O uso constante de combustíveis fósseis, ricos em carbono, é responsável por 85% da energia que alimenta o mundo. Como consequência, a cada 24 horas, perto de 90 milhões de toneladas de agentes poluentes são lançados, como esgoto a céu aberto, na fina camada de ar que cobre nosso planeta.
O carvão mineral tem mais carbono do que qualquer outro combustível e emite maior quantidade de dióxido de carbono (um dos gases responsáveis pelo efeito estufa) para cada unidade de energia produzida. Sua queima gera emissões de óxido nitroso, dióxido de enxofre (que causa a chuva ácida) e poluentes tóxicos como arsênico e chumbo. Merece destaque o fato de que, em muitos países, peixes e frutos do mar estão contaminados com metil mercúrio, originário das usinas termelétricas a carvão. Segundo projeções atuais, o consumo de carvão deve subir acima de 65% nas próximas duas décadas por ser abundante e barato, uma vez que o distorcido sistema de contabilidade adotado para aferir seu custo exclui qualquer consideração aos danos de sua queima.
Tanto é assim que, nos últimos dez anos, o consumo de energia na China subiu mais de 150%, superando o dos Estados Unidos e esse gigante asiático extrai cerca de 70% de sua energia do carvão. Lá, o consumo dessa matéria-prima cresceu 200% na mesma década, chegando a um nível três vezes superior ao norte-americano. A China é o maior importador de carvão do mundo ? seguida pelo Japão, Coreia do Sul e Índia ? e de longe, o maior produtor ao responder por metade do carvão do planeta.
O petróleo é a segunda maior fonte de poluentes causadores do aquecimento global, pois, contém de 70 a 75% de carbono em relação ao carvão, por unidade de energia produzida. Além disso, a maioria das novas reservas previstas ? sob a forma de petróleo de xisto, perfuração oceânica profunda e areias de alcatrão ? tem alto custo de exploração e um potencial muito maior de causar danos ao meio-ambiente.
Ainda que o apetite pelo petróleo seja menor na comparação com o consumo de carvão, o volume utilizado na China dobrou na década de 1990 e de novo, na primeira década deste século, só perdendo para os Estados Unidos. Em 2010, pela primeira vez, as exportações da Arábia Saudita para a China superaram o fluxo de petróleo para os Estados Unidos.
Muitos observadores consideram irônico que, após os Estados Unidos invadirem o Iraque ? pelo menos em parte, para garantir a segurança no fornecimento de petróleo ? a China tenha se tornado o maior investidor em campos produtores iraquianos.
O gás de xisto inundou o mercado norte-americano com a descoberta e o aperfeiçoamento de uma nova tecnologia de extração que combina a perfuração horizontal e o "fraturamento" hidráulico (fracking). Esse processo gera vazamento de enormes volumes de metano (muito mais nocivo que o dióxido de carbono) que, como revelam estudos recentes, é suficiente para anular praticamente todas as vantagens que o gás de xisto teria sobre o carvão. Esse processo ainda exige a contínua injeção de água misturada com areia e produtos químicos tóxicos nas formações rochosas ricas em gás. A exigência de uma média de 18 milhões de litros de água para cada poço já causa conflito em regiões afetadas pela escassez hídrica.
A busca por energia para suprir uma demanda sempre crescente representa uma ameaça ao nosso futuro. Com certeza, as gerações que estão por vir terão que conviver com a dolorosa lembrança de que a Terra um dia foi hospitaleira para os seres humanos. Quando essa lembrança desaparecer, ainda assim será contada a história que, nas primeiras décadas do século 21, uma geração abençoada com a maior prosperidade quebrou seu compromisso de fé no futuro ? simplesmente pensou mais em si mesma e nas recompensas imediatas, sem se importar com quem viria depois. Provavelmente seremos amaldiçoados.
O autor é professor titular aposentado do
Departamento de Engenharia Mecânica da
Faculdade de Engenharia da Unesp - Bauru