09 de julho de 2026
Economia & Negócios

Rotina é alterada da feira ao boteco

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

Bem antes do apito do árbitro japonês Yuichi Nishimura no jogo de abertura da Copa do Mundo, na última quinta-feira, os bauruenses já alteravam rotinas de trabalho em função da estreia da Seleção canarinha. E a mudança não atingiu somente a correria a açougues e supermercados para garantir os produtos da festança no dia do jogo. Das reuniões empresariais ao dia da feira, o “efeito Copa” esteve presente.

O vendedor de tapioca Ulisses Manoel da Silva teve de antecipar o preparo da iguaria tipicamente brasileira em, pelo menos, um dia. E nem foi por causa da estreia da Seleção. “É que o jogo do Brasil na quinta-feira exigiu a mudança da feira para quarta à noite e, então, eu tive de preparar os ingredientes ainda antes”, contou.

A feira de rua da Fuas de Matos Sabino é realizada rotineiramente às quintas, das 16h às 20h. “Mas se fizesse esta semana no dia do jogo, não ia ter ninguém. Tem bem menos gente que no dia tradicional, onde as famílias já estão acostumada a comparecer. Mas foi melhor fazer antes do que ver a feira vazia no horário do jogo”, avaliou.

De gorro nas cores da Seleção, ele completou:” Vendi menos, mas vou aproveitar e assistir ao jogo em casa, com a família”, minimizou.


Espírito de Copa

O comerciante Luiz Carlos Rodrigues enfeitou sua barraca com bandeirolas. “O público diminuiu sim. Acho que muita gente não soube da mudança e, no dia do jogo, não viria ninguém. Alguns comerciantes chegaram a falar em alugar um telão e manter a venda na quinta, mas o custo não compensaria e adiantar a feira foi a melhor escolha. Não tem jeito, Copa do Mundo é paixão e, sendo realizada no Brasil, o envolvimento é ainda maior”, comentou o vendedor de produtos integrais.

O artesão Dom Júnior tentou tirar algum proveito do evento. Ele levou para sua barraca suportes de panela com cores da bandeira nacional. “O que eu trouxe eu vendi rapidamente. Se tivesse trazido mais, tinha vendido. Pena que o público hoje é menor do que o dia tradicional da feira”, disse o artesão, que também produziu mosaicos nas cores nacionais.

A rotina mexeu com serviços e horários em todos os segmentos. As ruas voltaram a ter tráfego intenso pelo menos duas horas antes do início da estreia da Seleção. Às 16h, porém, avenidas e estabelecimentos estavam completamente vazios, com exceção, claro, de bares e restaurantes que montaram esquema específico para atrair torcedores.

No Judiciário, a estreia da Seleção gerou ponto facultativo. Mas a servidora Maria Júlia reclamou que teve de compensar a folga com a realização de hora adicional durante os demais dias. “Eu tive que trabalhar, pelo menos, uma hora a mais por alguns dias, compensar. Preferia o horário reduzido”, reclamou.

Prefeitura e Câmara Municipal, por exemplo, assim fizeram. Nesses locais, o expediente foi das 8h às 12h, mas sem necessidade de compensação. Assim o será nos próximos jogos do Brasil.

Na coleta domiciliar de lixo, as equipes tiveram de correr para completar o percurso. A ordem, segundo a assessoria de imprensa da Emdurb, foi de coletar todo o lixo do setor em menor tempo possível.

No transporte coletivo urbano, o número de carros foi reduzido em 30% a partir do período da tarde no dia do jogo do Brasil. Conforme a Emdurb, foram 66 veículos a menos em relação a uma quinta-feira normal. A frota total em operação em Bauru é de 220 carros, sendo 14 de reserva.


Peso do evento

“As cidades têm de ver os eventos de porte como janela para investimentos estrangeiros, mas sem deixar de tomar cuidado com o superdimensionamento do mega e do super que sempre vêm embutido nas propagandas do gênero”.

A reflexão é da professora da PUC-SP, Mônica Carvalho, que estuda o impacto da Copa do Mundo nas cidades a partir da sociologia urbana. Para ela, a disputa por eventos de porte é uma estratégia equivocada. “Disputar um evento, mesmo de porte, não é uma boa e não deve nunca ser visto como a panaceia porque a vitrine momentânea não traz atrativos sólidos, permanentes, para nenhuma cidade”, cita.

Mônica pondera que a Copa traz visibilidade, mas superdimensionar o evento como fonte de atração de investimentos e receita é superficial. “A carga de marketing projetada sobre o evento está superdimensionada. É um evento de efeito global, sim, mas cujos resultados atingem alguns segmentos, como a televisão e o turismo para as cidades sedes e, nesse último caso, em uma volume concentrado e limitado aos 30 dias do evento”, comenta.

Em seu estudo, a professora da PUC menciona que a instalação da Arena Itaquerão confirmou o novo viés de vetor de desenvolvimento urbano para a Zona Leste em detrimento a outras regiões da cidade.

Mas ela salienta que esse vetor já estava definido na mudança do Plano Diretor de São Paulo desde 2002. “O eixo da Zona Leste já estava definido no Plano Diretor como alternativa para redirecionar o desenvolvimento urbano. A instalação do estádio novo, ao invés da reforma do Morumbi, por exemplo, veio para dar visibilidade à região, mas isso já estava posto em lei. E, no caso de São Paulo, as obras de mobilidade urbana não tiveram impacto e são muito mais necessárias”, aborda.


Bares também perdem

Ao contrário do que o não frequentador de bares pode imaginar, dia de jogo não significa maior presença de consumidores em boteco, com exceção do horário da partida.

A explicação dos comerciantes do ramo é simples: o boteco enche no período das partidas (por cerca de 3 horas), mas a concentração nos lances da disputa gera menor consumo. E o pior vem depois: a maior parte das pessoas não permanece no bar ao final do jogo.

Apenas os bares que atraem público mais jovem e, ainda assim, situados próximos de locais de concentração de torcedores ou de circulação é que tendem a manter as vendas no dia de jogo. “Os bares que estão em locais de circulação conhecida do jovem, como em alguns pontos da Getúlio Vargas, conseguem manter algum público após as partidas. Mas, nos demais locais, a tendência é lotar durante a partida e esvaziar logo em seguida”, conta o comerciante Marcos Semensato.

E tem outro componente nesta história. “Nos bares frequentados por público mais maduro, a partir dos 30 anos, a presença é ainda menor, porque muita gente prefere fazer encontros em casa e o tradicional churrasco com os amigos. Em uma quinta-feira normal, o bar vende, do final da tarde até 23h, ou seja, com público médio maior, por muito mais tempo”, explica.

A queda nas vendas na comparação entre uma quinta-feira normal e a da estreia do Brasil na Copa é de 30%, na estimativa de Marcos.