09 de julho de 2026
Geral

Indígena relata paixão pela ferrovia

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Uma vida sofrida, difícil, crescendo de fazenda em fazenda e a paixão pelo “cavalo de ferro” como as locomotivas a lenha eram conhecidas. Assim começa a história desse homem, o líder indígena terena, Tibúrcio Manoel Sobrinho, um apaixonado pela ferrovia brasileira. 

 

Aos 84 anos de idade, extremamente lúcido, ele espera poder contar em um livro que está sendo compilado por um amigo, professor universitário, todas as histórias que o ligam aos trens, à ferrovia brasileira e, claro, a Bauru que foi onde ele ancorou e realizou seu sonho de ser maquinista das “vermelhinhas” como eram chamadas as antigas “Maria Fumaças” da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) e depois Rede Ferroviária Federal (RFFSA).

 

Para contar sua história é preciso saber que o pequeno índio, perdeu o pai aos nove anos de idade e, pequeno, precisava trabalhar para comer  e também ajudar sua mãe e irmãos que eram mais novos. Arrumou trabalho em uma fazenda para cuidar de porcos a troco de comida e assim cresceu, trabalhando de fazenda em fazenda.

 

Sonho antigo

 

É necessário também entender que Tibúrcio era um jovem de coragem e mesmo com pouco conhecimento da cultura dos brancos, ou dos “não índios’ para usar o politicamente correto nos dias de hoje, ele sempre quis buscar melhores condições de sobrevivência. Assim vivia entre a aldeia onde estavam suas raízes e sua gente e entre os brancos onde vislumbrava o trabalho, o ganha-pão e tinha dois grandes sonhos. O primeiro o de ser condutor do chamado “cavalo de ferro” e o outro “ser piloto do pássaro de ferro”, o avião. 

 

Uma curiosidade: quando os indígenas viram um avião sobrevoar pela primeira vez a aldeia, saíram correndo diante do medo daquele “pássaro de ferro”. Menos um indiozinho, este, claro , era Tibúrcio, já queria controlar a tal “ave’.

 

Riscos de vida

 

Das aventuras que Tibúrcio viveu e estarão, se tudo der certo no livro (e claro, as páginas de uma edição inteira de um jornal não seriam suficientes para abrigar todas) Esther faz questão de lembrar que embora estejam bem hoje em dia, a vida não foi fácil. Ela mesma salvou por inúmeras vezes a vida do marido de sofrer acidentes fatais. Tem pelo menos três histórias para contar. “É que na época, década de 50/60 as jornadas do maquinista eram muito longas. Ele chegava preto de tanta fuligem da maria-fumaça e muitas vezes sem poder descansar. Eram dias de viagem. O trecho que levava até a fronteira com a Bolívia, ou mesmo até Corumbá era pesado, longo”. Ela lembra que os trens só tinham hora para sair, no começo, nunca tinham hora certa para chegar tantos eram os percalços. “Até Porto Esperança, por exemplo, na divisa do Brasil eu chegava a levar a composição por mais de 1.200 quilômetros, não era fácil, não”, lembra ele. E embora todos quisessem ser funcionários da Rede Ferroviária Federal, um emprego de status e com grandes benefícios, a maioria queria ficar perto de casa, no administrativo, poucos queriam se aventurar quilômetros afora.

 

“Por três vezes ele trocou de turno com amigos que acabaram morrendo em descarrilamentos, muitos pensaram que era o Tibúrcio que havia morrido”, lembra Esther.

 

Na aldeia, com os filhos, não raras vezes ela era avisada que o marido que acabara de chegar já tinha que voltar para trás para prestar socorro. “Cada acidente, alvoraçava a vila”.

 

Casal Unido

 

Também não dá para separar a sua história da líder  Esther da Silva Sobrinho, sua esposa, que após anos de casada, voltou a estudar e conseguiu um trabalho na  Fundação Nacional do Índio (Funai), onde iniciou sua carreira como auxiliar de ensino e via curso interno, se tornou técnica indigenista,  função onde se aposentou em 1996.  Juntos há mais de 60 anos criaram uma grande família, com cinco filhos biológicos mais um de criação, doze netos e 13 bisnetos. E na casa que hoje habitam no bairro Santa Edwiges não falta um bom cafezinho paulista. Esse casamento por sinal, aconteceu graças ao “cavalo de ferro”, já que eles se conheceram na estação ferroviária aqui de Bauru, onde ela, trilhava também seu caminho no resgate das tradições indígenas, pioneira como mulher e “índia pura” na função de técnico indigenista, da Funai. Além desse pioneirismo, Esther tem o reconhecimento oficial  da Funai de “acordar uma tradição dos índios kaingangs de Santa Catarina, região de Chapecó. Tratava-se da “cerimônia do Kiki, um tipo de ritual para os mortos. Tradição que ficou adormecida entre os indígenas por mais de 20 anos e ela resgatou. 

 

General deu um conselho

 

Uma vez, cacique Tibúrcio foi em busca de trabalho na NOB, deparou-se com um general,  um dos mais importantes dirigentes da ferrovia na época, e pediu ao diretor um “trabalho”. Ao que ouviu: “vou te arrumar um trabalho, sim, índio, mas se tivesse me pedido emprego, jamais”. Essa história ele transmitiu aos netos. Tanto que um deles, o Ricardo Manoel Sobrinho, além de adorar ouvir as histórias dos avós, leva consigo esse mote. “Essa frase deveria ser o carro-chefe de todo ser humano”, diz o neto.

 

Paixão e  ‘mentirinha’

 

Quando era jovenzinho, aos 14 anos, ainda na aldeia em Mato Grosso, na região de Aquidauana, Tibúrcio se deparou com soldados uniformizados a cavalo. Eram os integrantes da 4ª Brigada de Cavalaria Mecanizada, sediada em Dourados, hoje cidade do Mato Grosso do Sul, mas na época o estado ainda não havia sido dividido. Tibúrcio ficou encantado com os soldados, o fardamento militar.  Até hoje ele lembra que era lindo de ver “os homens bem vestidos, bem aprumados sobre o cavalo”. Isso seduziu o jovem que vivia seminu na aldeia brasileira. Encantado com os cavalos, não teve jeito, tempos depois foi  atrás do sonho: se apresentou no quartel, dizendo “quero me alistar”. A fala bem da verdade, não foi bem essa. Ele mal sabia o português, só falava a língua do índio, no caso a língua terena. Mesmo assim se fez entender pelo comandante da corporação. E como sabia que para se alistar no Exército era preciso ter 18 anos completos falou que já havia completado essa idade. Resultado: até hoje em seus documentos , consta como nascido em 14 de abril de 1930, na aldeia de Ipégue, município de Aquidauana (MS).