08 de julho de 2026
Geral

Grande aventura chamada Copa

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

Éder Azevedo

Peruanos David (à esquerda) e Paul dividem histórias com os chilenos Cristian, Jeam e Dani

O que você faria para estar no maior evento de futebol? Para alguns, vale tudo. Até mesmo se aventurar entre rodovias e fronteiras, contando apenas com a sorte. É o caso de três chilenos e dois peruanos que desembarcaram ontem em Bauru. Nossos vizinhos estrangeiros tentam, há quase um mês, chegar a São Paulo para um único propósito: fazer parte da história da Copa do Mundo 2014.

Agora, são apenas 340 quilômetros que separam o sonho da realidade. Em Bauru, o quinteto aventureiro contou com a ajuda do Albergue Noturno, que os acolheu e ainda garantiu os custos da viagem deles até Botucatu.

“Já foi feito contato com a equipe de lá (Botucatu). Eles serão acolhidos novamente e a entidade vai tentar enviá-los o mais próximo possível de São Paulo. Ou, quem sabe, conseguem bancar toda a viagem”, explica a assistente social do albergue, Andreza Stevanin.

Agora, o peruano Paul Aurelio Oviedo Ramirez, comerciante de 31 anos, trava uma luta contra o tempo. Ele tem até o meio-dia de hoje para chegar ao destino e encontrar com a irmã, que o aguarda para ampará-lo na volta pra casa. Depois desse prazo, ela já retorna ao Peru. Ele ainda tem fé de, após a parada na Capital, chegar ao Rio de Janeiro para acompanhar a festa da final da Copa, nem que seja aos arredores do Maracanã.

Trajeto

Ramirez e o amigo David Moron Meneses, 28 anos, advogado, chegaram ao Brasil no dia 6 de junho. De férias, os dois saíram de  Lima, no Peru, para uma viagem turística.  Entre os planos, estava assistir à abertura da Copa em São Paulo, mas um assalto em Corumbá (MS) mudou tudo. Mesmo sem dinheiro, decidiram viver a maior aventura de suas vidas, como os próprios protagonistas definem.

“Andamos três dias em meio ao Pantanal. Foram cinco quilômetros de caminhada, bebendo água do rio, fugindo de serpentes e outros animais perigosos. Mas foi uma experiência incrível. Apreciei a natureza e me adaptei à vida silvestre”, contou Meneses.

O assalto que eles sofreram foi determinante para a verdadeira “saga”. Os dois contaram que foram abordados por uma dupla armada de revólver. Meneses perdeu US$ 700, enquanto o amigo, US$ 400. Praticamente zerados, passaram a pedir carona nas estradas, além de contar com a boa vontade dos brasileiros. “O povo aqui é muito bom. País abençoado”, disse Ramirez.

Depois do roubo, iniciaram uma verdadeira peregrinação (veja quadro acima) até chegarem a Bauru ontem. Nesse tempo, o único contato com a família era por redes sociais. “Conseguimos acalmá-los e dizer que estamos bem. Agora, é chegar em São Paulo, onde vamos pegar dinheiro, e quem sabe ainda ver um jogo da Copa, antes de seguir ao Rio de Janeiro, nosso último destino. Lá, queremos acompanhar a festa da final bem de perto”, finaliza Meneses.


Com apenas US$ 20,00 no bolso, chileno conseguiu chegar ao Brasil

Enquanto os peruanos viveram uma aventura não programada, o chileno Jeam Marcelo Carrasco Cantillano, 20 anos, já havia decidido contar com a sorte para chegar ao Brasil. Estudante, com apenas US$ 20,00 no bolso e 500 adesivos da Copa para vender, Cantillano provou que é possível concluir a meta.

“Fui até o Norte do Chile pedindo carona. Depois, peguei ônibus até Oruro, na Bolívia. Vendi adesivos e, com a grana das vendas, cheguei em Corumbá. Segui por mais umas quatro ou cinco cidades e parei em Araçatuba”, contou.

No terminal rodoviário de Araçatuba, ele conheceu mais dois conterrâneos: o professor  Dani Daniel Quijada Gonzalez e o mecânico Cristian Marcelo Pizarro Reys, ambos na mesma situação.

Juntos,  seguiram até Bauru. Agora, o destino final está bem mais próximo. “Em São Paulo, vamos procurar a embaixada chilena e pedir amparo. Porém, ainda temos esperanças de acompanhar a Copa, nem que seja a movimentação próxima ao estádio”, completou Cantillano.


‘Foi um sonho realizado’

Um dos estrangeiros conseguiu cumprir uma das metas da viagem: assistir a um jogo do Chile. “Realizei um sonho de estar na Copa do Mundo e ver a seleção chilena em campo. Foi muita emoção”, comemora Dani Daniel Quijada Gonzalez. Ele assistiu à partida entre Chile e Austrália, em Cuiabá. A seleção chinela venceu por 3 a 1.

Depois, o próximo destino de Gonzalez era São Paulo para assistir a mais um jogo do Chile. Porém, na rodoviária de Campo Grande, perdeu a carteira com documentos e dinheiro. Precisou vender imãs de geladeira para continuar o trajeto. “Não me arrependo de nada. Brasil é muito bom. Povo acolhedor. Faria tudo de novo”, conta.


Roubo

Não foram só os peruanos que conheceram os ladrões do Brasil. O chileno Cristian Marcelo Pizarro Reys também foi vítima de assalto. Ele conta que, em Três Lagoas (MS), foi abordado por dois homens armados de faca e perdeu R$ 200,00.

Assim como os conterrâneos, Reys se aventurou pelas rodovias, pedindo carona e viajando de ônibus. Após o assalto, procurou um albergue na cidade e chegou a Araçatuba. Com o dinheiro das vendas de pulseira de cobre chilena (que trouxe na bagagem), garantiu a passagem até Bauru.


Pura sorte

Bem humorado, Marcelo Pizarro Reys brinca que o Brasil só venceu a seleção chilena, nos pênaltis, por “pura sorte”. “Brasil não mereceu ganhar. O goleiro Júlio César se adiantou em todas as cobranças”, criticou, em meio a risos.

Clima do mundial

Mas sorte é o que ele deseja ter quando chegar em São Paulo. Reys pretende participar de algum jeito da Copa. “Nem que for para ficar em volta do estádio e sentir o clima do Mundial. Seria um sonho realizado”.