Febre nos anos 90 entre jovens, os jogos imaginários (RPG) vieram para ratificar que os estímulos aos repertórios culturais e da formação do pensamento são ferramentas essenciais no desenvolvimento humano. Mas o encontro de jovens para montar cenários e mundos alternativos em uma "disputa" em torno do enredo fantasioso passou ao largo da inerte, passiva, gestão pública que ainda protagoniza escolas com quadro negro e giz.
A professora de psicologia escolar Flávia Asbhar, da Unesp-Bauru, discute em tese de doutorado o que significa o aprendizado para crianças e provoca, em forma de pesquisa, o quanto essa sistematização está distante do que pensam os principais atores, os alunos, em detrimento à escola. "Por que aprender isso professora?", questiona a pesquisadora à luz da observação junto a crianças, na tese. As crianças é que responderam na tese. Disseram que aprendem porque precisam "passar de ano" ou porque os pais ou alguém da unidade escolar insisti que é para "ter bom emprego no futuro".
Apreender, abstrair, acessar mundos do conhecimento, fazer conexões de ideias e, com isso, gerar desenvolvimento humano não está inscrito em nossas escolas públicas, em sua maioria. O fato é que os jogos imaginários, ainda existentes entre jovens em formatos "modernizados", vieram para confirmar o que as pesquisas acadêmicas já apontavam: o Brasil reproduz uma escola com métodos do século XIX para filhos da geração do século XXI.
No caso do RPG, a disseminação do jogo que estimula o participante a raciocinar e a se permitir adentrar a cenários e concepções de ações e roteiros encadeados - o que obviamente acessa o mundo dialético e da cognição a partir da interligação com o criativo e fantástico universo da imaginação - é mais uma demonstração de que a escola pública brasileira não só perdeu o bonde da história, de novo, mas continuou olhando para seu umbigo da ineficiência ao invés de experimentar novos formatos.
Por que nossas escolas não têm teatro, música, artes públicas em abundância? Quem disse que um jovem de periferia pode repetir a tal da tese do determinismo a partir do meio e do ambiente e só cantar funk porque é isso que ele ouve em seus guetos. Tudo bem que este jovem ouça funk na sua comunidade. Mas cabe à nossa escola oferecer a esses jovem repertórios multiculturais, gerar, ao menos, o estímulo para novos sons, cores, desenhos e práticas.
Os jogos imaginários, em Bauru, alimentaram a alma do jovem e agora professor João Henrique Paschoal, morador em Agudos. E sabe o que aconteceu? Do experimento da invenção de histórias da literatura fantástica a partir da adolescência, João Henrique viu despertar, na fase adulta, o desejo por escrever. Sua trilogia, Primeira Alvorada lançada pela Editora Idea, de Bauru, está por ai vendendo bem em prateleiras de livrarias, convidando os adolescentes e jovens da nova geração a também criar cenários, construir seu próprio mundo a partir do básico: o pensamento e o despertar da criatividade.
É a literatura fantástica, por simbologia, mostrando aos burocratas da gestão pública na área de educação que o pensar, impiedosamente, caiu no vazio na sala de aula. Então que os personagens que sobrevivem no ambiente da troca da noite pelo dia na trilogia de J.P. Paschoal despejem alguma energia de lucidez sobre os omissos e algozes da educação brasileira sentados, de plantão, no poder.
O autor é jornalista do JC e compositor