09 de julho de 2026
Articulistas

A globalização e as "zebras" na Copa

Julio Wilson dos Santos
| Tempo de leitura: 4 min

A maioria das pessoas deve ter estranhando a classificação de países pequenos e com pouca tradição no futebol chegarem às oitavas de finais da Copa de 2014 e, por outro lado, países de tradição, onde os campeonatos são competitivos e com muito recurso financeiro, caírem logo na primeira fase da competição. Mas o que aconteceu? Os Deuses do futebol ficaram loucos? Ou o futebol é mesmo uma caixinha de surpresa? Acredito que não. Esta surpresa observada na Copa pode ser um acaso, mas eu vejo uma luz no fundo do gol que pode ajudar a explicar. Das dezesseis equipes que avançaram na competição, quais foram surpresa? Estados Unidos, Grécia, Costa Rica, Argélia, Nigéria, Suíça e, talvez, algumas pessoas ainda acrescentariam a Colômbia e a Bélgica.

Considerando as "zebras", poucos jogadores atuam em seus países: Argélia (1), Bélgica, Nigéria e Colômbia (3), Suíça (7); Estados Unidos, Grécia e Costa Rica (9). Até mesmo na Europa isso ocorre com os países de maior tradição, exceção à Alemanha (16) e Holanda (10), com jogadores atuando em casa. No caso do Brasil, temos quatro jogadores em clubes nacionais, sendo apenas um deles "titular" ? Fred. Se considerarmos apenas os jogadores titulares das equipes que estão na Copa, o número de jogadores que atuam em seu país cai sensivelmente.

Tomando como base os campeonatos nacionais e as Copas Européias, por terem o maior número de jogadores estrangeiros e de melhor qualidade, as competições são muito equilibradas e até poderíamos considerar que na Europa há um campeonato apenas. É a zona do Euro do futebol, com um tempero especial, acrescido de jogadores sul-americanos, principalmente. A globalização concretizou-se no futebol. Certamente, com início na década de 90, hoje, ela é fato e, talvez por isso, algumas seleções surpreenderam as previsões nesta Copa.

Exportar jogadores não é mais um privilégio do Brasil. É claro que exportamos mais e com melhor qualidade. O sistema econômico vigente no futebol transformou a realidade dos campeonatos, clubes e seleções. A globalização ajudou até a nós, brasileiros. Se, infelizmente, não vemos nossos craques jogando por aqui, felizmente, nossos jogadores foram ensinar e "aprender" a competir contra àqueles que hoje são seus adversários na Copa. Os jogadores se conhecem e podemos até considerar que há um certo nivelamento entre vários jogadores em função disto. Claro que os "favoritos" Alemanha, Argentina, Brasil, Holanda têm seus craques de nível "A" e as outras seleções craques de nível "B", que podem surpreender e desequilibrar.

Mas não é somente o nível dos jogadores que determinam a vitória, precisamos olhar também para outro aspecto que pode decidir os jogos: a organização dos jogadores dentro de campo. O sistema de jogo pode ser um fator determinante, além do preparo físico, psicológico e outros fatores externos. Os jogadores precisam estar organizados dentro de campo. O sistema tático e a estratégia de jogo também se globalizaram, por exemplo, as duas linhas de 4 utilizadas por muitas equipes e seleções.

Desde a origem do futebol, os sistemas evoluíram (Piramidal, WM, ferrolho, 4-2-4, 4-3-3, 4-4-2, 3-5-2), mas somente eram conhecidos plenamente nas copas, devido à menor interatividade entre os países e carência de transmissão dos jogos ao vivo pela TV. A partir da Copa de 70, a transmissão da Copa ao vivo começou a mudar esta história. Se até a década de 70/80 existia uma concepção de que o sistema tático não podia ser alterado durante o jogo, hoje temos jogadores e treinadores capazes de fazer isto durante uma partida.

Como já ouvi de vários treinadores, "hoje não tem mais jogador bobo no futebol", nem tão pouco treinador. Aliás, outra boa pergunta, que envolve o nível técnico e a formação dos jogadores, assim com a preparação e organização das equipes, seria: qual é a formação dos nossos treinadores? Afinal, são eles que decidem qual sistema de jogo será adotado e quem vai ser escalado. Lá fora, existe escola de treinadores e por aqui parece que se aprende na prática, empiricamente, e muitas vezes com improviso. Mas este assunto fica para outro dia. Neste contexto globalizado do futebol, não nos surpreendamos com as "zebras" da Copa, podem ser zebra para alguns e uma realidade para outros. Se bem que ser campeão já é outra história. Aguardemos.

O autor é professor, doutor e ex-preparador físico de futebol e professor de futebol do curso de Educação Física da Unesp Bauru.