08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Todos com a Argentina


| Tempo de leitura: 4 min

Esse é o momento. Unidade latino-americana em primeiro lugar e acima de tudo. Todos nós devemos demonstrar total e irrestrito apoio à causa argentina. Insuportável seria manter um distanciamento diante dos últimos acontecimentos. A Argentina representa nesse momento o irmão latino necessitando do braço estendido de todos os demais do continente. Ou somos verdadeiramente latinos, irmãos de fato ou não somos nada. Impossível manter-se indiferente.

Explico. Anos atrás minha finada mãe possuía precatórios para receber e o governo paulista adiou seu pagamento (seus herdeiros vieram a receber após sua morte) o quanto pôde. Cansada de esperar, liga para o setor responsável pela liberação e recebe uma lacônica resposta: "Sem nenhuma previsão de pagamento. Havendo necessidade, existem pessoas interessadas em comprar. Pagam à vista em torno de 50% a 60% do montante". Depois fica sabendo que negociavam o valor integral com devedores do Estado, recebendo desses mercadorias e no valor integral. São os tais abutres, aqui numa pequena escala.

São os tais que não mais ganham a vida com a força do trabalho e sim sem nada fazerem de concreto, só manipulando financeiramente grandes valores e, consequentemente, o mundo. Daí o termo "abutre". Adoram sangrar quem lhes caiam nas sujas mãos e agem sem dó, muito menos piedade. Contam com o pleneplático de alguns economistas, vendo em suas ações algo dentro da mais absoluta normalidade. São, na verdade, a excrescência do sistema capitalista, o seu lado mais cruel e insano.

O que estão a fazer com a Argentina podem fazê-lo com qualquer outro, pois para esses não interessa quem esteja do outro lado, se uma nação, um ser em estado de necessidade, nada disso, o que importa é o alto lucro em questão. A cara do outro lado do balcão não lhes diz nada.

A dívida do país vizinho estava negociada, sendo paga mês a mês, acordo acertado entre o país e seus credores. Tudo na mais absoluta normalidade (se é que existe normalidade em negociações financeiras), até o momento que um pequeno grupo, representando por volta de 8% dos credores, negociam suas dívidas com essas empresas abutres. Recebem um valor muito menor do montante do que tinham para receber, sempre à vista. A especulação sabe jogar e joga sempre dessa forma.

Daí esse fundo abutre entra com uma ação na Justiça Comum norte-americana mostrando sua verdadeira face. Exigem que o governo argentino pague a eles o montante à vista. Primeiro que a dívida não era com eles, depois que a Argentina não pode por motivo contratual quitar a dívida de alguns credores e não o de todos. Pagar tudo ela não tem condições. Deposita em juízo o valor de mais uma parcela, mas um juiz nova-iorquino embarga o valor e está a exigir o pagamento total da dívida. Na confirmação disso, a moratória, ou seja, o calote, o país quebra, ninguém mais recebe nada e com a inadimplência estabelecida, todos os créditos argentinos estarão congelados. A quem interessa isso?

E por que estar ao lado dos argentinos? Primeiro porque somos todos latinos, a Argentina um país irmão, vizinho parede-meia do Brasil. Depois porque é de uma insanidade sem fim respaldar ou manter-se calado diante de atos dessa natureza. Depois porque algo assim não deve e nem pode ser julgado por um juiz normal e sim, por um órgão isento e internacional. E, por fim, essa e outras práticas do neoliberalismo, usual desumanidade, precisam ser impedidas de continuar decretando a quebra de países. Com a união de todos os países latinos, voz forte e em alto e bom som, dedo em riste, existe a real possibilidade de reverter o veredicto. Um fraco isolado e sozinho vale pouco, mas quando todos fracos estiverem unidos, tudo muda de figura.

Daí a necessidade de uma união, grita geral, não só dos países latinos, mas do mundo e variadas instituições num todo. Demonstração explícita da rejeição e tolerância zero com os repugnantes métodos financeiros de mercado atualmente em execução. Hoje é com a Argentina, amanhã com qualquer outra nação, daí a necessidade de todos vestirmos a camisa deles nessa luta. Essa goleada, verdadeiro massacre do poderio econômico financeiro mundial, não pode ser mais aceita. Tudo isso é muito mais do que uma disputa por pênaltis, muito mais do que ganhar ou perder o mundial da bola. Em questão a sobrevivência de um quase irmão, um vizinho e nada faremos por ele?

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).