09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Lourenço Magnoni Júnior

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 7 min

Atualmente, parte da sua vida é focada em pesquisas científicas voltadas para o Centro Integrado de Alerta de Desastres Naturais (Ciaden), projeto experimental desenvolvido na Escola Técnica Estadual (Etec) de Cabrália Paulista. “O projeto é fruto de um protocolo de cooperação tecnocientífica entre o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de São José dos Campos, o Centro Paula Souza e a Prefeitura Municipal de Cabrália Paulista. Temos, hoje, o apoio da Coordenadoria Estadual da Defesa Civil e, agora, da Organização das Nações Unidas (ONU)”, destaca o professor Lourenço Magnoni Júnior, personagem da entrevista de hoje.

 

Entre os dias 27 e 29 de maio, Lourenço foi um dos 72 representantes da delegação brasileira em evento da ONU intitulado “Plataforma Regional para a Redução do Risco de Desastres nas Américas” (PR14) , na cidade de Guayaquil, Equador. “Um dos pontos positivos dessa viagem foi o privilégio de ter participado de uma reunião que elaborou e aprovou o comunicado de Guayaquil: a posição do continente americano para a 3ª Conferência Mundial sobre a Redução de Risco de Desastre, que ocorrerá em 2015, no Japão”, acredita.

 

Casado e pai de dois filhos, o professor também fala sobre sua infância e militância na juventude em Ubirajara, cidade com a qual tem forte relação. 

 

Confira estas e outras histórias, a seguir. 

 

Jornal da Cidade - Por que geografia?

Lourenço Magnoni Júnior - Tornei-me professor e geógrafo por questões diretamente ligadas à roça, onde fui criado. Eu nasci em Santa Cruz do Rio Pardo, mas praticamente cresci em Ubirajara, cidade onde ainda vivem meus pais e pela qual tenho um profundo carinho. Bom, eu saí de uma região de solo de terra roxa para uma região de cerrado. E, naquela época, plantávamos melão e melancia, mas o desenvolvimento dessa cultura, em Ubirajara, não foi o ideal, como era no solo de terra roxa. E eu me lembro que o meu pai fez um financiamento junto ao governo federal e um agrônomo foi até as terras. Eu perguntei porquê a melancia e o melão tinham bom desenvolvimento na terra roxa, e no cerrado não. Ele me disse que era por causa do ph do solo. Eu não tinha ideia do que ele estava falando, até que me deu um livro do Delgado de Carvalho, um dos primeiros geógrafos brasileiros, que falava sobre geografia física de solo. Entendi o livro e construí minha identidade. Como sempre gostei de geografia e do campo, fiz o curso.   

 

JC - Como a sua carreira teve início?

Lourenço - Eu estudei em Ourinhos. Formei-me em 1988 e ingressei no magistério em 1989, na antiga Divisão Regional de Ensino de Bauru, quando peguei nove aulas na escola Doutor Anis Dabus, em Avaí, onde lecionei de 1989 até 2000. Depois disso, eu pedi exoneração do Estado e passei a dar aulas somente na Escola Técnica de Cabrália Paulista e, no início da década passada, passei a dar aulas na Faculdade Municipal de Penápolis, atuei por 10 anos lá. E, hoje, trabalho na Etec de Cabrália, na de Bauru e na Fatec de Lins. Tenho mestrado e doutorado pela Unesp de Bauru. Mas vivemos em um mundo onde a dinâmica tecnocientífica exige que você esteja interconectado com essa realidade o tempo todo. É uma constante evolução.   

 

JC - O senhor é responsável por um projeto experimental sobre a redução dos riscos de desastres naturais desenvolvido na Etec de Cabrália Paulista. Fale sobre esse projeto. 

Lourenço - É o Ciaden (Centro Integrado de Alerta de Desastres Naturais). Este é um projeto experimental fruto de um protocolo de cooperação tecnocientífica entre o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de São José dos Campos, o Centro Paula Souza e a Prefeitura Municipal de Cabrália Paulista. Temos, hoje, o apoio da Coordenadoria Estadual da Defesa Civil e da ONU.   

 

JC - Quais são as particularidades do Ciaden?

Lourenço - Os alertas que podem ser emitidos, na nossa região, estão ligados a chuva forte, granizos, vendaval, umidade relativa do ar... Mas a plataforma Terra MA2, desenvolvida pelo Inpe, tem condições de identificar qualquer tipo de desastre natural. O Inpe já está fazendo convênios para implantar a tecnologia na Bolívia, Peru, México... O Estado do Acre já está adotando essa plataforma. 

 

JC - Com o Ciaden, o senhor foi um dos 72 representantes da delegação brasileira em evento da ONU no final de maio, na cidade de Guayaquil, Equador. O que essa oportunidade representou?  

Lourenço - Uma das coisas que eu pude observar foi que, em relação a outros países da América, ainda estamos muito atrasados no desenvolvimento de uma política que realmente seja eficiente para prevenir os desastres naturais. Você não consegue evitar esses desastres, mas pode mitigar os efeitos negativos deles, principalmente no que diz respeito à perda de vidas. No Brasil, temos medidas curativas e não preventivas. Aqui mesmo, em Bauru, podemos dar um exemplo: a avenida Nações Unidas. Então eu acho que o Brasil tem de avançar nisso, tratar estrategicamente a educação. Acho que isso é um passo importante, porque você não consegue construir um projeto de sociedade resiliente se não tiver pessoas com capacidade para pensar e agir.   

 

JC - Quais foram os objetivos deste evento?

Lourenço - O ponto focal foi a valorização e o envolvimento da educação básica e superior na construção de uma sociedade global resiliente que, quando exposta a uma ameaça de desastre natural, esteja preparada para antecipar, resistir, absorver, adaptar-se e recuperar de seus efeitos de maneira oportuna e eficaz, inclusive preservando e reestruturando suas estruturas e funções básicas com um projeto de desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável concreto.

 

JC - Quais são os frutos da participação brasileira neste evento? 

Lourenço - Um dos pontos positivos dessa viagem foi o privilégio de ter participado de uma reunião que elaborou e aprovou o comunicado de Guayaquil: a posição do continente americano para a 3ª Conferência Mundial sobre a Redução de Risco de Desastre, que ocorrerá em 2015, no Japão. Além disso, a ONU está criando, no Brasil, uma rede de pesquisadores para trabalhar com a redução de riscos de desastres naturais. Já faço parte dessa rede e nosso projeto está integrado a ela. São visões multidisciplinares buscando a articulação entre a ciência e a técnica para criar ações eficientes para atuar em qualquer região do Brasil. Nosso projeto foi muito elogiado no Equador. Apesar de ter sido feito em 2011, ele é muito atual e visa desde profissionais a estudantes e leigos. 

 

JC - Por que o seu interesse por essa vertente da geografia?

Lourenço - Aqui, entra novamente a minha criação na roça. Eu acho que  as questões climáticas são decisivas para o homem do campo. Obviamente que ele não tem conhecimento técnico, mas tem experiência de vida. Eu, por exemplo, mesmo que tenha saído do campo há 25 anos, ainda consigo olhar para céu pela manhã e identificar se vai chover naquele dia. Isso não é crendice popular, isso é experiência pessoal.   

 

JC - Por falar em vida no campo, quais são as lembranças da sua infância?

Lourenço - Eu comecei a trabalhar muito cedo. Aos 7 anos já capinava. Hoje, garotos de 14, 15 anos não podem trabalhar. Acho isso uma aberração. O que não pode é prejudicar a evolução dos estudos. Eu acho que essa questão deveria ser repensada. Em Ubirajara, eu me construí como gente. Foi lá que teve início a minha militância política no movimento estudantil. Criamos os primeiros grêmios estudantis da região de Bauru, em meados da década de 1980, depois da suspensão da ditadura. Eu comecei a militar contra a ditadura em Ubirajara. Participei do bom e velho MDB, que liderou a campanha vitoriosa do governador André Franco Montoro, para mim, o melhor que São Paulo já teve.  Hoje eu pertenço ao PCdoB.  Eu saí de Ubirajara em 1990 e nunca imaginei que um dia participaria de uma reunião como delegado da ONU, mas isso é fruto do trabalho de muitos profissionais empenhados e do apoio de várias instituições. O importante é que o Brasil foi bem representado por todos nós. Eu estou me sentindo útil para o País.

 

JC - Com 25 anos de experiência em salas de aula, como o senhor avalia o desenvolvimento da educação? 

Lourenço - Na década de 1980 eu acreditava que, com a abertura democrática, caminharíamos para uma educação que possibilitaria a cultura da participação. Hoje, eu me pergunto onde erramos, porque temos uma educação que caminha contra a construção da cultura de participação, seja na educação básica ou superior. Às vezes, a atual educação é muito mais focada no indivíduo do que no coletivo. Além da qualidade da educação, precisamos resgatar a cultura da participação, da consciência crítica. 

 

JC - O senhor também é editor da revista Ciência Geográfica...

Lourenço - A revista começou em 1994. Com o tempo ela foi crescendo e ganhando espaço. Hoje é uma revista até com artigos internacionais que foca o estudante de geografia e o professor. Editada pela Saraiva, estamos abertos para qualquer corrente de pensamento. Ela pode ser lida no site www.agbb.org.br.