08 de julho de 2026
Regional

Atividade gera mais de 2 mil amigos

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

Os aficionados em radioamador são em sua maioria homens adultos e bem resolvidos profissionalmente. Mas diante dos equipamentos e em meio a muitos fios eles se tornam crianças, afoitos por ouvir uma voz do outro lado. A voz pode vir da vizinhança, ou do outro lado do mundo. Atropelado pelas evoluções tecnológicas, o radioamador não é mais o ‘item’ principal na vida dos jovens, mas nunca deixará de ser na vida daqueles que fizeram do radioamadorismo um instrumento de fazer amigos e se doar em situações de emergências. 

Sílvio Roberto Mazetto, radioamador de São Manuel (69 quilômetros de Bauru), garante que quem é radioamador será sempre, apesar de todos os avanços tecnológicos. “O meio de comunicação do rádio tem sua modalidade específica, suas particularidades diferentemente da Internet e das redes sociais. O rádio permanece do hobby, passa-tempo para a própria comunicação. Nós acabamos conhecendo meios de comunicação mais avançado que o rádio, mas a paixão nos obrigada a permanecer.”

O encantamento do rádio, segundo ele, ocorre quando um radioamador sintoniza uma determinada frequência. “Vai aparecendo 10, 50 colegas. Nestes 35 anos de rádio eu calculo que tenho cerca de dois mil colegas. Inicialmente falamos o indicativo das estações, que é o prefixo. Cada um tem a sua localidade. Depois falamos o nome e começamos a trocar ideias. Comentamos desde o tipo de equipamento que cada um utiliza aos mais diversos assuntos. O sistema irradiante, os modos de comunicação. A gente acaba tendo informações sobre a  localidade, como é , como é a cultura dele.”

Apesar da Internet e de todas as redes sociais o radioamador ainda é usado, enfatiza Mazetto. “Independente de toda a tecnologia, o radioamadorismo é muito usado. Além do esporte e lazer, serve para situações de emergência. Busca de pessoas desaparecidas, localizações de cidades ou de certas localidades onde não há acesso fácil de comunicações. Locais onde a rede de telefonia não abrange, especialmente na área rural ou numa mata fechada.”

Ele lembra que começou no radioamadorismo em 1977. “À época, teve uma avalanche de incentivo de países que estavam exportando rádios para o Brasil. Nessa movimentação nacional e informações sobre o rádio Citizen Band  me despertou a curiosidade de ingressar no radioamadorismo. Na época  era a faixa dos cidadãos. Posteriormente eu acabei me tornando radioamador que é uma modalidade de comunicação pouco mais formal. Necessita de admissão através de exames perante a Anatel. Eu fui me infiltrando, admirando essa modalidade de comunicação e permaneço até hoje.”

Para se comunicar com outros países, Mazetto usa o inglês. “Convertemos as informações em códigos quando não dominamos a língua do outro.”


Repetidora

Em São Manuel (69 quilômetros de Bauru) está localizada uma banda repetidora para radioamador, explica Sílvio Roberto Mazetto. “A prefeitura me concede o espaço para que eu possa operar o serviço de rádio comunicação na banda de VHF que é uma banda repetidora para radioamador. Utilizamos esse local em virtude da altitude, aqui são quase 800 metros.”

Ele explica que precisa de altura. “Aproveitamos a altura e a torre para fixar nosso sistema irradiante e atingir as cidades no raio de 200 quilômetros. Aqui ficam os equipamentos. Exemplo: uma pessoa de Itapuí quer falar com Botucatu, o sinal vem para repetidora de São Manuel que repete para Botucatu. Ou, um radioamador de Bauru quer falar em Bauru. O sinal vem até repetidora e volta pra Bauru.” 


Socorro ao México

“O radioamadorismo está presente quando os meios de comunicação mais modernos falham. Nessas situações, a única solução é o radioamadorismo. O mais recente episódio foi aquela catástrofe na serra fluminense com deslizamento de terra. Não tinha energia elétrica, Internet e telefone. Os radioamadores com rádios portáteis abastecidos com bateria ajudaram no resgate de vítimas e agilizaram a chegada de alimentos e medicamentos. Nos anos 80,  participamos de uma rede mundial para ajudar as vítimas do terremoto do México, facilitando a chegada de auxílio”. É assim que o radioamador Mário Ernesto Libardi define o papel do radioamador na atualidade. 

Há 36 anos na atividade, Libardi frisa que em 78 quando começou no radioamadorismo, os pais incentivavam. “À época não tinha Internet, celular e as opções de hobby eram radioamadorismo, coleção de selo e moedas. Me apaixonei e estou até hoje. Foi por curiosidade. Não tive problema com custo e espaço. A casa que eu morava tinha espaço para instalar a antena.”

Ele ressalta que ninguém da família se interessou pelo radioamadorismo. “Não fiz escola. Tenho uma estação em minha casa. É um lugar especial para mim. É dali que faço os contatos. Eu me dedico. Todo dia eu dou uma ligada no rádio. Nos finais de semana falo mais, durante a semana pelo menos uma hora por dia, mais ou menos como as pessoas fazem com a Internet. Fiz muitos amigos. Tenho amigos que fiz pelo rádio que são amigos até hoje. De outras cidades e outros países, conheço vários deles.”

Na prática, explica Chiquini, os radioamadores faziam a interligação dos rádios das unidades de socorro com as bases deles. “Só assim as mensagens eram passadas e recebidas.”


Registro na Anatel

Para ser radioamador é preciso ter idade acima de 16 anos. Se menor, tem que ter autorização dos pais. Para entrar para o ‘clube’ é necessário enfrentar uma seleção, avisa Sílvio Mazetto. “Existe uma apostila que abrange a legislação, a ética e o operacional. Não é nada extraordinário. São princípios básicos para ingressar no serviço de radioamador.”  Os exames são aplicados pela Anatel em São Paulo. “Em 2012 tivemos provas em Bauru, Araçatuba e São Manuel.”


Desinteresse dos jovens

As evoluções tecnológicas afastaram os jovens do radioamador. Com um celular de última geração eles acessam o mundo e fazem amigos. A velocidade e a mobilidade na comunicação atrai mais os jovens.

O radioamador Sílvio Roberto Mazetto confirma. “Hoje  a  Internet e as evoluções tecnológicas faz com que o jovem fique mais atrelado às novas tecnologias.  Poucos deles se preocupam com o radioamadorismo. Estamos tentando fazer um trabalho para um tempo não tão breve, a fim de estimular o radioamadorismo para os jovens. Mas ainda é projeto.”

Ele diz que em São Manuel há de quatro a oito jovens que acompanham as atividades. Ele acha que não é o preço que impede o jovem de se apaixonar pelo radioamadorismo. “Falta incentivo, dinâmica, divulgação. Estamos fazendo um trabalho de publicidade desde 2010. O reflexo vamos sentir mais para frente.”

Carlos Chiquini, radioamador de Garça, diz que o não interesse do jovem é motivo de preocupação. “Está ficando só o pessoal mais antigo. Os jovens não se interessam, não estamos fazendo escola. Eu tenho filhos, mas nenhum se interessou.”