado nesta reportagem, uma vez que só foram analisados os casos até 31 de abril.
Nesse período, os acidentes diminuíram 17,39% em relação ao ano passado. Dados do Setor de Estatística e Geoprocessamento da Emdurb, computados entre janeiro e abril de 2013, apontam 2.524 acidentes com 9 mortes. Em comparação ao mesmo período do ano passado, 2014 somou 2.085 acidentes com 7 vítimas fatais.
Em tempo: o atropelamento fatal (leia mais na página 9) ocorreu em rodovia. A reportagem fala apenas da área urbana.
Como lidar com os casos de emergência?
Se o trânsito já é complexo, imagine quando ocorre um imprevisto. Como lidar com veículos de emergência no trânsito? Sempre que aparecem ambulâncias, por exemplo, é visível a confusão.
O coronel Augusto Francisco Cação, especialista em gestão de trânsito, explica que nesta situação os condutores devem tomar muito cuidado para não causar outro acidente.
“Ao ouvir uma sirene, a primeira regra é manter a calma; a segunda é identificar de qual direção ela vem e localizar a viatura entre os demais veículos. Se o veículo de emergência estiver numa distância segura, deixe a passagem livre pela esquerda, encostando à direita com calma e sinalizando as suas intenções. Jamais realize essa manobra de forma brusca. Mesmo nessa situação de emergência, o motorista deve comportar-se e evitar infringir as regras do trânsito, como passar no sinal vermelho ou subir nas calçadas”.
Motos
Com as motocicletas, o cenário não é diferente. Quem tem CHN para conduzir motos sabe que as aulas só acontecem dentro de um circuito. Como “ganhar” as ruas depois? “As aulas são feitas dentro do centro de treinamento e o exame se restringe a um circuito. A legislação fala que você só precisa fazer o exame, e acaba saindo sem condição nenhuma”, opinou Valdir Oliveira.