A cidade de São Paulo enfrenta um dos maiores obstáculos de sua história no setor hídrico. O sistema Cantareira está esgotado. A captação de água começou a ser feita no volume morto - reserva de água na zona mais profunda das represas - desde a semana passada. Porém, se a estiagem for severa nos meses de inverno, o uso do ‘volume morto’ poderá ser limitado pelos órgãos responsáveis pela administração do sistema. A crise hídrica não afeta somente a Capital. Cidades da região de Bauru se preparam para não enfrentar os mesmos problemas a longo prazo.
Em Santa Cruz do Rio Pardo (90 quilômetros de Bauru), a ONG Rio Pardo Vivo luta para impedir a instalação de três pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) que para eles poderia inviabilizar o abastecimento de água em quatro cidades: Santa Cruz do Rio Pardo, Ourinhos, Pardinho e Botucatu. Uma expedição feita recentemente por um ambientalista mostra que o rio Pardo já sofre redução na vazão entre Pardinho e Botucatu.
Mais de 40 mil assinaturas foram coletadas em um abaixo-assinado que visa dar um não as PCHS. Os ambientalistas criaram três leis para transformar a bacia do rio Pardo em Patrimônio Cultural, Paisagístico e Ambiental.
Em Jaú (47 quilômetros de Bauru) a Câmara deu o aval para que seja aberta uma concorrência pública para a concessão dos serviços de água. Em vários pontos da cidade há falta do líquido e a privatização é motivada pela falta de recursos para investimentos necessários. Uma parte da cidade já foi concedida para uma empresa.
Em Botucatu (100 quilômetros de Bauru), a Sabesp antecipou a construção de uma adutora, porque a vazão do rio Pardo reduziu e pode comprometer o abastecimento futuramente. O novo sistema vai captar até 100 litros/segundo, um aumento de 22% em relação a vazão média de 460 litros/segundo. Os investimentos somam R$ 4,3 milhões e estavam previstos para 2019, mas a escassez hídrica dos últimos meses no Sudeste fez com que eles fossem antecipados.
Na cidade de Macatuba (46 quilômetros de Bauru), o gerenciamento do sistema de água e esgoto está com a prefeitura há três anos. A administração local não renovou o contrato com a Sabesp e agora decide qual o modelo de gestão que irá adotar.
ONG luta pela vida do rio Pardo
A ONG Rio Pardo Vivo alerta para um crime ambiental que pode ocorrer e comprometer o abastecimento de água em quatro cidades da região: Pardinho, Botucatu, Santa Cruz do Rio Pardo e Ourinhos. A instalação de três Pequenas Centrais Hidroelétricas (PCHs) no rio Pardo pode reduzir a vazão do rio. Para que isso não aconteça, a ONG coletou 40 mil assinaturas e recorreu ao Ministério Público estadual e a todos os órgãos competentes.
O presidente da ONG, Luiz Carlos Cavalchuki, é enfático em dizer que se as PCHs forem instaladas, o rio Pardo vai ficar como o sistema Cantareira, porque a bacia está liberada e a captação de água é cada dia mais profunda.
“Vai ter problemas no abastecimento. O rio Pardo tem 260 quilômetros de extensão e passa por 15 municípios. Houve estudos para implantar nove PCHs em sua bacia. Sete entraram com projeto, cinco deles foram considerados prioritários. Três são no município de Santa Cruz do Rio Pardo e duas em Águas de Santa Bárbara. O rio nasce em Pardinho e vai até Salto Grande.”
Ele explica que a luta da ONG é em defesa da água, da comida e do ar. “Com a instalação das PCHs perderíamos 200 propriedades rurais, 17 mil empregos diretos e indiretos e R$ 18 milhões em produtos agrícolas, esses são os dados econômicos. A contrapartida é que a sociedade receberia 36 megawatts de energia. Energia essa que não abastece nem meia Bauru. O estrago ambiental, social e econômico, para essa quantidade de energia, não vale a pena. O rio perde a carga hídrica.”
O ambientalista adverte para as perdas que ocorrerão para os municípios, caso as PCHs sejam instaladas. “Os municípios perdem as terras que são alagadas. Recebem só o ICMS produzido de energia que é ínfimo. É um golpe para os municípios. Nesse contexto, elaboramos três leis ambientais em São Paulo que vai ser votado na Assembleia. As leis transformam a bacia do rio Pardo em patrimônio cultural, paisagístico e ambiental. Já passou pela Comissão de Redação e Justiça que considerou o projeto válido.” Outra frente de luta conseguiu inviabilizar ambientalmente as três PCHs. “A Cetesb inviabilizou por conta do impacto que isso provocaria. Hoje temos a energia renovável. A nossa região temos três usinas dessas.”
Biomassa gera mais energia do que as PCHs
Até 2004, segundo Luiz Carlos Cavalchuki, não havia as energias renováveis, aquela produzida pela palha e bagaço de cana-de-açúcar. Elas geram 150 megawatts-hora (MWh), o suficiente para abastecer meia Bauru.
Ele alerta que o interesse em montar as PCHs não é gerar energia. “Pedem o dinheiro do BNDES e tem 30 anos para pagar. É um lobby comercial”, afirma o ambientalista.
Macatuba estuda modelo a ser adotado
O Há três anos, a prefeitura de Macatuba rompeu o contrato com a Sabesp e criou um serviço próprio de abastecimento de água. Atualmente funciona na Secretaria do Saneamento com funcionários terceirizados de uma empresa de engenharia. O secretário do Meio Ambiente, Antônio Carlos Perucci Jr., explica que a operadora é terceirizada e o gerenciamento é da prefeitura através do Sistema de Saneamento Ambiental de Macatuba (Sisam).
“O rompimento do contrato foi uma decisão política do prefeito anterior. A empresa terceirizada presta serviço de toda a operação de água e esgoto. Na transição da Sabesp para a prefeitura, nós não tínhamos know-how, pessoas com conhecimento para fazer a operação e então terceirizamos até entender o sistema, para que possamos fazer as coisas de maneira técnica.”
Sabesp antecipa investimentos por conta da escassez no rio Pardo
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O rio Pardo é um importante manancial que ajuda os abastecimentos de água de várias cidades |
A escassez hídrica dos últimos meses no Sudeste brasileiro fez com que a Sabesp antecipasse investimentos em todos os 365 municípios operados pela empresa no Estado de São Paulo. Na cidade de Botucatu (100 quilômetros de Bauru), a empresa iniciou obras de construção de uma nova captação de água bruta no rio Pardo.
O empreendimento estava previsto no plano de investimento da Sabesp para 2019, porém o cenário de escassez levou a concessionária a desenvolver ações para garantir a regularidade do abastecimento de água.
Os investimentos somam R$ 4,3 milhões e as obras tiveram início do mês com prazo de conclusão de 90 dias. A obra da nova captação de água compreendem a execução de 8.300 metros de adutora de ferro fundido e PVC, com diâmetros entre 300 e 400 milímetros, que levará a água bruta do ribeirão Pinheiro e mais dois afluentes do rio Pardo até a Estação de Tratamento de Água, além da construção de uma casa de máquinas. O novo sistema terá capacidade para captar até 100 litros de água por segundo, um aumento de 22 % em relação à vazão média de 460 litros por segundo.
Em Botucatu, historicamente a capacidade hídrica do rio Pardo permite que quase 670 litros de água por segundo sejam captados para atender aos mais de 130 habitantes. Em média, em períodos normais, o município capta 460 litros de água por segundo.
Porém, as temperaturas altas e índices de chuva muito baixos, prejudicou o volume de água da bacia do rio Pardo que registrou pico mínimo necessário para garantir o volume de água que a cidade consome todos os dias. A situação exigiu que os técnicos da empresa acompanhassem diariamente o nível do manancial.
Para não colocar em risco a qualidade de abastecimento que a cidade possui, a Sabesp buscou alternativas no próprio rio Pardo para garantir que a água chegue nas torneiras do consumidor durante a estiagem de inverno.
Expedição mostra que o rio já está sem água
Luiz Carlos Cavalchuki fez uma expedição na bacia do rio Pardo por 10 dias e garante que o rio “secou” entre Botucatu e Pardinho. “A Sabesp está captando toda a água lá por Botucatu. O rio ficou sem água até Itatinga. Tem uma hidrelétrica em Itatinga, mais precisamente em Salto do Lobo, instalada desde 1924. Ela funciona e gera energia suficiente para abastecer 10 chuveiros. A capacidade dela é de 1,5 megawatts e como não tem água ela abastece 10 chuveiros por dia. Pertence a uma empresa particular.”
Poço profundo tem megavazão
Aperfuração de um poço na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo (90 quilômetros de Bauru) feita por uma empresa especializada de Bauru, a Hidrogeo, surpreendeu os técnicos e mostrou o excelente potencial hídrico do aquífero Guarani. O projeto feito pela Sabesp previa um rebaixamento de 30 metros para uma vazão de 30 metros cúbicos por hora/dia. O rebaixamento foi feito com 32,13 metros e a vazão foi de 150m3/hora.
O proprietário da empresa, Moacir Pita, conta com entusiasmo que a vazão foi três vezes maior do que o previsto. “Estávamos perfurando o poço para a Sabesp e o resultado foi surpreendente. Isso significa 465 m3/hora por dia ou 9.300 000 litros. Considerando que a média de uso de água por pessoa é de 200 litros/dia, essa vazão dá para abastecer uma população de 46.500 pessoas.”
Como a população de Santa Cruz do Rio Pardo, segundo dados do Censo 2010 é de 43.921, esse único poço poderá abastecer todo o município. “A perfuração do poço foi em abril. Ele está sendo equipado com a parte elétrica e hidráulica. Pelo projeto a profundidade era de 380 metros para uma vazão de cinco metros cúbicos por hora por metro de rebaixamento. Nós aprofundamos para 402 em função de uma diferença de rocha e o resultado foi esse ai.”
Pita comenta que, quando tem início a perfuração de um poço, teoricamente se sabe o que vai encontrar. “Mas existem surpresas, como nesse caso. Nós temos o mapeamento geológico do Estado, mesmo assim quando perfuramos temos uma espessura de rocha e a gente encontra outra, ou a vazão prevista é uma e na realidade é outra.”
Segundo ele, a situação da Capital é crítica, mas em muitas cidades do interior há problemas de falta de água. “A água subterrânea é uma alternativa de abastecimento. Acontece que quando o Aquífero Guarani é muito exigido numa área pequena ele sofre um rebaixamento do nível. Isso é que tem que ser controlado, já está sendo controlado. Ele também tem limite de captação.”
O secretário de Desenvolvimento Econômico e Turístico de Santa Cruz do Rio Pardo, Maurício Araújo, admite que em anos anteriores houve problemas de abastecimento no Jardim Santana. “O problema foi sanado pela Sabesp que é quem administra o setor.”
Ele frisa que a cidade é cortada pelo rio Pardo e pelo ribeirão São Domingos. A preocupação com falta de água em Santa Cruz do Rio Pardo, segundo ele, chega com a possibilidade da instalação de Pequenas Centrais Hidrelétricas, as PCHs. “A possibilidade de instalação de três PCHs gera discussões na cidade. A organização Rio Pardo Vivo luta pela não instalação.”
Há, anos a ONG está lutando para que as PCHs não cheguem em Santa Cruz. “A partir da instalação, a Sabesp não poderá mais captar água do rio. Na altura de Botucatu, num lugar conhecido por Salto do Lobo, onde tem uma barragem antiga, o rio Pardo está tão baixo que não passa nem caiaque.”