08 de julho de 2026
Geral

Seus donos não voltarão mais

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Quioshi Goto

Já em lar temporário e até com roupinhas novas, a pequena Nina e o sisudo Negão foram achados no local em que Nilza e Célio (abaixo) morreram

Rodrigo Lombardi/Divulgação

Após mais uma de suas escapadelas, Nina volta com aquela cara de “pidona”. Balança o rabo perto do contêiner, localizado na quadra 10 da rua Antônio Gobete, Vila Engler, região do Jardim Contorno. Tenta agradar alguém que não está mais ali. Já Negão, com seu porte médio e ar sisudo, faz cara de “segurança” do local. Protege alguém que não está mais ali. O chamuscado e o cheiro de queimado não são suficientes para que entendam o que ocorreu.

Conforme noticiado pelo JC, nos primeiros minutos da madrugada da última quarta-feira, incêndio atingiu o baú de um caminhão localizado às margens da Marechal Rondon. Lá, moravam Célio Aparecido Lopes, 43 anos, e Nilza Alves da Silva Marciano, 47 anos. É o casal que Nina e Negão ainda esperam. Espera em vão.

O casal sobrevivia com auxílio da comunidade, além de trabalho com capinação. Já o baú foi doado por uma família da região.

Moradores dos entornos contam que Célio e Nilza, apesar de viverem em situação precária, tratavam dos dois cachorros com um “amor incondicional”. “Eles não têm um carrapato. São saudáveis e bem alimentados. É nítido que eram bem cuidados”, relata Fabiane de Almeida Prado Travençolo, 34 anos.

Pouco se sabe há quanto tempo os quatro passaram a conviver juntos. Nem onde e como se encontraram. “Mas dava para notar que tinha um grande carinho”, conta Rodrigo Lombardi, 31 anos, gerente de uma loja na quadra 21 da Nações Unidas. “Eles passavam todo dia aqui. Os cachorros ficavam do lado de fora esperando. São bem educadinhos”, relembra.

A “fujona” Nina era quem mais acompanhava o casal. Dava suas escapadas, mas sempre voltava. Foi castrada, porém, o fato não diminuiu a vontade dela de “ganhar as ruas”. Negão, com seu porte médio, ficava guardando a “casa”. O baú e também os donos. Nunca se sabe os perigos que quem mora na rua pode enfrentar. Infelizmente, ele não pôde fazer nada na última quarta-feira (leia mais abaixo).

Resgate

Emocionados, moradores da região resgataram os cães do local. “A Nina subia toda hora no baú. Parecia não acreditar que a dona não estava ali. Foi muito triste. Parecia os procurar”, conta Fabiane.

Negão e Nina estão em um lar temporário. Alguns interessados em adotá-los até surgiram. Contudo, precisariam ser separados. “Se tornaram companheiros. Por enquanto, vamos deixá-los no lar temporário. Para eles se recuperarem”.

Recuperação necessária. Não física, mas emocional. Apesar da espera pelos donos, no fundo, Nina e Negão parecem saber que Célio e Nilza não vão mais voltar. “Hoje, eles têm um semblante triste. Estamos tentando reverter isso. Eles precisam de amor”, finaliza Fabiane Travençolo.

Quem quiser dar alguma ajuda aos animais, pode entrar em contato com a Lilian Oliveira, que também ajudou no resgate, pelo telefone (14) 99670-4230.


Dona usava o próprio xampu nos cães

Fabiane Travençolo relembra que o casal cuidava muito bem dos cachorros. “Presenciávamos cenas em que eles tiravam deles mesmos e davam para a Nina e o Negão”, conta.

“Ela dava banho neles sempre. Não os deixava ficar sujos. E ela usava o próprio xampu para passar nos cachorros. Era uma coisa bonita de se ver”.

Mesmo diante da tragédia, dona Nilza ficaria feliz ao ver os cães agora. Negão e Nina tomaram banho ontem e ganharam uma casinha de cachorro nova.

“Nós devíamos isso a eles. Tanto aos cães quanto ao casal. Eles podiam ter os problemas deles, mas sempre foram muito simpáticos com todos do bairro. E nunca nos furtaram ou algo do tipo”, finaliza Fabiane.


O caso

O incêndio que tirou a vida de Aparecido Lopes e Nilza Alves da Silva Marciano ocorreu por volta da 0h15 da última quarta. O Corpo de Bombeiros foi acionado para conter as chamas. Ao abrir o baú, em meio aos destroços, foram encontrados os corpos carbonizados.

Um pequeno botijão, normalmente utilizado em campismo, foi encontrado aceso no interior do contêiner. Há a possibilidade de o casal ter utilizado o produto para se proteger do frio.

Havia um histórico de agressão entre eles. Vizinhos chegaram a contar que Célio se tornava violento após ingerir álcool e usar drogas. Apesar de a hipótese acidental ser a mais forte, a Polícia Civil investiga o caso.