08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

"Meio-dia e Meira!"


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Ainda não é meio-dia e meia, a espera de estar à espera é eterna, o sinal não soa, a campainha não ressoa e pela sala de aula ecoa: "Meira, solta nós!" O professor, eterno jovem além da História, retruca: "Ô cara, senta aí! "Pô, meu, não enche o saco!" Quem é quem ninguém sabe, só se sabe que a aula que terminara é o presente mais que perfeito do raro e tão caro pelos discípulos, mestre Meira!

Grande Meira, e pensar que um dia lhe achei o esnobe dos esnobes devido ao seu bem vestir, sua retórica inteligente, dialeto intraduzível para ignotos e rotos!  Conheci Meira no Interativo em 1989, genial, inteligente, sagaz, politizado, estilizado, dono da loja de roupas e que roupas, a Casablanca da Gustavo Maciel em frente à centenária Beneficência Portuguesa! fui entender somente mais tarde por que a loja chamava Casablanca! Meira era casado com a Sandra que havia sido minha professora na Escola Técnica de Bauru junto com Sérgio Lhamas, Luiz Vitor Martinello e outros monstros da lousa! No entanto, tornei-me amigo de Meira no Seta de Sônia Mozer. Paiva, Paulo Neves, mais admiráveis monstros do tablado e riscado!

Como eu ansiava pelos intervalos e poder falar com o Meira de filmes, livros e até de Esporte Clube Noroeste, nesses ínterins, Antônio Carlos Meira discorria sobre tudo, ele me fez votar em José Dirceu para deputado  em 2002, fez-me trazer-lhe de Campinas uma estrela do PT, fez-me crer que havia o filme "O Peixe Erótico"! Como eram felizes os nossos recreios!

Meira podia parar de trabalhar e viver de palestras, livros, blogs, mas ele adorava os alunos e lecionar e sempre dizia que precisava do dinheiro para pagar as contas e quem não precisa, Mestre? Com as dicas do Meira, aprendi com os filmes, por ele, assisti a "Casablanca" e adorei, era um filme por semana, cinéfilo, como eu gostaria de gritar para o mundo o que ele sabia da sétima arte, mas ele era discreto, ele queria as aulas e aos alunos! Muitos alunos me diziam que,  mesmo quando mudavam de  escola, estudavam História pelo caderno do Meira!

Certa vez, após o sinal de volta às aulas, ele gritou para mim: "Vamos, que você está atrasado!" Em vez de pensar no sinal, pensei no atraso da programação e briguei com ele! Fiquei triste, não conversávamos mais, até que um dia mudei minha rota de caminhada e corrida e fui correr no Vitória Régia e , por uma coincidência do destino, encontrei o Meira, ele em deu um carinhoso abraço e voltamos a ser amigos!

Meira, não creio que você foi embora, velho amigo, estou triste, você ensinou seus alunos e inclusive, meus filhos, a pensar, a politizar, a votar, você era raro e por isso tão caro! Seu quadro está na parede da minha casa e olho para a paisagem e vejo você, amigo, segundo Rolando Boldrin, do Sr. Brasil, você "viajou fora do combinado!". Você foi tão professor que esperou as aulas cessarem para "viajar", segundo Machado de Assis, "os amigos, os antigos, foram todos estudar a geologia dos campos santos"? Ou seria História, amigo!

"Pô, Meu". Até qualquer dia, toda vez que eu usar esse possessivo de primeira pessoa, lembrar-me-ei de Você, Meira! Aguardo você, amigo, breve nos cinemas!

Sinuhe Daniel Preto, um professor antevendo uma eterna vaga no horário das escolas!