08 de julho de 2026
Geral

Mais de 100 quadras mudam de mão

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Desde o ano passado até o momento, mais de 100 quadras pertencentes a 32 ruas de Bauru mudaram do sentido duplo para o único de direção. São tentativas de garantir mais fluxo em um trânsito caótico e que ainda carece de grandes obras viárias na cidade. A Empresa de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) confirma que as mudanças são para garantir uma maior fluidez e evitar acidentes, porém, a população reclama bastante.

O engenheiro de trânsito e gerente de planejamento em sinalizações da Emdurb, Aníbal dos Santos Ramalho, explica que a equipe do órgão faz um estudo, principalmente, com base no volume de veículos que trafegam nas vias e, constatada a necessidade e a possibilidade de implantação do sentido único de direção, ela é colocada em prática.

Nessa pesquisa, funcionários da Emdurb fazem a contagem manual de veículos em um determinado cruzamento durante um período de 12 horas, geralmente, das 7h às 19h.

A partir daí, são selecionadas as oito horas de maior fluxo e é efetuada uma média. Se na via principal passarem mais de 600 veículos por hora e, na secundária, 200, cabe a mudança de mão dupla para sentido único.

“Se uma via tem um volume acima de 600 veículos por hora nas oito horas de maior fluxo, ela já é uma rua complicada para ficar com mão dupla. Portanto, se temos a opção de implantar a mão única, nós o fazemos. O único ponto negativo disso é que o motorista, às vezes, têm de percorrer um trecho maior”, explica Ramalho.

O engenheiro reitera que o espaço viário é muito mais aproveitado com vias de sentido único, porque a capacidade e a velocidade são maiores. Além disso, de acordo com ele, as vias de mão única garantem mais segurança para motoristas e pedestres. “É muito mais fácil atravessar ruas de mão única, porque o fluxo ocorre de um único lado”, diz.

Aníbal Ramalho afirma também que o número de pontos de conflito, ou seja, locais em que podem acontecer acidentes, nos cruzamentos reduz bastante. “São três pontos entre vias de mão única, dez entre ruas de mão única e mão dupla e 32 entre duas vias de mão dupla”, complementa.

Polêmica

Essa mudança no sentido das ruas divide opiniões de motoristas, pedestres e comerciantes. Na quadra 5 da rua Quintino Bocaiúva, no Centro, cujo sentido único foi implantado no ano passado, estava Claudemir José Chacon, que trabalha como motorista.

Ele se posicionou a favor da mudança na via, porque desafogou o trânsito no endereço. “Compensou muito, porque os motoristas não ficam mais presos no trânsito durante os horários de pico”, defende.

Jorge Ramalho dos Santos, porém, não concorda. Ele, que também trabalha como motorista, diz que tem de percorrer um trecho muito maior na região para fazer um retorno, por exemplo. “Eu dirijo uma ambulância e transporto pacientes para consulta no Núcleo de Saúde do Centro e, às vezes, eles têm de ir até a Farmácia Popular, que fica perto, e eu tenho de dar uma volta muito grande para chegar até o estabelecimento”, desabafa.

Na quadra 1 da rua Benedito Ribeiro dos Santos, no Jardim Carolina, onde a mudança para o sentido único ocorreu em março deste ano, os comerciantes estão descontentes. Armando Fernandes e Geraldo Aparecido Bara Viera são proprietários de uma funilaria localizada no endereço. Eles contam que o movimento do comércio na região caiu bastante, porque apenas um lado da via pode ser utilizado como estacionamento.

Questionado sobre o assunto, o gerente de planejamento em sinalizações da Emdurb, Aníbal dos Santos Ramalho, argumenta que clientes fiéis não deixam de frequentar uma loja por conta da redução do espaço para deixarem os veículos.


Falta de obras viárias

Em reportagem publicada há um ano pelo JC, o gerente de planejamento em sinalizações da Emdurb, Aníbal dos Santos Ramalho, reiterou que o motivo de tantas mudanças no sentido das vias ocorre porque não existem obras viárias, como viadutos e avenidas perimetrais que liguem pontos diversos, para desafogar o trânsito e garantir a segurança de motoristas e pedestres. Ramalho não mudou de ideia de um ano para outro. “Temos de aumentar a vazão das vias já existentes e, com isso, ampliar a capacidade delas”, ratifica.

O engenheiro mecânico e colunista do JC, Marcos Serra Negra Camerini, concorda com a implantação de vias de mão única por conta da ausência de obras viárias que garantam a fluidez do trânsito.

“Todas as cidades planejadas têm ruas no sentido único, só as avenidas são de mão dupla. No caso de Bauru, existem defeitos crônicos, como buracos e valetas de escoamento, que podem segurar o trânsito e causar acidentes. Porém, acredito que o sentido único seria a solução mais viável para o problema neste momento”, finaliza o engenheiro.