09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Escola da Ponte sobre o nada


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O JC do último domingo abriu uma página para o professor português José Pacheco desfiar uma série de ideias pedagógicas equivocadas, apesar de sua aparência "moderninha". Entre as concepções a-científicas e a-históricas sobre o desenvolvimento humano, que fundamentam sua proposta educativa, destaco duas. O professor ignora que a forma-indivíduo do psiquismo é uma conquista relativamente recente da humanidade, que só foi possível após o desenvolvimento de formas complexas de produção material.

Para que alguém possa formar-se como sujeito autônomo e ter uma relação consciente com a realidade, é necessário que ele assimile uma concepção científica de mundo, os princípios das manifestações artísticas e um elaborado sistema axiológico para orientação na esfera moral. Essa assimilação individual do que de melhor a humanidade em seu conjunto já desenvolveu, implica na sua passagem por uma escola que tenha por finalidade propiciar as condições para a formação de sua autonomia e florescimento individual, e não supor que isso já está geneticamente determinado.

O professor também ignora que necessidades e motivos não estão geneticamente dados, mas se desenvolvem na criança em novas atividades realizadas em conjunto com os adultos. A necessidade e os motivos de aprender teorias científicas precisam ser desenvolvidos na escola e, para isso, vai apoiar-se em interesses já presentes na criança, mas também vai opor-se frontalmente a outros. Não se trata aí de perguntar à criança o que ela quer, mas planejar e desenvolver atividades que nela promovam o surgimento de novas necessidades e motivos.

Quanto ao ensino superior, o ilustre professor enuncia um "princípio" segundo o qual "a teoria nunca antecede a prática". Os estudantes preguiçosos devem achar isso ótimo, mas tal arrazoado é simplório. O professor ignora as mútuas determinações entre teoria e prática. Na história das ciências tanto há exemplos da elaboração de práticas experimentais e de observação que levam a desenvolvimento teórico, quanto de desenvolvimento teórico que leva a formas inéditas de observar fenômenos, bem como a novas realizações tecnológicas. Nada mais prático que uma boa teoria, ou seja, nada mais teórico que uma boa prática.

Geraldo A. Bergamo