À beira do caos e do incerto, o País caminha para 20 dias de extrema exposição mundial, onde a beleza se apresenta aos gringos ? nos melhores resorts e hotéis do País ? e a precariedade dos recursos públicos à nós brasileiros. A Copa do Mundo, através da magnitude das construções dos estádios, financiada por empréstimos subsidiados de bancos públicos, e a ausência quase absoluta de legado em termos de infraestrutura urbana, tornou-se um dos picos para o despertar da insatisfação popular. Na realidade, o que se manifesta quando se para uma estação de metrô é a retomada de reformas institucionais já que, apenas com a sua realização, haverá serviços públicos de qualidade, carga tributária menor e mais equilibrada, menor desigualdade de renda, maior justiça social, economia estável em bases permanentes e sistema político representativo dos interesses da maioria dos brasileiros.
Somente profundas reformas, pensadas em colegiado e não por interesses ? dos mais diversos ?, corrigirão graves distorções como as do sistema tributário brasileiro, que taxa mais os pobres que os ricos por meio de impostos diretos e indiretos sobre o consumo; do ensino em nível universitário, que educa gratuitamente os filhos da elite nas melhores universidades públicas e oferece bolsas para que os estudantes de baixa renda se formem em fábricas (particulares) de diploma; do Imposto de Renda, que permite aos ricos e a quem tem dinheiro pagar plano de saúde ou consulta médica e deduzir esses gastos, tirando na prática recursos da saúde pública; do sistema de crédito estatal, que direciona dinheiro subsidiado do Tesouro a empresas com acesso aos mercados de capitais dentro e fora do país; do funcionalismo, que tem estabilidade no emprego, dois meses de férias remuneradas por ano, fora adicionais e regalias que nem se faz necessário apresentar, bem diferente dos trabalhadores do setor privado.
Enquanto nada disso acontece, a grande maioria do País finge à comodidade e se entregará aos encantos do evento. Estamos em Copa, povo na rua, cara pintada, bandeiras e gritos de gols. Tanta felicidade que tapa buracos de pobreza e sofrimento, pelo menos até enquanto são vitórias...
Os autores são, respectivamente, economista com MBA em Finanças; economista e diretor de empresas