As estradas brasileiras, incluindo vicinais e de terra na zona rural, matam o equivalente a 450 milhões de animais todos os anos – a maioria, pequenos vertebrados. O dado estarrecedor, apresentado em Bauru durante o 38º Congresso Nacional de Zoológico e Aquários, em maio, foi levantado em trabalho do professor do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Lavras (MG), Alex Bager.
No estudo, o professor apresentou a instalação de rede nacional de monitoramento de mortes de animais por atropelamento através de rede social.
Inédito em todo o País e com aplicativo de fácil manuseio e participação por qualquer cidadão, o Sistema Urubu quer difundir no Brasil a gravidade para a mortandade.
Os dados oficiais sobre mortes de animais atropelados são dispersos, incompletos e inconclusivos. Por essa razão, a ação disseminada por todo o País através da Internet quer que o brasileiro seja fiscal espontâneo do sistema de controle em rodovias. É muito fácil se integrar à rede.
O professor Alex Bager, que participou do congresso em Bauru há 10 dias, conta que o trabalho utilizou 14 artigos científicos publicados no Brasil a respeito de mortes de animais em rodovias. “Com base nestes dados calculamos taxas de atropelamento para pequenos, médios e grandes vertebrados.
Esta taxa foi considerada para rodovias federais de duas pistas. Corrigimos, a taxa para rodovias e estradas estaduais e municipais, de asfalto e terra. E com isso pudemos extrapolar para toda a malha viária brasileira informada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit)”, conta.
Na apresentação, Bager também cruza os dados da projeção brasileira com a malha rodoviária de outros países para o mesmo controle, onde os sistemas de monitoramento estão avançados, ao contrário daqui. “Estes dados mostram que outros países já realizaram estimativas que foram próximas às que realizamos ou maiores”, cita.
Alex Bager adverte que o modelo de concessões rodoviárias no Brasil não leva em conta medidas de controle e combate à morte de animais por atropelamento. “É importante informarmos às pessoas que qualquer dano causado por um atropelamento de fauna selvagem deve ser totalmente ressarcido pela concessionária. Isso vale para danos morais, materiais, perdas de vidas. Se as pessoas começarem a cobrar esses danos, naturalmente as concessionárias ampliarão às medidas de mitigação”, defende.
Para o professor da Universidade Federal de Lavras, todos os licenciamentos ambientais deveriam incluir medidas de mitigação aos impactos ambientais de rodovias. “Atropelamento é só um dos problemas, o mais visível. Precisamos internalizar todos os problemas e buscar resolvê-los”, pondera.
Crescente
Outro indicador preocupante é a relação crescente de mortes por atropelamento, em detrimento a outras causas, para animais da lista de extinção, como a anta no Pantanal e o lobo-guará em nossa região. “Pesquisa realizada pelos programas Anta e Tatu Canastra no Pantanal com monitoramento de 1.000 km de rodovias a cada 15 dias, durante um ano, apenas para espécies de mamíferos de médio e grande porte mostra uma taxa de atropelamento de 0.99 ind./km/dia. Ou seja, cada quilômetro de rodovia mata um grande/médio mamífero a cada dia na região”, menciona. Em nível de espécie, ao ser considerado o tamanduá-bandeira, os dados mostram que deve morrer 1 ind./dia a cada 12 km. “Estes dados não podem ser extrapolados para toda a malha, mas são impressionantes”.
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Luiz Pires/Divulgação |
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Uma onça foi atropelada na quinta-feira, 3 de abril, no quilômetro 328 mais 200 metros da rodovia Marechal Rondon (SP-300), em Agudos (13 quilômetros de Bauru). O acidente aconteceu por volta da 1h30.
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Atropelamento é a maior incidência
O diretor do Zoológico de Bauru, Luiz Pires, chama a atenção para o quadro assustador do número apresentado no trabalho do Centro Brasileiro em Ecologias de Estradas (CBEE), vinculado à Universidade Federal de Lavras (MG).
“Nós temos uma malha viária gigantesca e nas estradas secundárias, que são maioria, a mortandade por atropelamento é muito grande. O dado é assustador. Vamos disseminar a campanha aqui para, agora com o Sistema Urubu, a tenha a dimensão real para esse gravíssimo problema que envolve não só as estradas, mas também os entornos”, salienta.
O estudo leva em conta os animais vertebrados e, portanto, faz a projeção de mortes pela malha rodoviária considerando desde uma rã até uma onça-pintada. O dado assusta ainda mais porque não considera, no estudo, as carcaças que são eliminadas durante o trajeto e nem a ação dos carniceiros, como os urubus.
“Muitos animais não entraram nesse estudo porque as carcaças são atropeladas tantas vezes que não aparecem e o trabalho também não inclui a ação dos carniceiros, que também eliminam muitos exemplares. Então o dado de 1,5 milhão de animais atropelados pela comparação do estudo em nossas rodovias dá uma dimensão do quanto estamos matando animais no Brasil somente pela ação ligada a rodovias”, esclarece.
O trabalho também verificou quanto tempo um animal morto permanece no trecho de rolamento, na pista. “Ele colocou ratos de laboratório mortos ao longo da estrada às seis da manhã e, depois, também às seis da tarde (18h).
A ação mostrou que o animal ficava no máximo duas horas na pista, porque era pego por animais que transformaram a estrada em fonte de alimentação, o que também amplia a preocupação. São carcarás, urubus, gatos e cachorros do mato, que se alimentam desses animais nesses trechos e, por isso, também ficam expostos ao atropelamento nas estradas”, explica Pires.
Pires considera fundamental o uso da rede social do Sistema Urubu como uma das ferramentas para mitigar o problema. O usuário se cadastra gratuitamente na página do projeto malha urubu (basta digitar o nome no sistema de busca pela Internet) e passa a ser o participante espontâneo do projeto. “O cidadão que se deparar com um animal morto na estrada a partir de agora deve parar seu veículo em lugar seguro à margem da rodovia e fotografar e enviar a informação para o site. O cadastramento disponível para celulares do sistema Android e agora também IOS gera o banco de dados no site. Lá todas as informações com local, hora e tipo de animal morto formam o maior sistema de monitoramento e identificação de mortes por atropelamento em estradas no Brasil”, orienta.
Participação
O diretor do zoológico conta que todas as unidades do gênero estão engajadas no projeto. “Em Bauru, além do zoo, estamos chamando a participação da sociedade civil, da Polícia Rodoviária, das concessionárias, dos demais órgãos governamentais, e na cidade inclusive de grupos que pedalam e fazem trilhas diversas, inclusive pela zona rural. A ideia é ter um trabalho e participação ainda mais completos aqui porque no restante do País o monitoramento é em estrada normal e aqui vamos chamar todos para incluir os trechos rurais em nossa participação”, finaliza.
O que é o projeto
Todo cidadão pode participar do projeto, sobretudo interagindo através do site para acompanhar os dados em todo o País. Para isso, basta acessar na Internet o Projeto Sistema Urubu.
A ideia é simples. Você entra no site, faz seu cadastro e participa da conservação da biodiversidade. Com o monitoramento e a exposição da explosão do número de mortes por atropelamento, o serviço quer dar a dimensão do problema e gerar reação pública e social para a redução do quadro.
O sistema quer ser uma rede social de acompanhamento das mortes de animais nas estradas. O sistema foi concebido pelo Centro Brasileiro em Ecologias de Estradas (CBEE), vinculado à Universidade Federal de Lavras (MG).
Serviço
Acesse: https://cbee.ufla.br/portal/ (detalhes e contagem estimada com o “atropelômetro”)