09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Abel Fernando Marques Abreu

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

João Rosan

Português de alma brasileira e coração bauruense

Nascido na cidade de Murtede, em Portugal, Abel Fernando Marques Abreu chegou ao Brasil em 1951 com os pais e irmãos já com destino a Bauru, onde tinha familiares. Aqui, foi conquistando o seu espaço e logo tornou-se uma das principais referências para a comunidade portuguesa. 

Ainda menino, trabalhou como faxineiro numa loja de materiais elétricos no Centro da cidade para ajudar no sustento da família. Sempre estudioso, inclusive sobre símbolos e história de Portugal, ele chegou a delegado de polícia, professor universitário, entre inúmeros outros cargos de destaque.

Abel ajudou a fundar a Associação Luso Brasileira de Bauru e fez parte de diversas diretorias da Sociedade Beneficente Portuguesa. Religioso, ele foi um dos responsáveis pela vinda da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima a Bauru e, recentemente, foi o coordenador geral das festividades comemorativas do Jubileu de Ouro da Diocese de Bauru. A seguir, alguns trechos da entrevista. 

Jornal da Cidade - Por quais mares o senhor navegou antes de chegar a Bauru?

Abel Abreu - Nasci na cidade de Murtede, em Portugal. Foram 12 dias navegando. Céu e mar. Cheguei a Bauru no dia 19 de janeiro de 1951. Vim com meus pais e irmãos e já tínhamos parentes por aqui. Na cidade, solidificamos as nossas vidas, eu e meus irmãos formamos nossas famílias, tivemos filhos. Como costumo dizer, aqui sorrimos e aqui choramos (risos). Encontramos o coração hospitaleiro do povo bauruense. Uma bela homenagem me foi feita em 2002: eu recebi o  título de  Cidadão Bauruense pela Câmara Municipal de Bauru. A casa ficou abarrotada de amigos. Foi inesquecível. Na ocasião, declarei: “Creiam: doravante, se o meu âmago é português, a minha alma é brasileira e o meu coração é... bauruense”. E continua sendo, até que a morte nos separe! (risos)

JC - Apesar de ser muito conhecido pelo cargo de delegado de polícia, a sua trajetória profissional foi variada.

Abel - Assim que cheguei, encontrei emprego como faxineiro em uma casa de materiais elétricos, aos 11 anos de idade. O trabalho humilde impulsionou minha caminhada profissional. Sempre gostei muito de estudar. Fiz faculdade de direito e inúmeros cursos e especializações. Fiz até um curso de introdução ao jornalismo, promovido pela Folha de S. Paulo. Acreditei que era preciso seguir os trâmites laborais que a vida apontava e fui crescendo, sempre estudando. Fui gerente de banco, produtor e apresentador de TV, colunista social, radialista, advogado, professor e diretor de faculdade de direito, assessor dos Municípios da Secretaria de Segurança Pública, delegado de polícia, chefe de gabinete da presidência da Câmara Municipal de Bauru e, hoje, sou proprietário e diretor executivo dos cursos da escola People: informática, administrativos, espanhol  e inglês.

JC - A escola é seu novo desafio?

Abel - Sim. Depois da aposentadoria, fiquei três anos em casa sem fazer nada, parado. E decidi que eu precisava fazer algo para ser útil às pessoas, empregar, por exemplo. Comprei a escola.    

JC - A Luso conta com sua efetiva participação.

Abel - Sim, desde sua fundação, que teve início com as reuniões que eu fazia no quintal da casa de meu falecido pai, João Abreu, que tinha um grupo folclórico de danças portuguesas na cidade. A gente relembrava nossa santa terrinha comendo sardinhas assadas na brasa e saboreando um bom copo de vinho. Também líamos os escritores portugueses e ouvíamos fados lusitanos. Falamos com a família Silva Martha e nos unimos com outros homens de peso que se dedicaram de corpo e alma à construção e criação da Luso. Fui o idealizador da tradicional Festa Portuguesa e penso com imensa alegria e saudade daqueles tempos. 

JC - Eventos inesquecíveis?

Abel - Muitos. Durante 25 anos fui mestre de cerimônias das homenagens ao Dia de Portugal, Dia de Camões e Dia da Raça. Sempre estive promovendo ou participando ativamente dos eventos lusos de Bauru. Quando o cônsul geral de Portugal, Paulo Jorge Lopes Lourenço, esteve em São Paulo, há pouco tempo, eu participei de sua recepção. Recentemente, atuei ativamente na comemoração dos 100 anos de fundação da Associação Beneficente Portuguesa de Bauru. Fui o autor do histórico videoclipe com a trajetória do hospital e produtor e apresentador da cerimônia comemorativa. Gosto de fazer festa e ver as pessoas felizes.

JC - O senhor é um homem religioso?

Abel - Sim. Há pouco, eu tive uma grande oportunidade de servir a Jesus, servir a Deus. Fui o coordenador  geral das festividades comemorativas do Jubileu de Ouro da Diocese de Bauru, um grande sucesso de público com quase 15 mil pessoas no Estádio Alfredo de Castilho. Tive a honra de ser o mestre de cerimônias desse grande evento religiosamente católico. Só tenho a agradecer, inclusive ao bispo diocesano de Bauru, dom Caetano Ferrari. Por falar em religião, em maio de 2000 conseguimos liderar a vinda da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima a Bauru, um dos momentos mais marcantes da história da comunidade portuguesa da cidade. Fico emocionado ao lembrar. Sou devoto e já tive muitas experiências de fé. Ela sempre está me guiando. 

JC - Um momento triste.

Abel - O maior deles foi a perda do meu pai. Ele nos deixou um legado que basta como afirmação de uma personalidade digna de respeito e admiração, de estima e de saudade... Muita saudade. Jamais nos esqueceremos do grande homem que foi João Abreu.

JC - Uma grande alegria.

Abel - Tive muitas, graças a Deus. Uma delas foi a formatura de direito na Faculdade de Direito de Bauru, na Instituição Toledo de Ensino (ITE). Fui eleito pelos formandos o orador da Turma Robert Kennedy, de 1968. Os nascimentos dos meus filhos também trouxeram imensa alegria. Ter sido professor e diretor da Faculdade de Direito de São Carlos também, porque ajudei na recuperação daquela escola. O convite do secretário de Estado da Segurança Pública do Estado de São Paulo, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, para exercer as elevadas funções de assessor dos Municípios, foi outro momento ímpar.

JC - Como chegou à polícia?

Abel - A vida foi me levando. Porém, ter me formado delegado de polícia foi outra alegria em minha vida. Com o apoio dos meus colegas, eu instituí a formatura dos delegados de polícia quando fui eleito presidente e orador por unanimidade dos membros da Comissão de Formatura do Concurso 4/1990, promovido pela Academia de Polícia de São Paulo, Turma Dr. Álvaro Luz Franco Pinto, que teve o doutor Romeu Tuma como patrono. Fui delegado da Delegacia da Infância e Juventude (Diju) e da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise). Fiz muitas campanhas. Uma delas, “Diga Não às Drogas”, para dois milhões de pessoas. Foi um sucesso, a apreensão de drogas caiu muito naquele ano. Acredito que hoje falta fazer mais pelos jovens.  

JC - Família.

Abel - Desde menino eu aprendi que a família, além de ser a base de toda a sociedade, é também o sustentáculo do sucesso de nossas ações. É na sociedade familiar que geralmente aparece a mulher que nos apoia ou não. Por isso, não poderia deixar de enaltecer aquela que me inspira e me dá o esteio necessário para vencer as batalhas do cotidiano: a milha esposa, minha querida companheira de todas as horas.


Perfil

Nome: Abel Fernando Marques Abreu

Idade: 76 anos

Signo: Câncer

Local de nascimento: Murtede/Portugal

Hobby: Fazer amigos e conservá-los

Livro de cabeceira: A Bíblia Sagrada e, recentemente, “Os Portugueses”, de Ana Silvia Scott, presente do amigo Fernando José Martha de Pinho

Filme preferido: “A Um Passo da Eternidade”, de 1953, mas também gosto de “Assim Caminha a Humanidade” e “Adeus às Ilusões”

Time: Esporte Clube Noroeste

Estilo musical predileto: Fado português e MPB

Para quem dá nota 10: Para aqueles que se preocupam com as mazelas da população, sofrida e carente; é hora de repartir o pão

Para quem dá nota  0: Para os ladrões de Brasília, soltos e presos, e também  dos estados e municípios

Email: abelfernandomarquesabreu@gmail.com