10 de julho de 2026
Regional

Pistas de skate multiplicam na região de Bauru

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

O skate é uma prancha com quatro pequenas rodas e dois eixos sobre o qual se desliza sobre o solo. É um desporto inventado na Califórnia, nos Estados Unidos. É considerado um esporte radical, dado seu aspecto criativo. Durante muito tempo foi conhecido como “surfe no asfalto”. Atualmente, o “esqueitismo” está sendo usado em projeto sociais que visam a prática desportiva acoplada à disciplina. 

 

Igor Medeiros/Divulgação

Pista de skate em Botucatu, cidade que já construiu nove pistas principalmente em bairros

 

Na cidade de Agudos (13 quilômetros de Bauru), a pista de skate está sendo usada por 55 alunos que recebem instruções de como agir sobre a prancha de rodinhas. Para participar, eles têm que estudar e manter notas boas. O município fornece os equipamentos para o treino. Um dos alunos do projeto confessa que melhorou seu desempenho na escola para não ter que deixar o projeto. 

 

Na cidade de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) são nove pistas de skate já instaladas e uma, fruto de uma emenda parlamentar, que será construída em breve em um bairro periférico. Segundo a Secretaria Municipal de Esporte, é cada vez maior o número de jovens que praticam o “esqueitismo”, por isso, a cada nova praça é construída uma nova pista. A ajuda do Poder Público vai além de construir as pistas. Nas competições, a Secretaria fornece as premiações. 

 

Em Barra Bonita (68 quilômetros de Bauru), as duas pistas de skate estão na orla turística e são utilizadas também para circuitos. Já foi palco do circuito estadual. O proprietário de uma loja especializada ‘adota’ seis atletas, mantendo seus equipamentos sempre em ordem. É ele quem promove os circuitos na cidade reunindo praticantes de toda a região.

 

Em São Manuel (69 quilômetros de Bauru), a pista de skate agrega 30 praticantes que andam e aprendem manobras com um instrutor. As aulas são em um clube da cidade. O comportamento e as notas das disciplinas escolares são acompanhadas pelo instrutor que não mede esforços para que o esqueitista tenha disciplina. Caso o participante brigue na rua ou apresente qualquer problema de comportamento, os pais são chamados e nos casos mais graves, ele é ‘convidado’ a deixar o projeto.

 

‘Esqueitismo’ ajuda integrar jovens 

 

Agudos (13 quilômetros de Bauru) é uma das cidades da região que tem pista de skate e que transformou o esporte em mola propulsora para integrar os adolescentes e livrá-los da violência urbana e das drogas. A pista foi construída em um dos bairros mais carentes da cidade, a Vila Vienense. 

 

“A ideia principal é a partir do esporte dar um incentivo para essas crianças que poderiam estar na rua. É sempre levar uma palavra boa para evitar que eles tenham contato com as drogas, violência e outras coisas da rua. Um dos requisitos para participar do projeto é estar estudando”, avisa o instrutor Diego Bernardo. 

O projeto que teve início há quatro meses surpreendeu até o idealizador pelo número de participantes. “Eu pensei que fosse ter uns 10 inscritos, mas 55 se inscreveram e isso mudou toda a minha estratégia. Estou estudando uma forma de como vou controlar as notas escolares deles.

 

A ideia de integrar os jovens do bairro Vienense com os skatistas nasceu naturalmente, segundo Bernardo. “Eu sou skatista e aprendi na rua, queria ajudar os jovens e pensei em usar a pista de skate para isso. Com o grande número de inscritos, estou precisando de voluntários. As aulas são na segunda, quarta e quintas-feiras das 20h às 21h. Participam adolescentes de 10 a 15 anos.”

 

A prefeitura da cidade coopera com os equipamentos. “Eles adquiriram 10 skates, 10 joelheiras e 10 capacetes que são utilizados nos treinos. A pista fica próximo do ginásio de esportes.” 

 

Skate faz a diferença

 

O ‘esqueitismo’ mudou a vida do adolescente Leandro Moreira da Silva Jr., de 15 anos. “Eu ia mal na escola e me alimentava de forma errada. Estou participando do projeto e assim que chego da escola vou para a pista praticar. Lá recebo orientações importantes, além do esporte.” 

 

Dentre as orientações, o adolescente destaca que aprendeu a alongar os músculos antes da prática. “Comer mais frutas, ter uma alimentação mais saudável. Fiz novas amizades e estou fortalecendo os músculos.”  Na escola, ele confessa que melhorou de comportamento. A adolescente Poliana da Silva Antunes, 15 anos, é uma das poucas do sexo feminino que pratica o ‘esqueitismo’. “Faz 4 anos que ando de skate, mas de um ano para cá me dediquei mais.”

 

Pista de BB foi palco de circuito estadual

 

A Estância de Barra Bonita (68 quilômetros de Bauru) possui duas pistas de skate localizadas na orla turística mais precisamente na Praça da Juventude há mais de 10 anos. O local é bem utilizado e já foi palco de grandes eventos como o Circuito de Skate do Estado de São Paulo. Agrega um projeto social que permite que adolescentes com menor poder aquisitivo deixem as ruas e adotem o ‘esqueitismo’ como prática. 

 

“São seis atletas que eu nunca deixo o material deles esgotar. Para continuar praticando esqueitismo com a nossa cooperação, eles precisam apresentar o boletim escolar. É a minha contribuição para que as coisas melhorem na vida dessas pessoas. Ou seja, que eles entendam que nada é de graça, não é só dar, tem que saber pescar. A pista é pública, todos aqueles que querem usar podem, mas no projeto tem seis”, explica o instrutor Paulo Sérgio Euzébio, conhecido por rato. 

 

De acordo com o instrutor, alguns dos participantes do projeto vão fazer demonstrações em escolas. O esqueitismo não é simplesmente uma modalidade de esporte. “É um estilo de vida. Tem muitos que andam só para curtir, uma galera mais jovem”, enfatiza Euzébio. 

 

Botucatu constrói uma pista em cada praça 

 

Na cidade de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) há nove pistas de skate e uma no ‘forno’ para ser instalada. O esporte que a cada dia ganha mais adeptos é uma prática que ultrapassa as pistas, segundo o secretário municipal de Esporte, professor Antônio Carlos Pereira.

 

“Os skatistas usam não só a pista de skate mas qualquer outra estrutura que tenha pela frente. É degrau de escada, ferro, as pistas de skates são para canalizar a demanda, para que eles possam estar dentro do contexto. Temos aproximadamente nove em vários bairros periféricos.”

 

O professor explica que as pistas de skate são públicas e usadas pelo público jovem. “O município constrói as pistas e ajuda em eventos, competições. Não temos um projeto social específico. “Na verdade não podemos mais afirmar que é a população mais carente que pratica skate. Tem uma diversificação muito grande, em todas as faixas sociais. A juventude anda de skate em praça pública, é um espaço democrático. É óbvio que tem uma gama maior de pessoas que tem um nível de renda mais baixo. Em todas as classes sociais há jovens usando o skate para a prática de atividade física.”  

 

Ele explica que a comunidade pede a prefeitura que construa as pistas. “Construímos em bairros periféricos por demanda da própria comunidade. Toda praça pública que construímos dotamos de equipamentos de academia ao ar livre e uma pista de skate. A demanda é grande. Se em um determinado bairro há mais de uma praça podemos instalar mais de uma pista, porque muitos jovens migram de um bairro para outro para praticar o ‘esqueitismo’. Ganhamos uma pista de skate de uma emenda parlamentar. Estamos definindo o bairro que será agraciado.” 

 

O secretário diz que os praticantes são em sua maioria do sexo masculino. “Raro ver moças praticando skate”, conta.

 

São Manuel tem projeto social na pista de skate 

 

São Manuel (69 quilômetros de Bauru) construiu a pista de skate no bairro Cohab II, que abriga moradores das classes sociais baixa e média. O projeto que abriga aproximadamente 30 crianças exige disciplina no esporte e na escola. Willian Ricardo Limeira Gomes de Oliveira comanda um dos projetos que usam a pista de skate como mote para retirar as crianças da rua e por consequência, deixá-los longe da violência urbana e das drogas. 

 

“Eu tenho alguns voluntários que me ajudam nas aulas. São jovens skatistas que cooperam porque as crianças dão muito trabalho e não dá tempo de ver tudo. Grande parte deles não tem skate. Eu tenho uma loja especializada nesse esporte e vou montando skates para aqueles que não têm.”

 

Segundo o instrutor, quando um skatista de poder aquisitivo maior troca uma peça do equipamento, ele pede em doação o material substituído. “Não tenho condições de fornecer todos os equipamentos novos. Vou pegando uma peça aqui e outra ali e monto um usado em bom estado para atender a demanda.” 

 

A pista na Cohab II não dá acesso fácil a todos os moradores. Por conta disso, as aulas são no Tênis Clube. “No tênis não tem pista então as aulas são na quadra. A pista da Cohab II é muito longe. Há pais que não deixam os filhos irem. No clube nós atendemos o pessoal que mora na área central e na Cohab.” 

 

Na opinião de Oliveira, depois que o projeto começou, o número de crianças na rua diminuiu bastante. “ As crianças que ficavam na rua estão participando do projeto e não ficam mais na rua aprontando.” 

 

Para participar do projeto, a criança faz a carteirinha do clube e paga R$ 3,00. “A partir do momento que entrou no projeto tem a carteirinha. Assim que começa a participar a disciplina muda. Se eu ficar sabendo que brigou ou que tirou nota baixa eu chamo os pais. Tenho uma conversa com eles. Se não resolver, a criança é cortada do projeto. Porque uma batata podre contamina todas as demais.” 

 

O instrutor Willian Oliveira se intitula uma pessoa fissurada em skate. “Eu também brincava na rua. Meu primeiro skate eu ganhei com 8 anos e hoje tenho 26. Sempre gostei de esporte radical. Comecei a andar de skat porque tinha os mais velhos que andavam na rua, sempre morei na Cohab II. Teve uma época que dei uma parada, foquei em outra coisa.” 

 

Ele conta que trabalhou em Botucatu, mas não era tão feliz como no momento que tem uma loja especializada em skate. “Tenho uma oficina de skate e vendo os equipamentos necessários para a prática desse esporte.”