Durante 30 minutos (pouco mais do que o tempo que levou a Alemanha para matar o Brasil com cinco gols), meu celular não parou. Na meia volta do ponteiro após o apito final no Mineirão, foram mensagens, gente ligando e tentando comentar o jogo. Achar uma explicação, ou inventar uma.
Ainda anestesiado, minha única preocupação foi uma rápida mensagem de texto: “O Tuco tá bem?”, perguntava sobre meu sobrinho, de apenas cinco anos. “Chorou setes vezes. De soluçar. Ele não entende que isso é jogo, perder ou ganhar”, foi a resposta, dura de ler.
Viajei até 1998, recordei até Ayrton Senna e lembrei que sei o que é perder e o quanto isso dói. Mas ainda estava anestesiado e, talvez, essa sensação de que nada aconteceu passe hoje, quando eu acordar do pesadelo.
O jogo de ontem serve como lição. Ninguém imaginava o tamanho do abismo entre o futebol brasileiro e o alemão. Nem eu, nem você, nem Felipão, nem ninguém. Caímos no conto da Copa das Confederações, quando batemos a Espanha. Acreditamos que dava para ganhar na raça. Mete o pé e vai na fé. Não é bem assim. Não com a Alemanha e sua eficiente frieza.
Já dizia minha vó: “Quanto mais alto, maior o tombo”. A escada imaginária de Felipão rumo ao hexa era grande, mas o topo parecia próximo. Restavam dois degraus.
Mas se você já caiu de uma escada, sabe como é. Um tropicão e você rola ladeira abaixo. Vai batendo cabeça, se esperneando, ralando tudo. E o pior: quando chega lá embaixo, não sabe como foi que caiu.
Com cinco anos, meu sobrinho repetiu o mesmo roteiro meu e de tantos outros quando a inocência ainda nos preserva de algumas análises. Enxugou as lágrimas e foi descontar a raiva, a dor, com toda força possível em chutes sem rumo numa bola de capotão. Pobre bola, tão bem tratada nos pés dos brasileiros, ontem foi esculhambada, jogada longe. Nos quintais por aí e também no Mineirão.
Até hoje nunca me explicaram a Copa de 1998, não me trouxeram Senna de volta. Com o tempo, vamos tendo a certeza de que a gente só amadurece quando aprende a lidar com a dor. Um dia, o ‘Tuco’ vai entender isso.
Nessa hora, a distância atrapalha. Queria estar do lado dele, não para explicar o que não tem explicação. Muitas coisas são simples, fáceis de serem tratadas principalmente com crianças. “Isso pode, isso não pode”. Outras, simplesmente são para esquecer, e não para entender.