08 de julho de 2026
Geral

Ele é um colecionador de... tudo!


| Tempo de leitura: 4 min

O portão automático se abre e surgem aos olhos carros antigos, toca-fitas e telefones que funcionam a manivela. No mundo digital e do “touch”, estes objetos parecem dignos de museu. Porém, estão no barracão aos fundos da casa do colecionador Sérgio Antunes de Oliveira, 

 

“Tem uns irmãos meus que acham que sou louco. Eles dizem: ‘Sérgio, compra coisa nova, pra que ficar comprando coisa velha?’. Mas, fazer o quê se eu gosto de coisa velha?”, brinca Sérgio, que é colecionador desde os 7 anos. 

 

O que coleciona? Segundo ele, de tudo. Em seu barracão, encontramos seus primeiros lápis e canetas. “Nunca usei uma caneta que ganhei. Ainda estão guardadas nos estojinhos”, diz ele, mostrando uma variedade de modelos de canetas tanto mais sofisticadas quanto aquelas de propaganda que se ganha como brinde em alguns estabelecimentos. 

 

No barracão, comprado há 10 anos com a intenção de abrir um museu, encontramos como itens principais os carros. Eles merecem um adendo: Sérgio sempre se relacionou com carros, pois trabalhou em retífica de motores e em uma tradicional fábrica de baterias.

 

“Ford Road Star de 1928”. Segundo Sérgio, com 98% de originalidade, é o seu favorito. Intocável pelos filhos e amigos. Mas tem muito mais: Ford Farlane, de 1963; Ford-F1, de 1960; e uma Kombi de 1970, comprada por R$ 4 mil e, hoje, avaliada por dez vezes mais. 

 

Caixa de fósforo

 

Sérgio desafia: “Ninguém tem mais troféus de eventos de carros antigos do que eu”. Além dos carros, realmente parece haver de tudo. A cada gaveta puxada ou porta aberta: bingas (foi preciso procurar no dicionário para descobrir que se trata de um isqueiro rudimentar), celulares, telefones, máquinas fotográficas, flâmulas, caixinhas de fósforo, LP’s, entre muito outros. Sérgio diz que apenas investiu dinheiro com os carros, pois todo resto, “exceto uma coisa ou outra de interesse”, sempre ganha. “Os meus amigos e familiares sabem que eu tenho prazer em guardar tantos itens antigos”. 

 

Há itens interessantes em meio à coleção, como variados chapéus e capacetes. Entre eles, um capacete utilizado na Revolução Paulista de 1932, que veio ainda acompanhado de uma medalha de condecoração. 

 

Estes dois itens foram ofertados por um catador de material reciclável que, por sua vez, os encontrou numa caçamba. “Ele me disse: ‘interessa pro senhor?’. Peguei e dei R$ 100,00 para ele”, relata Sérgio. 

 

1970? Muito novo...

 

O colecionador se desfez apenas de um item da coleção até hoje: uma moto CG de 1970, pois, para ele, este item era muito moderno e quem comprou usou para decorar a sala da casa.

Quando perguntado se utiliza também itens antigos como decoração, ele responde que “até tenta”, porém, a mulher, dona Letícia Aparecida de Oliveira - com quem é casado há 35 anos -, apesar de apoiá-lo, “não deixa não”. 

 

Sobre isso ele relata que, certa vez, mandou fazer uma estante para pôr em casa alguns objetos, contudo, a mulher não permitiu. “Também nunca mais comprei um presente pra ela, me vinguei” conta, aos risos. 

 

Fordinho amado

 

Um dos itens mais difíceis de adquirir foi o Fordinho (Road Star). Sérgio passou muito tempo procurando o modelo, porém, por não encontrá-lo, contentou-se com um modelo da mesma época, o Road Star. 

 

Esposa do colecionador, Letícia de Oliveira não apoiou a ideia, pois já haviam gastado muito dinheiro com o primeiro. “Eu fui e comprei. Ficou escondido por um ano. Parecia uma amante”, relata Sérgio, rindo. 

 

Não tardou para sua mulher descobrir quando, em um Natal, um patrão do colecionador pediu pra usar o Fordinho para carregar os presentes. “Este Natal, ela foi passar sozinha com a mãe dela”. 

 

Depois do ocorrido, Sérgio, além de levar o carro pra casa, por falta de espaço na garagem, deixou o carro da mulher na rua e ele foi roubado. “Aí foi uma briga, rapaz”, finaliza, mostrando que também colecionar bom humor. 

 

Museu próprio

 

Quanto ao sonho de abrir o próprio museu, Sérgio Antunes de Oliveira não carrega muito otimismo. “Queria abrir para a população, para as escolas virem visitar. Era meu sonho, mas já não sei mais”. 

 

Sua vontade diminuiu desde que foi multado pela prefeitura ao podar uma árvore com a intenção de liberar a entrada de onde seria o local. Além disso, Sérgio aguarda pela promessa de alguém que possa ajudá-lo. 

 

Quanto à família, ele tem medo de que joguem tudo na caçamba após seu falecimento. Porém, a esperança é o filho mais velho, que parece seguir os passos do pai: “A Kombi de 1970 é dele e eu estou ajudando a restaurar”. 

 

Enquanto não abre o museu, o barracão é lugar de tomar uma cervejinha com os amigos resfriada numa geladeira antiga, é claro.

 

“Eu lembro do meu tempo de moço, você volta lá atrás. E isso vai ficar até eu morrer. As coisas duram mais que eu”.