Percebido corriqueiramente pelos usuários dos serviços de Saúde da rede municipal, o grande déficit de médicos passa longe de ser o único problema das unidades de urgência e emergência. A falta de profissionais abrange equipes de enfermagem e limpeza. Servidores alegam sobrecarga e más condições de trabalho, que, consequentemente, afetam o atendimento aos pacientes.
|
Éder Azevedo |
|
|
|
Profissionais relatam sobrecarga de trabalho que afeta diretamente a urgência |
Com exclusividade, o JC ouviu relatos de funcionários que apontam, inclusive, a desativação de setores das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e do Pronto-Socorro Central (PSC) por conta da defasagem de pessoal. As identidades foram mantidas em sigilo a pedido das fontes, que temem retaliações.
Um dos médicos conta que, entre enfermeiros, auxiliares, trabalhadores da limpeza e recepcionistas, o déficit chega a 40%. “Já houve ocasião em que, no Bela Vista, dos 20 profissionais de enfermagem necessários para um plantão, havia apenas seis. Imagina se tínhamos condições de cobrir os setores de hidratação, a medicação e a emergência? Sem contar a falta do pessoal da radiologia”.
Uma auxiliar de enfermagem relata que precisa dar conta, simultaneamente, de dois setores. No PSC, a enfermaria, que antes contava com dois funcionários, agora, tem apenas um. Já a sala de sutura está fechada há um mês por falta de profissionais. “Quando precisa fazer o serviço, tem revezamento entre os que já estão responsáveis por outras coisas”.
Um plantão noturno na unidade funciona, hoje, com nove ou dez auxiliares de enfermagem. Segundo profissionais da categoria, esse número deveria ser de 14. Na limpeza, a quantidade de servidores caiu de quatro para dois.
Já na UPA Bela Vista, a sala de aplicação fica, constantemente, fechada. “O pessoal que precisa tomar soro fica em outro setor. A sutura só funciona durante o dia. A verdade é que está todo mundo trabalhando no limite. Uma pessoa faz o serviço de três e estamos todos expostos a uma rotina exaustiva”.
Graves
No Pronto-Socorro, a Unidade de Pacientes Graves (UPG) comporta até quatro pacientes, que devem ser, initerruptamente, supervisionados por profissionais em função da complexidade de seus estados de saúde.
Um médico relata que, em um final de semana no qual usuários das UPAs foram encaminhados para o Central, a UPG ficou sem um auxiliar de enfermagem para observar os internados. “Isso é um absurdo. Eles estavam em estado grave. Muitos não têm condições de pedir ajuda, mas a demanda era tanta que o setor ficou sem ninguém. Eles ficam abandonados à própria sorte. Esse setor tem o mesmo papel de uma UTI”.
Em outras ocasiões, segundo auxiliares de enfermagem, esses pacientes são levados para a enfermaria para que não fiquem sem os cuidados necessários, apesar do improviso, pois não há profissionais suficientes para cobrir o serviço dos dois setores.
Demanda maior
Como revelou edição de 13 de maio do JC, a rede de urgência e emergência tem defasagem de 69 médicos. Os 107 contratados correspondem a apenas 60% da demanda. O fenômeno parece se refletir, talvez em menor grau, no caso dos demais funcionários.
Uma das explicações para a defasagem é o aumento da oferta de serviços da Secretaria Municipal de Saúde. Quando Rodrigo Agostinho assumiu a Prefeitura de Bauru, não existiam as quatro UPAs, que, hoje, funcionam no Bela Vista, Vila Ipiranga, Geisel e Mary Dota.
“Muita gente foi transferida daqui para essas unidades. Outros aposentaram ou pediram exoneração, mas não houve reposição de pessoal”, afirma uma auxiliar de enfermagem do Pronto-Socorro, que, por outro lado, também teve a demanda de usuários drasticamente reduzida após a entrega das novas unidades.
Plantão extra é o que ‘salva’o atendimento
Por conta do déficit de pessoal, funcionários das UPAs, do PS, do Pronto Atendimento Infantil (PAI) e do Serviço Móvel de Atendimento de Urgência (Samu) se submetem a um grande número de plantões extras. Alguns deles alegam serem pressionados a aceitar as jornadas suplementares.
Uma auxiliar de enfermagem diz que todos os servidores têm que assinar um documento se comprometendo a trabalhar nos plantões. “Se eu não posso vir, tenho que arranjar algum colega para me cobrir”.
A jornada da categoria é de 12 horas de trabalho por 36 de descanso, mas, em função dos plantões, muitos trabalham diversos dias seguidos. “Não tenho dia de folga. Já faço mais do que os oito plantões permitidos”, afirma outra auxiliar.
Para cobrir a defasagem de pessoal, servidores da rede básica também são escalados para atuar, extraordinariamente, na urgência e emergência.
Um médico relata episódio em que a vida de uma vítima foi colocada em risco. “Chegaram várias pessoas que estavam no mesmo carro e me garantiram que o caso de um jovem não era grave. Dei prioridade aos demais. Quando fui examiná-lo, constatei fratura na coluna cervical”, lembra.
Remuneração
O que mais revolta os auxiliares de enfermagem em relação aos plantões extras é a baixa remuneração. Em dias de semana, são R$ 120,00 por 12 horas de trabalho (R$ 10,00 por hora). Aos finais de semana, o valor sobe para R$ 200,00. Já os médicos recebem R$ 1.400,00.
“O pior de tudo é a gente ter que se submeter para tentar melhorar nosso salário defasado, pois o pessoal da urgência e emergência saiu prejudicado do Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS)”, observa uma auxiliar de enfermagem.
Ela diz ainda que, antes da implantação dos plantões extras, os funcionários eram mais bem remunerados pelo sistema de pagamento por cada hora extraordinária.
Diretor: ‘existe campanha contra administração’
Diante dos relatos de médicos e demais profissionais da urgência e emergência de Bauru, o diretor responsável pelo departamento da Secretaria Municipal de Saúde, Luiz Antônio Bertozo Sabbag, afirma que um grupo de servidores está unido em uma campanha contra a administração.
“Querem desestabilizar a mim e ao doutor Fernando Monti (secretário da pasta). Em época de eleições, acontecem essas coisas. Alguns médicos não querem ajuda e deixam de dar plantão aqui para trabalhar em Agudos, Lençóis Paulista e Pederneiras”, alega.
Apesar disso, Sabbag admite que há déficit de funcionários, mas garante que os serviços não são afetados como relataram os servidores ouvidos pelo JC. “Não chega a tudo isso porque cobrimos com plantões extras. Pagamos horas para essas pessoas. Evidentemente, pode haver alguém que está em licença ou férias, mas isso é esporádico”, pontua o diretor de Urgência e Emergência.
Ele afirma que a deficiência já foi relatada ao prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), mas argumenta que o município está impedido de contratar por conta do limite de gastos com folha de pagamento imposto pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).
Rebate
Sabbag nega denúncia de que pacientes em estado grave já teriam sido deixados sem o acompanhamento. “Isso não existe. Se aconteceu, pode ter certeza que é culpa do médico que estava de plantão, pois ele é responsável pela Unidade de Pacientes Graves (UPG). Se isso for confirmado, posso mandar o profissional para o conselho, pois configura negligência”, acusa o diretor.
Pacientes sentem
O déficit de funcionários é sentido por pacientes. A atendente Daniela Napoziano, 29 anos, conta que, recentemente, ficou internada no PSC.
“Deu para perceber o quanto os funcionários se desdobram para dar conta de tudo. Em muitas ocasiões, fiquei sozinha, pois, além de não ter um profissional, não permitiam um acompanhante”.
Marido de Daniela, o consultor Fernando Teodoro, 33 anos, diz que, à época, tinha dificuldades até para obter informações. “Quase nunca conseguia falar com a assistente social. Quando conseguia, era sempre correndo”.