Ter algum tipo de distúrbio emocional é uma situação que causa constrangimento perante à sociedade, um dos motivos da demora da cura. Para lidar com esse tipo de problema, existe, em Bauru, há 27 anos, o grupo Viver de Verdade de N/A Neuróticos Anônimos, que “acolhe” acometidos e os ajuda a superar os distúrbios. Um levantamento feito pela entidade aponta que as mulheres são 60% no grupo de cerca de 25 participantes.
O Neuróticos Anônimos surgiu há 50 anos nos Estados Unidos e foi fundado por um ex-frequentador dos Alcoólicos Anônimos (AA) recuperado, que percebeu que tinha distúrbios emocionais. Usando o mesmo método do AA, a instituição chegou ao Brasil há 45 anos. E, em Bauru, há 27 anos.
Maria (nome fictício), 37 anos, uma das participantes do comitê de serviços do grupo em Bauru, explica que o Neuróticos Anônimos realiza reuniões semanais às quartas e quintas, momento em que cada participante pode falar e discutir sobre o seu problema e o do próximo.
“É uma realidade em nível nacional. Percebo que sempre temos mais mulheres do que homens. Temos os 12 passos, as 12 tradições. Embora não tenha um direcionamento religioso, fazemos a oração da serenidade, que tem uma espiritualidade. Essa é a base de todos os grupos anônimos que existem no mundo”, disse.
No Neuróticos Anônimos, o lema é “Só por hoje, evitar o descontrole emocional”. Com característica de ajuda mútua, a reunião se baseia também na “teoria do espelho”, ou seja, como cada participante encara o problema do outro, além do seu objetivo de crescimento pessoal.
Cada encontro discute um passo, tem duas horas de duração e os participantes têm o direito de fazer o uso da palavra por dez minutos. Dentre os principais problemas apontados entre os participantes do grupo de Bauru, estão: depressão, medos diversos, pânico, perdas familiares, perda de emprego e pessoas que sofrem com alcoólatras na família.
“O programa não tem um tempo fixo de duração. Cada pessoa pode frequentar por quanto tempo quiser. A cada vez que cumprimos os 12 passos, sendo um por semana, recomeçamos tudo na semana seguinte, com novos depoimentos e novos aprendizados”, salienta.
Aniversário de 27 anos do grupo em Bauru contará com um evento
O Grupo Viver de Verdade de N/A Neuróticos Anônimos comemora, neste mês de julho, seus 27 anos de existência. Por isso, convida a população de Bauru e região para prestigiar, neste domingo, o encontro festivo, ocasião em que será ministrada palestra com o tema “Deus como nós O concebemos”. O encontro será realizado no auditório da paróquia Santa Rita, das 9h às 17h, localizada na rua São Gonçalo, 3-54, Centro, com entrada franca.
Além do encontro de aniversário, quem desejar participar de uma reunião de terapia em Bauru pode procurar o Viver de Verdade todas as quartas-feiras, às 20h, ou quintas-feiras, às 14h30, na rua Bandeirantes, 12-43, Centro. Outras informações podem ser obtidas pelo site oficial: www.neuroticosanonimos.org.br.
‘Preciso seguir um dia de cada vez’
Este é o lema de Aparecida (nome fictício), uma bauruense de 58 anos, mãe de três filhos e avó de três netos. Frequentadora do grupo há cinco anos, ela procurou ajuda depois de um histórico de ansiedade e insônia.
“Eu estava com problemas no meu relacionamento, fazendo faculdade, e juntou tudo com a correria do trabalho e com os filhos. Fiquei muitos dias sem dormir e procurei ajuda de psicólogo e médico. Comecei a tomar remédios mas sabia que teria efeitos colaterais”, contou.
Quem despertou a procura pelo grupo foi uma colega de faculdade. “Ela sabia que eu tinha muitos problemas. Até que um dia ela comentou que ia para uma reunião com o grupo e eu fui junto. Era só para acompanhar e acabei ficando. Fui suspendendo a medicação aos poucos e, hoje, não tomo mais remédios para insônia e nem ansiedade. O contato do grupo é fundamental. Aprendi a respeitar a mim e ao próximo”, finalizou.
Força e cura
A psiquiatra Beatriz Camargo Fontanella salienta que o trabalho do grupo é fundamental no complemento do tratamento médico, assim chegando à cura. “É um grupo muito bem aceito porque permite a inclusão social de pessoas que não estão conseguindo ter outras formas de participação, até por estarem doentes. A importância deste grupo é o apoio, o autoconhecimento, a troca de experiências e a espiritualidade, independente de religião, que enriquece o tratamento. Só a medicação não é suficiente para grande maioria dos transtornos mentais. A medicação, mais um apoio psicológico e mais o apoio desses grupos tornam o tratamento bem mais eficaz”, complementa a médica.