10 de julho de 2026
Articulistas

O caipira, o burro e o galo!

Ismar Pereira
| Tempo de leitura: 3 min

Era alta madrugada e ele não pregava os olhos. Pior ainda: era a terceira noite que passava em claro ? um verdadeiro inferno astral! Sabia que o círculo estava se fechando e o tempo, acabando. Tinha certeza de que São Benedito não era um santo vingativo. Aliás, ninguém esperaria isso de um santo. Mas também sabia que "promessa é dívida".

Os fatos desfilavam na sua memória. Há vários dias ganhara de um coronel, seu padrinho, um burro recém-nascido, que tinha até pedigree, mas cujo estado de saúde era muito precário. As más línguas até disseram que o presente só lhe fora dado porque o coronel tinha certeza de que o burrinho não sobreviveria. Mas, graças aos cuidados que o caipira lhe dedicou, e a um pedido feito a São Benedito, o animal sobreviveu. Mais ainda: tornou-se o melhor e mais cobiçado da região. Algumas pessoas afirmavam que era um burro inteligente, tal a cumplicidade que tinha com o seu dono.

Um dia, porém, o animal amanheceu doente. O veterinário receitou-lhe uma batelada de remédio. Dias depois, deu o veredito: o burro havia piorado. Teria, no máximo, 72 horas de vida. O caipira ficou desesperado e resolveu apela novamente para o santo. Coisa séria, pra valer mesmo: se sobrevivesse, o burro seria vendido e todo o dinheiro recebido seria doado a São Benedito. Afinal de contas, o veterinário afirmara que só um milagre salvaria o animal.

E o milagre aconteceu. Da noite para o dia o burro sarou. Até ficou mais forte, mais bonito. O caipira alcançara a graça. Em contra partida, teria que cumprir a sua parte na promessa. Promessa que lhe doía no bolso, sempre tão vazio, já que lutava com dificuldade pela sobrevivência.

Estava com a mente tomada por mais pensamentos e péssimos pressentimentos quando ouviu o galo cantar. E o canto do galo deu-lhe uma ideia brilhante. O sol começou a raiar e ele já estava na estrada, montado no burro e levando o galo no colo. O fazendeiro, maior admirados do animal, estranhou aquele tipo de visita.

E achava ainda mais estranha a proposta que lhe foi feita. Mas não titubeou: fechava o negócio na hora e pagou em dinheiro. Sem o galo e sem o burro, o caipira foi direto para a igreja do vilarejo. O padre ficou muito feliz com tal doação, sendo de pessoa tão humilde. O caipira ficou mais feliz ainda: além de pagar a promessa feita a São Benedito, embolsara uma verdadeira fortuna. Como assim, perguntará o prezado leitor. Muito simples: ele ofereceu o burro pela bagatela de R$ 500. Mas só o venderia junto com o galo. E o galo custava R$ 15 mil. O caipira acabava de inventar, sem saber que o fizera, a famosa e polêmica "venda casada"!

Nota: Há um ano, em 29 de março de 2013, tive o privilégio de passar a fazer parte do seleto grupo de colaboradores da Coluna "Opinião". Com os meus ¾ de século de vida, já passei da idade de tentar eliminar as mazelas que afligem a humanidade. Assim, revolvi, num estilo coloquial "dissecar" os fatos pitorescos do cotidiano. Parece que deu certo! Torcendo para que esta parceria jornalística seja (muito) duradoura, externo meus agradecimentos ao "Jornal da Cidade", ao seu gerente de produtos editoriais, João Jabbour, e aos leitores que me honraram com a sua atenção. Muito obrigado!

O autor é colaborador de Opinião