Fatalidade. É assim que o irmão da mulher que morreu anteontem à noite após ser atropelada pelo filho em um estacionamento de um supermercado definiu a tragédia. Sozinha, ela cuidava de quatro filhos, de 13,11, 5 anos, além de um bebê de apenas 1 ano.
A mulher foi atropelada no estacionamento do estabelecimento, localizado, Jardim Araruna, por volta das 20h30. O filho dela, de 11 anos, foi quem ligou o veículo, um Fiat/Palio, com placas de Bauru.
De acordo com boletim de ocorrência (BO), a mãe da criança, ao ver que o filho estava com o carro, tentou tirar a chave da ignição pelo lado de fora, mas foi atropelada. Em seguida, o carro se chocou contra um Fiat/Siena.
Maria (nome fictício), 38 anos, morava no Jardim Flórida e tinha três empregos, entre eles, atuava vendendo pastéis em uma barraca para incrementar a renda dentro de casa. Por ironia do destino, o filho de 11 anos que a ajudava todos os dias foi quem a atropelou, justamente após mais um dia de expediente na barraquinha de salgados.
“Eles eram muito próximos. Ainda não acredito no que aconteceu, pois foi a primeira vez que ele se interessou em dirigir”, disse o tio do menino. Em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os nomes dos envolvidos serão preservados pela reportagem.
Labuta
A rotina de Maria não era das mais fáceis, como explicou o irmão. Ela trabalhava como auxiliar geral em uma concessionária de veículos das 6h até as 16h, diariamente. De lá, ia para casa, tomava banho e preparava sua barraca de pastéis. A venda era feita em frente a um mercado no Jardim Araruna. “Ela vendia pastéis até o mercado fechar. Quando retornava para casa, ainda tinha fôlego para cuidar dos filhos”, lembrou o irmão.
Maria era divorciada e contava com a mãe e os irmãos para ajudá-la com os filhos. Enquanto ela trabalhava, o filho caçula e a filha de 5 anos ficavam com a avó. À tarde, quando a filha mais velha, de 13 anos, chegava da escola, auxiliava nos cuidados com o bebê.
Uma das vizinhas do mercado onde ocorreu a tragédia, a dona de casa Elenice Castilho, confirmou a luta diária que Maria travava para dar sustento à família.
“Conheço desde pequena, pois minhas filhas estudaram junto com ela. Só tenho coisas boas para falar sobre ela: mulher direita e que trabalhou a vida toda, sem nunca reclamar de nada. Para conseguir uma renda extra, ainda trabalhava como diarista em algumas residências”, contou.
Inconformado
Entre os filhos, o companheiro mais frequente de Maria era justamente o filho de 11 anos, que acabou atropelando a mãe acidentalmente. “Ele saía da escola e já ia direto ajudá-la na venda de pastéis”, contou o irmão de Maria.
Ainda segundo ele, a criança passou por uma psicóloga ontem de manhã e, em seguida, foi levada ao velório. A cena era de uma criança inconformada, sendo abraçada e consolada por familiares, enquanto prestava o último adeus à mãe.
“Agora, não sei o que vai ser. As crianças vão ficar sob os cuidados da minha mãe e vou ajudar no que for preciso. A união da nossa família vai prevalecer agora”, finalizou o tio do menino.
Carro teria passado sobre a mulher duas vezes
Segundo testemunhas do acidente, a mulher teria sido atropelada duas vezes. A funcionária de um restaurante próximo ao mercado contou que o carro de Maria, teria girado 360 graus com a criança no volante.
“Vi que ela colocava as coisas no carro, quando, de repente, o veículo ‘andou’ em círculo”, disse a testemunha. “Ela foi atropelada pelo carro, que deu uma volta tipo 360 graus e passou novamente por cima dela, na altura do peito”, relatou a funcionária do restaurante. Outros comerciantes correram para ajudar e o menino precisou ser acalmado
“Ele só dizia: ‘minha mãe vai morrer, alguém ajuda ela’. Depois, a filha mais velha dela chegou e pedia para a mãe acordar. Muito triste ver aquela cena terrível”, lamentou.