08 de julho de 2026
Articulistas

A verdade de cada um

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Poucas categorias produzem tão péssimos atores quanto o futebol. Boleiro, definitivamente, não nasceu para a interpretação. Tirando uma ou outra convincente queda de Fred na pequena área, o negócio deles é chutar a bola ? e ponto. Digo, e gol.

Assim sendo, corta-se a cena para Suárez, craque uruguaio. O riso e o choro após marcar dois gols na Inglaterra são verdadeiríssimos. Naquele momento, ninguém finge. Não importa se o esquisito garoto de Liverpool, nascido aqui do lado, ganha milhões: ali, na explosão da rede atingida, é tudo verdade.

Vivemos o dilema de ser contra a Copa e torcer pelo bom futebol. Prefiro pensar assim: nem a Fifa vai tirar o meu prazer de ver um jogão de bola. Não vou ignorar descalabros. Mas, ao apito do juiz (quantos dólares custa cada apito?), tenho o direito de ser isso: parte do público. Sem perder a consciência; com domínio sobre o delírio de torcer.

Os milionários em campo estão, sim, dando tudo de si. Não são atores de quinta. Ali, nas quatro linhas, o rico a correr volta a ser menino de campinho. É a lei do mais forte, do sentimento mais forte. É, pois bem, a verdade de cada lance.

O rústico e, ao mesmo tempo, sofisticado futebol se revela a metáfora da vida dura aqui fora, como alguém já disse. O esforço, a tentativa; o talento, a pancada; o flerte, a verdade; o abismo e a glória. Cabeças privilegiadas da literatura mundial já se renderam aos encantos da modalidade. Quem sou eu, perna de pau das letras, a subverter tal escrita?

A verdade de cada tribunal: apure-se tudo, e que todos os safados dos entornos sejam punidos. Cartão vermelho total. Mas, desculpe: não vou desligar a TV e deixar que roubem também minha satisfação de assistir.

Sinceramente, essa Copa não decidirá eleição nenhuma ? e nem sequer garantirá longa vida aos larápios do poder esportivo. Os tempos são outros. É apenas, no fim das contas, a verdade do esporte: e que vença, sem roubos, o verdadeiro melhor.


O autor é editor executivo do JC