08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

"Mosquitinho"


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Quando criança, tínhamos uma "brincadeira" nada normal, que era mais uma tortura, uma demonstração de coragem, do que um simples passatempo infantil. Consistia em se queimar um palito de fosforo, até virar um carvãozinho. Apagava-se o dito cujo, e em seguida fixava-o em pé no dorso de uma das mãos, esquerda ou direita. Em seguida ateava-se fogo nesse carvãozinho, olhando em êxtase o momento que a brasa chegasse até a pele frágil

Produzindo um ponto agudo de queimadura, extremamente doído. Era preciso esperar até apagar e aguentar a dor. Na plateia, além dos amigos, tinham meninas também, e não se podia esboçar nenhuma expressão de dor ou repulsa, pois a ideia era de demonstração de força e virilidade. Aliás quanto mais gente olhando, melhor. No final, a queimadura produzia uma diminuta mancha vermelha e depois escura. Era o troféu a ser exibido, do famoso "mosquitinho"! Colecionar manchas de "mosquitinho" era nosso objetivo, para impressionar, tornando-nos heróis destemidos sem medo da dor! Hoje, passado tantos anos, vejo os "mosquitinhos" surgirem aos borbotões, em ambos os dorsos de minhas mãos, por conta do anos vividos, sem que eu tenha queimado um carvãozinho de palito sequer! Sinais da idade e do tempo implacável, que não manda recados, apenas cumpre a sua sina.

Eduardo Rodrigues