09 de julho de 2026
Bairros

Começou a estação mais fria do ano

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Mototaxistas, entregadores, motoristas de circular, vigias noturnos, frentistas... Quando o assunto é inverno e trabalho noturno, estes e outros profissionais que trabalham à noite são os que mais sentem o frio da estação, que teve início ontem. Como é o inverno nas ruas para os que trabalham durante a madrugada? E para os moradores de rua? Também é nesta época do ano que a solidariedade aumenta (Leia nas próximas páginas). 

 

Em Bauru, segundo dados do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Unesp, o número de dias com chuva durante a estação, climatologicamente, não ultrapassa a média de três por mês. A umidade do ar apresenta grande diferença entre as temperaturas máxima e mínima do dia. 

 

A temperatura máxima em Bauru durante o dia pode, ocasionalmente, alcançar patamares elevados (acima de 30 graus) durante a estação, embora seja considerada a mais fria do ano. Isso ocorre devido ao bloqueio causado por massas de ar quente e entradas das frentes frias na região Sudeste. Ainda segundo informações do IPMet, este bloqueio pode estender-se por vários dias, mantendo as condições do tempo estável com dias ensolarados, sem chuva, baixa umidade do ar, pouca nebulosidade e alta concentração de poluentes.

 

A umidade relativa do ar devido à ausência de chuva registra valores inferiores a 30%. Índices neste patamar conduzem aos estados de atenção, de 20% a 30%; alerta, de 12% a 20%; e emergência, abaixo de 12% (saiba mais no site: www.ipmet.unesp.br/4estacoes/#). 

 

Faça chuva ou faça... frio!

 

Enquanto você está aquecido em casa à espera da pizza quentinha, eles estão nas ruas correndo contra o tempo e enfrentando os ventos gelados das noites de inverno sobre as motos. Esta é a rotina de quem utiliza motos para trabalhar na noite, como os entregadores, e/ou madrugada adentro, como os mototaxistas.   

 

 

José Severino Sobrado Santos é um destes profissionais. Há 13 anos ele corta a cidade transportando passageiros faça chuva ou faça sol e, inclusive, à noite. “Imagine no frio. É o que todos dizem quando eu digo que trabalho à noite como mototaxista. Mas já me acostumei, viu!”, afirma. 

 

Segundo José, que confessa já ter passado muito frio com o trabalho, a experiência faz o trabalhador desenvolver alguns truques para driblar os ventos gelados. No caso dele, usar uma calça de tecido quente por baixo do jeans e uma jaqueta reforçada são alguns dos segredos.

 

“E tem os acessórios obrigatórios no inverno, como as luvas. Mas o meu segredo mesmo é uma capa de chuva que eu uso nos dias mais frios. Ela não deixa entrar nem um ventinho sequer. Fica até quente, se quer saber”, diz, bem humorado.

 

E para espantar gripes e resfriados, o mototaxista, que tem seu posto de trabalho na quadra 24 da rua Aviador Gomes Ribeiro, Jardim Brasil, confessa mais um segredo: “Sempre tomo um leite quente depois de uma corrida gelada. Não fico doente”. 

 

Frentista aposta no exercício físico para ficar aquecido

 

Outo profissional que precisa enfrentar o frio a céu aberto para trabalhar nas noites e madrugadas de inverno é o frentista de postos de combustíveis abertos 24 horas. Fabrício Serramo é um deles. 

 

Ele trabalha em um posto na avenida Rodrigues Alves, no Higienópolis, e tem um hábito incomum para espantar o frio: a prática de atividade física. 

 

“Quando não tem clientes, eu me exercito. Para mim, esta é a melhor maneira de não sentir frio e me manter acordado no trabalho noturno. E como já trabalhei como vigilante, não é qualquer frio que me assusta”, garante. 

 

‘Já passei muito frio de madrugada’

 

Uma das funções que mais “castigam” com as madrugadas frias certamente é a de vigia noturno, principalmente os que precisam fazer a ronda. Este já foi o caso do vigilante Valdir Nunes Pereira, na profissão na há três anos. 

 

“Quando comecei a trabalhar como vigilante, eu fiz ronda noturna. E, nossa, o frio aperta mesmo nas madrugadas. Não dá para descuidar dos agasalhos. O corpo não aguenta e fica doente mesmo. Por isso, nossa jaqueta reforçada sempre nos acompanha, assim como as luvas”. 

 

Hoje, Valdir trabalha em uma das portarias da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP), na Vila Universitária. “Como fico no posto, estou mais protegido do frio. Um bom cafezinho ajuda qualquer vigilante a ficar aquecido e alerta durante toda a noite”, ensina.   

 

‘Não faz frio em Bauru’

 

Enquanto quem trabalha à noite prepara as roupas de inverno, o motorista de circular José Carlos Oliveira diz não sentir frio em Bauru. “Eu vim de Capão Bonito, uma cidade paulista que faz divisa com o Paraná. Lá é muito frio mesmo, então, aqui, para mim está sempre quente ou fresco”. 

 

José ressalta que nestes 25 anos vivendo em Bauru, nunca comprou uma blusa de frio. “Vejo minha família e colegas sofrendo quando a temperatura cai. Acho até engraçado. E olha que minha linha vai até o início da madrugada”, conta. 

 

Onde o inverno é mais intenso 

 

“Nas ruas não há dias onde as dificuldades são menores, moça. Mas no inverno é bem pior, entende. Não há para onde correr e contamos apenas com a ajuda de voluntários, que chamamos de anjos da noite. Eles nos dão colchões, cobertores, roupas e comida”. 

 

O relato acima é de um morador de rua que integra um grupo que ocupa o espaço abaixo do viaduto 23 de Maio, sobre a avenida Nações Unidas, que dá continuidade à Duque de Caxias. Com medo de serem deslocados do lugar e ficar ainda mais ao relento, eles não se deixaram fotografar e só aceitaram dizer algumas palavras, mas sem revelar os seus nomes. 

 

“O que acontece é que a gente sofre preconceitos demais por ser morador de rua, sabe. Ninguém nos ajuda mesmo. Por isso preferimos ficar na nossa. Não gostamos de falar sobre nossa vida”, disse outro. 

 

Todos do grupo, formado por cerca de sete homens e uma mulher, dizem dividir o pouco que têm. Alguns relataram realizar pequenos trabalhos durante o dia, como capinar terrenos para o sustento, principalmente dos vícios. E alegaram estar nas ruas por causa das drogas, bebidas e conflitos familiares. E quando o inverno chega: “A solidão parece acompanhar os ventos gelados”, comentou um terceiro, o tempo todo cabisbaixo.   

 

Solidariedade que aquece o corpo e a alma

 

“Sopão”. Assim foi batizado um grupo formado por jovens ligados ao Instituto Paz e à igreja Vineyard, de Piratininga, que há dois anos atua em Bauru com o intuito de levar alimento e oração aos moradores de rua de Bauru. Atualmente, a equipe é formada por dez membros fixos, porém, o grupo de voluntários chega a dobrar de tamanho. 

 

“São pessoas que doam os alimentos, preparam a sopa e nos ajudam na entrega. O nosso trabalho é fruto do desejo da nossa turma em servir pessoas com necessidades reais. Estamos envolvidos com a campanha Piratininga Contras As Drogas e nada mais natural do que ir ao encontro deste público”, defendo o líder do grupo, Tony Lucas. 

 

De acordo com Tony, o objetivo primordial da ação é demonstrar amor para pessoas que precisam muito. “Ao fazermos para os outros, fazemos para Deus. E não basta só dizer que ama, é necessário fazer alguma coisa por esse amor. Nós amamos através das nossas ações”, explica. 

 

Os voluntários ainda acreditam que tal trabalho ajuda na mudança interior dos próprios integrantes do grupo e revelam que, além da alegria de ser útil, a ação solidária os ajuda a serem mais gratos à própria vida. “Talvez fazer o Sopão faça mais efeito na gente do que nos outros”, avalia Tony. 

 

Mais do que alimento 

 

Nas ruas, o trabalho do Sopão ocorre toda sexta-feira. Tudo tem início com uma reunião às 22h, na igreja Vineyard, em Piratininga, onde o alimento é preparado e os voluntários recebem orientações. 

 

Após uma oração, os jovens vêm para Bauru em carros particulares e, normalmente, dirigem-se para dois ou três pontos fixos: Praça Rui Barbosa, Viaduto da Treze de Maio e Estação Ferroviária, parte da região central também conhecida com “cracolândia”. Mais do que alimentos, o grupo também oferece os ouvidos e o coração: “Sentamos com quem permite a nossa companhia e conversamos. Encorajamos mudanças e oramos por eles”. 

 

A atuação da equipe só termina por volta das 2h30 e, mais do que aquecer o estômago e o coração de quem tem frio e vive nas ruas, pode resultar em esperança e mudança. “Nós ajudamos aqueles que manifestam desejo de sair das ruas, encaminhando-os para casas de recuperação ou, em muitos casos, para a própria casa”.