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Casais em festa típica na cidade de Piratininga |
O número de brasileiros com 60 anos ou mais representa hoje 11% da população. Em oito anos deverá atingir 14,6%. O número de habitantes nessa faixa etária deixará os atuais cerca de 21 milhões de pessoas para beirar os 30 milhões em 2020, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). As projeções apontam ainda que, em menos de três décadas, os brasileiros tidos como idosos deverão ultrapassar a marca dos 55 milhões de indivíduos. Os dados comprovam que as pessoas estão vivendo mais e, embora as políticas públicas voltadas a esse público sejam poucas, há quem viva melhor.
É o caso do aposentado Ismael Henrique Patrício e Maria Aparecida Cardoso Patrício, ambos com idade acima de 70 anos, que traçaram uma meta: conquistar “um milhão de amigos e viver sorrindo e festejando”.
O casal, que tem uma chácara no município de Piratininga (13 quilômetros de Bauru), leva tão a sério a qualidade de vida que transformaram a propriedade rural em um ‘clube’. Quem é convidado a visitar o local tem a confirmação de que eles gostam mesmo é de festa. Um salão de baile foi construído, com todos os detalhes, para acolher os amigos e amigos de seus amigos para dançar.
Além do espaço, os anfitriões oferecem música ao vivo. Os convidados dão conta dos petiscos e bebidas que vão consumir. A lista de amigos com telefone, endereço que Maria Aparecida usa para fazer os convites tem mais de 200 nomes. Os eventos podem ser temáticos ou não, mas a música e a dança não podem faltar. Elas são os itens que movem os integrantes da terceira idade da região. Eles viajam, nos finais de semana, para dançar.
A Associação Agudense da terceira idade de Agudos promove bailes aos sábados para os mais ‘jovens’ e aos domingos para aqueles que não aguentam mais enfrentar a madrugada.
O transporte é organizado pelas agremiações que fretam os coletivos e impõem regras para quem quer se divertir. Aqueles que insistirem em não obedecer, são advertidos e podem ficar temporariamente longe da música e da dança.
Assim como a associação de Agudos, outras agremiações que reúnem esse público, de Boraceia, Pederneiras, Piratininga e até Ourinhos também promovem bailes no Piratininga Tênis Clube.
Casal constrói um salão de baile
O casal Ismael e Maria Aparecida Cardoso Patrício já superou a casa dos 70 anos e estão juntos há 50. Os dois sempre gostaram de festas e de fazer novos amigos. Gostam tanto que construíram um salão de dança com palco e banheiros, tipo os existentes em clubes, na chácara Vovó Maria que pertence a eles, em Piratininga. Para movimentar o espaço, eles reúnem amigos e amigos dos amigos para festas e bailes. O importante para eles é viver com alegria rodeados de pessoas que gostam.
“Eu e minha esposa sempre gostamos de fazer festa mesmo quando não tinha a chácara fazíamos festas em casa, chamávamos os vizinhos. Há 28 anos compramos essa chacrinha. Só tinha o terreno. Fomos construindo devagarinho, sou aposentado e comercializo fogos de artifícios. Onde hoje é o salão de baile, era um campo de futebol, onde meus filhos brincavam. Mas, a grama não ia bem, tentamos estercar e adubar, porém ela não reagia.”
O campo foi cimentado e tornou-se um espaço próprio para festa, porém não tinha cobertura e quando chovia, a festa tinha que ser montada na varanda da casa. “Fizemos festa aqui com encerado, o importante era a festa, era reunir os amigos. Depois de alguns anos, cobrimos. Passado algum tempo fechamos uma lateral e no final do ano passado, fechamos a outra lateral. Agora o salão está pronto.”
Para completar o ‘clube’, o casal não esqueceu de fazer banheiros feminino e masculino e um palco e Ismael explica por quê? “Em todas as nossas festas tem música ao vivo. Nós contratamos um conjunto ou cantor para alegrar o pessoal. Se não tivesse o palco, os convidados não conseguiriam ver quem estava cantando.”
Apreciar as estrelas
Como quem dança tem fome e sede, o casal preparou uma cozinha. “Onde era a arquibancada que acolhia os torcedores do campo de futebol, fizemos uma cozinha. É ali que ficam as bebidas e as comidas que os convidados saboreiam durante os eventos realizados pelo casal.”
Ao lado do salão de baile, o casal caprichou na jardinagem, muitas árvores e plantas que florescem e dão um toque bucólico no local dotado de bancos onde os participantes da festa podem sentar e apreciar a lua e estrelas.
Cada um traz bebida
O primeiro baile da chácara da Vovó Maria data de mais de 10 anos. O sistema adotado no primeiro ainda é seguido até hoje. Cada convidado leva para o baile a bebida que vai tomar e um prato de salgado ou doce. O resultado é uma mesa farta com as mais diversas guloseimas, comenta Cidinha. “A mulhereda traz pratos bem elaborados. Elas cozinham bem.” A organização de cada evento parte da família Patrício. “Eu e minha nora decidimos o tema da festa. A próxima vai ser a festa do azul e branco para comemorar o aniversário do Ismael. Eu e minha família enfeitamos o local e contratamos o músico. Já fizemos festa Country, Brega Chique, Anos 60, Junina, Hawaí.”
Aos domingos, o casal costuma reunir além da família alguns amigos. “O que a gente tem feito de vez em quando é convidar os mais íntimos para passar o domingo aqui. Trazemos um músico para tocar e cada um traz sua carne, sua bebida. Dançamos também.”
As festas são animadas e tem toque de solidariedade
A paixão pela dança por fazer amigos também tem um toque de solidariedade, explica o casal. “Nós oferecemos o espaço e a música. Os convidados trazem uma doação, alimentos não perecíveis para serem doados a entidades que atendem a população mais carente de Bauru.”
O recorde de arrecadação de alimentos aconteceu no ano passado, nas comemorações das Bodas de Ouro de Cidinha e Ismael. “Nessa festa nós oferecemos tudo. Boa música com um conjunto, buffet e o espaço.
Cada convidado doou uma cesta básica no lugar de presente. Arrecadei cerca de 100 cestas que foram doadas para uma entidade de Bauru.” Ismael conta com entusiasmo que encheu uma camionhete de cestas básicas. “No salão tem 50 mesas e 200 cadeiras, ficou lotado. Arrecadei umas 100 cestas que eu levei ao Centro Espírita Pai Joaquim, na Vila Souto. Eles ajudam famílias pobres cadastradas. Em outras ocasiões beneficiei outras entidades.”
‘Ter um milhão de amigos’ é a meta do casal proprietário do salão de baile
Cidinha e Ismael são bastante conhecidos do público batizado de ‘Melhor Idade’ de Bauru e região. Eles frequentam os bailes promovidos pelos clubes e restaurantes e fazem amigos facilmente. “Nós vamos à seresta da Associação Luso Brasileira, da Hípica, do Nipo, do Made in Brasil, da Choperia Vitória. Em todos esses lugares, conhecemos pessoas e arrumamos novos amigos.”
A chegada de novas pessoas exigem atualização do cadastro que Cidinha mantém com mais de 200 amigos. “Eu tenho uma relação de amigos com nome, endereço, telefone de todos. São mais de 200 nomes. Quando vou realizar uma festa, ligo e eles vão se mobilizando para participar.”
Segundo ela, geralmente quando faz os convites para uma festa, os amigos pedem para levar alguém. “Eu digo que pode, mas ele tem que se responsabilizar pelo convidado dele. Aqui o ambiente é familiar e muita coisa que rola em locais públicos, aqui não é admitido.”
As regras foram impostas pelo casal para manter o nível de cada uma das inúmeras festas realizadas na chácara Vovó Maria. “Não aceitamos brigas de espécie alguma. Bebida é permitida, porém não em excesso. Não queremos bêbados fazendo palhaçada aqui. Um não deve mexer com a mulher do outro. Todos os convidados já sabem disso e nunca aconteceu de alguém aprontar. Se acontecer, a pessoa será proibida de voltar aqui.”
Para garantir a tranquilidade do local, o casal instalou na chácara uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. “Ela protege o ambiente. Há frequentadores que sentam no banco ao lado para meditar.”
Clube de Piratininga vira ‘point’ por ter a melhor estrutura
A falta de adequação de vários clubes da região fez com que Piratininga se transformasse em ponto de encontro nos finais de semana dos integrantes da terceira idade que viajam para bailar. O clube é um dos poucos que está com autorização do Corpo de Bombeiros para funcionar.
Segundo o presidente do Piratininga Tênis Clube, Sérvio Túlio Cocito, os bailes de terceira idade da região estão sendo realizados no clube porque o espaço está seguro. Ele explica que, para obter o alvará de funcionamento, foram feitas várias adequações.
“Os bombeiros requisitaram rampa de entrada, portas de saída de emergência, sinalização, luzes de emergência em todos os banheiros e no salão, corrimão, trocamos todas as mangueiras, local adequado para fumantes, local de escape e hidrante. O hidrante exige muito investimento porque tem que ter no mínimo 20 mil litros e não pode estar acoplado a energia do clube e sim na energia da rua, porque se acontece uma pane, ele tem que funcionar.”
Cocito lembra que, no final do ano passado, as associações de terceira idade da região se reuniram e passaram as datas dos bailes. “São duas de Bauru, duas de Agudos, uma de Boraceia, uma de Pederneiras e duas de Piratininga e uma de Ourinhos que realizam bailes aqui. Nós locamos o salão por um preço acessível. Eles ficam com a portaria que é o ganha pão deles e nós com o bar para a manutenção do gasto do clube.”
O salão com capacidade para 2.500 pessoas recebe cerca de 800 pessoas por final de semana. “Tem associações que alugam até no domingo. Fazem baile das 16h às 21h. São eventos voltados ao pessoal mais idoso. Tem cidades querendo fazer bailes aqui, mas não temos mais datas.”
A Associação Agudense da Terceira Idade de Agudos é uma das agremiações que realiza seus bailes no Piratininga Tênis Clube. “Nossos bailes eram realizados na cidade, porém, depois do episódio ocorrido em uma boate de Santa Catarina, os bombeiros exigiram adequações que o clube não conseguiu fazer, então resolvemos procurar um clube que respeitasse as normas,” informa a assistente social Ana Lúcia Jardim. De acordo com ela, a associação tem cerca de 200 sócios, mas nem todos participam dos bailes. “Promovemos bailes aos sábados e aos domingos. Em cada evento tem em média 600. Nós fretamos um ônibus para transportar aqueles que querem dançar. Os sócios não pagam o ônibus e nem o ingresso.”
A associação divulga as datas dos eventos em seu informativo mensal.