Ele tem apenas 9 anos, mas já passou por algumas frustrações. Felipe Moreira perdeu a avó materna aos 4 anos, o cão de estimação aos 5, começou a escola com notas baixas e viu a Seleção Brasileira perder em casa de forma vergonhosa nas semifinais da Copa do Mundo deste ano. O que ele fez em todas as ocasiões? Chorou e seguiu em frente. Essa exposição dos pequenos a perdas e frustrações é saudável, desde que seja abordada de maneira natural pelos pais.
É o que afirma o professor do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Sandro Caramaschi. Segundo ele, as decepções são inevitáveis e têm de serem tratadas pelos pais de duas formas, que variam de acordo com a idade das crianças, para evitar que elas cresçam com traumas ou mais propensas a desenvolver determinadas fobias.
Quando um ente querido ou um animal de estimação morre, por exemplo, os pais têm de tratar o assunto com uma dose de fantasia, caso os pequenos sejam muito novos. Se as crianças forem mais velhas, a abordagem direta é a melhor saída. “Essa conversa faz com que os pequenos amadureçam e aprendam a conviver com as decepções para desenvolver resiliência enquanto adultos”, explica Caramaschi.
O professor acrescenta ainda que os pais têm de conversar sobre as consequências de perdas e frustrações e perguntar o que as crianças sentem, salientando sempre o outro lado das situações.
Se houver morte, por exemplo, os responsáveis têm de fazer com que os pequenos entendam que é inevitável, mas que as lembranças serão eternas. Quanto às atividades esportivas, sempre terão perdedores e vencedores. “Mesmo quando houver vitórias, as crianças têm de aprender a pensar na dor de quem perde para se preparar ou fugir do egocentrismo”, reitera Caramaschi.
Diálogo
De acordo com Telma Benedito Moreira, mãe do pequeno Felipe, flagrado chorando pela reportagem do JC no último jogo da Seleção, a criança sempre foi bastante controlada, porque conseguiu superar a morte da avó materna, do cão de estimação e, até mesmo, as notas baixas na escola.
“Conversei com ele e disse que as notas só melhorariam se ele se esforçasse. Hoje, ele só tira 9 ou 10”, complementa a mãe. “Eu melhorei na escola e enfrentei as duas perdas para dar orgulho à mamãe”, confessa o menino.
Porém, na última disputa da Seleção, Felipe não conseguiu conter os prantos. “Nós assistíamos à disputa no Bauru Tênis Clube (BTC) e ele começou a chorar a partir do quinto gol da Alemanha. Eu e o pai dele não contivemos a emoção ao vê-lo daquele jeito”, conta Telma. Mesmo assim, a mãe da criança encontrou forças para explicar que a vida é feita de oportunidades e, se uma delas não der certo, haverá muitas outras. “Ele aguarda agora a vitória do Brasil na próxima Copa do Mundo”, conclui a mãe.
Mas chorar é bom mesmo?
Nesta última semana, imagens de crianças aos prantos depois da derrota vexatória da Seleção correram o mundo. Diante disso, fica claro que o caso do pequeno Felipe, um dos protagonistas da capa do JC na quarta-feira, não foi o único.
Dois dias após a disputa decisiva, a criança afirmou à mãe que chorar era bonito e que ele se sentiu aliviado por ter expressado a decepção através dos prantos. Mas, neste caso, será que chorar é bonito mesmo?
De acordo com o professor do departamento de psicologia da Unesp de Bauru, Sandro Caramaschi, o choro nada mais é do que externar uma emoção, seja ela positiva ou negativa, de forte intensidade.
Regras estabelecidas
“O choro é bom, sim, mas a sociedade estabelece regras que impedem o exagero, porque prejudica as relações sociais. Porém, no caso de Felipe e das diversas crianças brasileiras, essa exposição representa uma emoção genuína, fato que a torna bonita”, pontua o professor Caramaschi.
O que resta, então, é bola para frente...
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Bruno Freitas/Divulgação |
João Rosan |
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Felipe Moreira, 9 anos, no colo da mãe Telma foi capa do JC |
Após choro, garoto se conformou e espera vitória na próxima Copa |