09 de julho de 2026
Articulistas

Paralá-tchibum-bum-bum

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Nos meus tempos de menino, no campinho perto de casa, a expressão "comeu a bola" coroava aqueles que se sobressaíam nas peladas. A gente não tinha Felipão nem Felipinho, mas sabia que chutar para frente era uma maneira de se livrar da responsabilidade. De repente, acontece alguma coisa lá perto da área. A Seleção Brasileira ganhou na decisão por pênaltis, e é o que interessa. Todo esporte exige superação. Só os muito bons conseguem controlar a emoção sem deixar contaminar pelos gritos dos torcedores e os olhares globais. Erros do juiz, chuva, pressão, a bola que bateu na trave, o pênalti que o juiz não deu, o azar, a sorte do adversário são eventos que têm que ser superados.

Cada Copa do Mundo tem seu destaque histórico. O jogador uruguaio Luís Suárez é um craque reconhecido, mas preferiu "comer o adversário" em vez da bola. Nas lutas tribais os guerreiros comiam a carne dos inimigos para ganhar forças necessárias à sobrevivência. Psicólogos do mundo inteiro procuraram analisar o ato do jogador uruguaio. Ele teria sido levado por um "impulso primitivo", movido pela pressão de um jogo importante para ele e o seu país. Quem sabe esta seja conhecida como a "Copa da Mordida". O Brasil gastou 36 bilhões de reais com os estádios e a Fifa vai morder, de lucros, pelo menos três vezes mais do que nos últimos campeonatos no Japão-Coreia, na Alemanha e na África do Sul. Coisa de 15 bilhões, graças à isenção de impostos. A Fifa sempre pagou impostos, menos aqui.

O fetiche do uruguaio valeu-lhe a pena de quatro meses de banimento dos jogos oficiais da Fifa, além de multa. A cotovelada que pode fraturar o nariz ou o malar do oponente é punida com penas mais brandas. Para quem gosta de estatísticas, esta Copa bateu todos os recordes de mensagens nas redes sociais: 141 milhões de pessoas já postaram 459 milhões de comentários e curtições. O "beijinho canibal" continua rendendo.

Assim se escreve a história de cada Copa do Mundo. Na de 1958, na Suécia, Garrincha "comeu" uma loirinha escandinava que resultou num hoje homem feito que é a sua cara. Nos dribles não deixou herdeiros. Foi o ano em que Pelé desabrochou como gênio, depois de inventar o chapéu desmoralizante no adversário e marcar um gol reexibido à exaustão. Em 1986, no Estádio Azteca, ficou célebre o gol com La Mano de Dios, de Maradona, num jogo contra a Inglaterra. Nesse mesmo dia ele marcou outro gol depois de driblar seis adversários e eliminou os ingleses. Os argentinos foram campeões depois dessa que foi uma das partidas mais memoráveis da história do futebol. No jogo final contra a Alemanha eu e meu amigo Marco Brisolla estávamos em Vaduz, capital do Lichtenstein. Assistimos pela televisão do hotel, no meio dos hóspedes germânicos. Brisolinha, irônico incorrigível, a certa altura me perguntou: "Conhece alguém em Bauru que já assistiu a final de uma Copa em Lichteinstein?" Não pude segurar o riso e ganhei um uníssono "psiu" da assistência. Em entrevista à TV Sesc, perguntaram sobre a "Minha Copa Inesquecível". Sou um sobrevivente da tragédia de 1950. Em vez da tristeza pela derrota contra o Uruguai na partida final, guardei um momento de muita alegria. Tinha dez anos. Levado pelas mãos do meu pai fanático por futebol, assisti ao jogo do Brasil contra a Espanha. Levamos três dias de viagem de Marília ao Rio e Janeiro. Ingressos comprados por telegrama, com a interveniência de um compadre carioca. Impressionante o cenário: Maracanã, maior estádio do mundo, também inacabado, com vergalhões à mostra e muitos tapumes. O Brasil "comeu a bola": 6 a 1 na "Fúria". Dois gols de Chico, dois de Ademir Menezes, um de Zizinho e outro de Jair da Rosa Pinto, dono de um chute potente. O que ficou retido na minha retina de criança foi o espetáculo proporcionado pelos torcedores. Eram 153 mil pessoas. Consolidada a vitória começaram a cantar a marchinha carnavalesca do Braguinha, "Touradas em Madri". Ao mesmo tempo a multidão acenava lenços brancos e enchia o peito: "Eu fui a touradas em Madri, paralá-tchibum-bum-bum". Imagine o maior coral do mundo, no maior estádio. O som ecoava assustador no anel superior onde estava. Trinta anos depois, voltei ao Maracanã e o estádio ainda estava inconcluso. Achei até que não era tão grande assim. O que parecia gigantesco para uma criança, para o adulto tinha dimensões mais reduzidas. A final da Copa contra o Uruguai, ouvimos pelo rádio "capelinha", em casa. Foi a única vez que vi meu pai chorar.

O autor é jornalista e articulista do JC