08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Barril de pólvora


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Estávamos às vésperas da tão esperada, debatida e tumultuada Copa do Mundo no Brasil. É sem dúvida um momento ímpar. São raras as ocasiões em que se sabe de antemão que um capítulo importante da história será escrito, de uma forma ou de outra. A Copa realizada em casa, depois de 64 anos da tragédia do "Maracanazo", por si só, já é um elemento atipicamente dramático, porém diversos outros ingredientes trazem a expectativa de uma Copa inesquecível, dentro e fora de campo.

As jornadas de junho modificaram a cara do país, se não administrativamente, mas pelo menos na maneira com a qual o povo tem reagido. Paralisações e protestos, violentos ou não, tornaram-se comuns desde então. Movimentos sindicais e sociais prepararam-se para pesadas manifestações, e o bordão "não vai ter copa" ganhou peso. Os tais Black Blocs, importantes responsáveis pelo esvaziamento das manifestações gerais, prometeram violência, enquanto o Governo Federal, por sua vez, garantiu que irá coibir a "baderna" com mão de ferro. Importante fator a ser observado também, é quem está nas ruas.

Os protestos de junho foram marcados, em maioria, pela manifestação de jovens, estudantes e da classe média em geral, mas não se pode desconsiderar o descontentamento das classes mais miseráveis, que se manifestam de forma diferente, e têm uma outra maneira de reagir às imposições do Estado. Vale lembrar que essas duas classes não possuem identificação, e que divergências ideológicas já causaram conflitos entre os próprios manifestantes num passado recente. Esses fatores fazem do Brasil um barril de pólvora. Além disso, o debate encontra-se polarizado, nem tanto em relação à realização da Copa, pois devido à corrupção escancarada e às prioridades do país existe um sentimento quase unânime de que seria melhor se não tivéssemos Copa nenhuma. Porém, uma vez prontos os estádios, e a realização do evento inevitável, existem os que ainda não queriam a Copa e fazem o possível pelo seu fracasso, e aqueles que entendem que essa seria uma maneira de piorar o que já está ruim. E em meio a tudo isso está a "sagrada" Seleção Brasileira, que vem servindo como bode expiatório da situação. Afinal, enquanto uma parte a hostiliza, uma outra, também descontente com a situação do país, vê a seleção como paixão e patrimônio cultural, e paixão não se explica. Ademais, hostilizar uma instituição desportiva pelos desmandos praticados pelos dirigentes que dela se aproveitam não parece fazer muita lógica. Para completar o quadro, na sequência teremos eleições presidenciais e os candidatos, mais do que o povo, estão de olho no resultado da competição.

Se o Brasil fracassar na Copa, as chances de reeleição da Presidente Dilma Rousseff diminuirão de forma sensível, pois sabemos como são os corações humanos, as manifestações em massa e a tendência popular a misturar os assuntos. Por outro lado, uma vitória do Brasil e o sonhado sexto título mundial em casa podem "anestesiar" a revolta da população e criar um cenário mais favorável à reeleição. Embora o retorno do debate político com as eleições possa fazer com que essa anestesia tenha curta duração. Tudo pode acontecer, inclusive nada. Quem viver, verá...

Fábio Galazzo - advogado