Conduta não tão frequente quanto em humanos, a transfusão de sangue em cães, muitas vezes, é a única saída para salvar a vida deles. Mas como conseguir doadores em Bauru já que não existe um banco de sangue? Muitos médicos veterinários não possuem estocagem para os pacientes e chegam a recorrer aos animais de estimação dos próprios clientes em busca de uma boa ação.
Este é o caso de Juliano Caçador, proprietário de uma clínica da área. “Quando eu preciso, tenho alguns doadores cadastrados cujos proprietários recebem cortesias em troca, como descontos em consultas, por exemplo”, explica. Caçador acrescenta ainda que o município tem demanda para abrigar um estabelecimento dessa categoria.
Otávio Volpato, também veterinário, concorda. “Implantar um banco de sangue custa caro, mas Bauru tem público para recebê-lo”, reitera. Ele conta que, certa vez, perdeu um cão porque não conseguiu contatar o proprietário de um doador a tempo. “No caso de cães de grande porte, é ainda mais difícil conseguir doadores porque, normalmente, eles precisam de duas bolsas de sangue, que só podem ser disponibilizadas por um doador acima de 80 quilos”, relata.
O especialista explica que transfusão de sangue em cães não é tão simples quanto em humanos porque os animais possuem, pelo menos, oito tipos sanguíneos. Ele pontua que o procedimento é necessário em casos de doenças que provocam anemia, que atacam a medula óssea ou, até mesmo, quando há acidentes que causam traumas, como atropelamentos.
Os interessados em ajudar a salvar vidas de outros cães podem procurar qualquer clínica veterinária e fazer um cadastro dos respectivos animais. Volpato orienta que, se constatado que eles têm acima de 30 quilos e a saúde intacta, os cães são cadastrados como doadores e, quando houver necessidade, são acionados.
Gatos
Menos comum ainda do que transfusão de sangue em cães é o procedimento realizado nos gatos. De acordo com Érika Visacre, médica veterinária do Hospital Veterinário da Unip de Bauru, os bichanos também têm diversos tipos de sangue, mas a demanda é menor. “A coleta de sangue em gatos é feita com uma seringa. Na maioria dos casos, são utilizados apenas 20 mililitros.” Diante disso, Érika acrescenta que um banco de sangue para gatos não seria necessário.
Mocotó sobreviveu graças a uma doação de sangue
O cão Mocotó tem uma história e tanto de superação. Ele foi resgatado das ruas há seis anos por Eliane Calixto, sua atual proprietária. Ela relata que tinha visto o animal bastante debilitado e amarrado junto a uma Kombi. “Disseram que chamariam a carrocinha e, na hora, eu liguei para o meu marido ir buscá-lo”, narra Eliane, que não tem filhos, mas preencheu o coração com Mocotó e mais dez cães, todos resgatados das ruas.
Não bastando o abandono, Mocotó foi diagnosticado com doença renal crônica (DRC), condição que o impede de produzir sangue. De acordo com Otávio Volpato, médico veterinário do cão, ele recebeu alguns medicamentos, mas foi tudo em vão. Sem uma transfusão, Mocotó não sobreviveria.
Diante disso, após uma campanha nas redes sociais, Eliane conseguiu um doador para o cão, que hoje passa bem. “Deus não quis que eu tivesse filhos e Mocotó é como um para mim”, finaliza a proprietária.
Jade
Enquanto uns precisam de sangue, outros têm de sobra. Este é o caso da dogo argentino Jade, que foi comprada por Joyce Galvão há sete anos. Segundo a proprietária, a aparência é de um pitbull gigante, e chega a causar espanto.
Contudo, o grande porte e o comportamento dócil a tornam uma potencial doadora. “Ela já salvou a vida de outros quatro cães e espero que o faça mais vezes. Se a gente pode ajudar, não tem mal algum”, conta Joyce, que também possui três gatos e outros dois cães.
Demanda para ‘banco’ existe, mas não é constante
O Hospital Veterinário da Unip atende, em média, 30 animais por dia. Para a médica veterinária da instituição, Érika Visacre, pelo menos três deles precisam de transfusão sanguínea por mês, mas essa estatística não é constante. “Mesmo assim, se fosse para ter um banco único no município, definitivamente haveria demanda”, pontua a especialista.
Érika explica que, quando os cães precisam de transfusão, o procedimento adotado não foge daquele utilizado pela maioria dos médicos veterinários. “Primeiro, perguntamos aos proprietários se conhecem alguém que tenha um cão que se encaixe no perfil de um doador. Se eles não conhecem, apelamos para os próprios alunos da universidade.”
A maioria dos profissionais da área prefere utilizar sangue fresco nas transfusões, ou seja, tem de ser retirado do doador quando o receptor estiver pronto para recebê-lo. “Se não houver tempo para tanto, um banco de sangue salvaria muitas vidas. O ideal é que os veterinários tivessem doadores cadastrados e acesso a um banco de sangue único, em casos de emergência.”
Poder público
Sobre a existência de uma demanda de banco de sangue para cães no município, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) afirmou que o foco do município está nas ações de posse responsável e castração de cães e gatos. Por isso, não aponta prazos para o serviço.
Porém, Rodrigo não descarta a possibilidade de que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) venha a investir na construção de um hospital veterinário público, inclusive, com banco de sangue, assim que estruturar um departamento específico. “Contudo, essa ação seria em longo prazo, mas acredito que o serviço seja importante”, defende o prefeito.
No zoológico
Luiz Pires, diretor do Parque Zoológico Municipal de Bauru, explica que a instituição não abriga muitos animais da mesma espécie, fato que torna desnecessário um banco de sangue específico para eles. “Nós temos 227 espécies, mas são apenas dois ou três animais da mesma categoria. Diante disso, não há necessidade de um banco de sangue específico para o Zoológico. Inclusive, desconheço que haja um estabelecimento desse tipo para animais selvagens no País”, conclui Pires.