08 de julho de 2026
Articulistas

Lembranças da matriz

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Nova York - Diz a canção de Cole Porter que Nova York é sempre ótima, em qualquer estação do ano. Para o turista é a escolha mais fácil: possibilidade de errar, igual a zero. A cidade tem tudo o que alguém possa desejar, e mais alguma coisa. O incrível na Big Apple é a capacidade de se reinventar. Os bairros mudam de feição e de utilidade. O que era antes um setor decadente, procurado por imigrantes pobres por causa dos alugueis mais baratos em prédios arruinados, de repente vira centro de compras sofisticado. O velho é dinamitado para dar lugar a edifícios moderníssimos. Os pobres que procurem outro lugar mais barato para viver.

Os americanos dão o nome de "gerentrification" a esse tipo de fenômeno urbano. As alterações dinâmicas da composição do local, os novos pontos comerciais dão nobreza ao bairro antes marginalizado. Gerentrificação é o processo de transformar algum setor deteriorado da urbe em coisa nobre, gentil. A moda agora é o Brooklin. Nunca lembrado pelos turistas há alguns anos, somente por estar do outro lado do East River, de uns tempos para cá ganhou o adjetivo de "cool borough", o distrito das amenidades que só nos dão satisfações. Lá surgiu uma nova espécie da fauna humana, o hipster. Assim é chamado o indivíduo de certa parcela da classe média urbana, que cultua estilos alternativos e certo saudosismo. Vale a pena passear pela Bedford Avenue, cheia de lojinhas descoladas, para se ter ideia da forma hipster de viver. Ali, essa nova cultura criada está em permanente efervescência.

Os antigos moradores é que não estão gostando nenhum pouco de gastar mais pelo cafezinho no bar da esquina, ou pelos alugueis reajustados. Aconteceu na TriBeCa, assim chamado por ser um Triângulo Abaixo da Rua do Canal. O lugar de fábricas abandonadas de confecções tornou-se refúgio de artistas como Robert De Niro, idealizador do importante festival de cinema que leva o nome do bairro. Andar pela Hudson, a avenida principal, permite ao turista conhecer os mais recentes lançamentos da moda internacional, nas lojas de grife. Arrisca-se cruzar com Meryl Streep (O Diabo Veste Prada), que mora ali perto num loft, o andar mais alto do que antes foi um atacado de móveis. Daí a gente imagina o luxo em que foi transformado o antigo barracão.

A antiga linha elevada de trem, desativada na beira do Rio Hudson, virou um jardim de dois e meio quilômetros de comprido. Vai dar no moderníssimo prédio destinado a abrigar o mais novo museu da cidade, no ano que vem. O High Line, como é chamado, deveria servir de modelo à transformação do Minhocão do Maluf num bulevar cheio de flores, verdes e áreas de lazer. Hoje é um dos pontos mais visitados pelos turistas, quem sabe atraídos pelas novaiorquinas em banho de sol nas espreguiçadeiras à disposição do público. Um pouco também para conhecer a criatividade do prefeito Bloomberg - fez do velho, algo novo, bonito e útil. Quem sabe um dia alguém faça algo parecido com o pátio ferroviário de Bauru.

NY tem aquilo que eles chamam de "overwelming", algo tão intenso que sufoca. Na Little Brazil Street, ou Rua 46, bem perto da Times Square, o entusiasmo pelos jogos da Copa do Mundo é muito maior do que no nosso país, sede do evento. A rua está toda embandeirada de verde-amarelo. Os bares oferecem telões para os torcedores, enquanto servem caipirinha e quentão ao som de batucada. "Não deu para ir, o Brasil vem até você", é o slogan da festa. Há outros bares fora desse circuito que também é frequentado por brasileiros. Fui levado ao Legends, um bar de três andares no NoLita - outro bairro em gerentrificação, assim chamado por estar a North of Little Italy. Os donos são irlandeses, mas a torcida em maioria é a brasileira. São 50 televisores, alguns de 150 polegadas. Trinta marcas de chopes, inclusive Skol e Brahma, a escolha do freguês, por quatro dólares. Hambúrgueres a 10 dólares, para deixar à vontade aqueles que fazem do futebol uma religião. Preços de botequim de ponta de vila, no Brasil. Ali, as diferentes torcidas se respeitam. Brigas valem trinta dias de cadeia ou 10 mil dólares de multa. É a lei. Como diz meu amigo Assaf Hadba, o mais viajado dos bauruenses, "O ser humano vem em primeiro lugar na sociedade americana. Depois é que vem o cachorro." Os membros da espécie humana, dita racional, têm que se respeitar. Ou aprende na marra.

O autor é jornalista e articulista do JC